ENTREVISTA

Diogo Mãozinha: “Meu rugido começou sozinho e está chegando a lugares que nunca imaginei”

Diogo Ricardo do Nascimento, o Diogo Mãozinha, é fotógrafo, bailarino, cinegrafista e editor de vídeos publicitários. Tem trabalhos apresentados em Natal, Recife e na Europa. Um currículo e tanto, mas que não foi suficiente para barrar o preconceito racial em Natal, cidade onde mora com a mulher e quatro filhos. Mãozinha foi vítima de racismo dia 8 de dezembro. O caso ganhou repercussão nacional.

Naquela data, pela manhã, o fotógrafo foi tentar receber numa casa de câmbio de Petrópolis, um bairro nobre da cidade, o pagamento por um trabalho realizado para uma companhia de dança da Suíça.

Perdido, pediu informações às pessoas que encontrou na rua até chegar ao endereço certo. Já de noite, na volta para casa, recebeu uma mensagem de um amigo que o fez temer a morte. Câmeras de segurança de uma das lojas onde Diogo parou em frente para pedir informações captaram imagens dele, alguém fez o print e espalhou por grupos de whats app da região alertando as pessoas para tomar cuidado.

O crime ? Diogo tem a cor da pele preta.

“Pensei que fosse morrer, senti que estava correndo risco de vida”, disse na sexta-feira à agência Saiba Mais.

Diogo Mãozinha tem 30 anos de idade, é pai de quatro filhos e tem paralisia cerebral, que compromete parte do lado esquerdo do corpo. Defendido no caso por dois advogados, pede calma à comunidade de Mãe Luíza, onde mora, e diz acreditar na Justiça. O bailarino não quer que ninguém tente fazer justiça com as próprias mãos. E se compara ao personagem Simba, do filme O Rei Leão:

– O Simba foi acusado de matar o pai e estava sozinho no meio da multidão sendo julgado por todo mundo. E ele começou a gritar e a galera passou a escutar. Então é mais ou menos isso. Meu rugido começou sozinho e está chegando a lugares que nunca imaginei”, reflete.

O fotógrafo e bailarino registrou a queixa na delegacia, um inquérito já foi aberto e corre em segredo de Justiça.

Nesta entrevista especial, a agência Saiba Mais conversou com Diogo Mãozinha sobre o caso, racismo, deficiência, a geração Mimimi e a trajetória do artista que precisa matar dois leões por dia para vencer na vida.

O apelido Mãozinha foi incorporado ao nome artístico depois que um amigo sugeriu que ele não levasse a sério o bullyng no bairro. Aliás, ele faz uma ressalva na entrevista: que a sociedade não vitimize pessoas com deficiência.

Agência Saiba Mais: Como está agora depois do caso de racismo ?

Diogo Mãozinha: Foi pesado, mas tenho que manter a calma. Tenho uma filha de 7 anos, que foi a maior vítima. No dia do ocorrido, o primeiro questionamento que ela teve para mim foi: “papai, eles estão fazendo isso com a gente porque a gente é negro, né ?” Entendeu ? Uma criança de 7 anos começar com um tipo de questionamento desse é pesado, então isso foi o que mais mexeu comigo.

A reação da sua filha foi o que mais te marcou nesse caso ?

Essa reação dela é que foi muito triste, tá ligado ? E está sendo ainda…. mas em contrapartida ela tem uma autonomia pensante. Ela acompanha meus stories e disse: “mamãe, ta vendo, as pessoas gostam de papai, papai é uma pessoa boa, só quer bater foto”. Então isso mostra maturidade, mas não era essa maturidade que eu queria, tá ligado ? Eu queria que ela tivesse uma maturidade de criança mesmo, de brincar, de ser criança, é mais ou menos isso.

“Papai, eles estão fazendo isso com a gente porque a gente é negro, né ?”

O que aconteceu de fato naquele dia ?

Fui receber um dinheiro por um trabalho que eu tinha feito para uma companhia de dança da Suíça, um trabalho de vídeo-filmagem porque eu presto um serviço para uma companhia de Dança. E durante a pandemia eu não pude fazer esses “corres”, então eles estão tentando me ajudar de todas as formas. E na terça-feira eu fui, por volta do meio-dia, 13h, cheguei nas imediações (da rua Afonso Pena, em Petrópolis) e me perdi. Eu nunca tinha ido para aquele lado da (zona) Leste. Imagina… eu moro em Mãe Luíza e nunca pensei que algo assim pudesse acontecer comigo na Zona Leste, eu pensei que pudesse acontecer na Zona Sul, mas ali nunca. Como eu estava meio perdido, peguei minha colinha e fui em dois lugares. E falei: “moço, onde é esse endereço aqui?” E o pessoal foi atencioso, me explicaram e fui seguindo o fluxo que pediram para eu ir. Só que chegando no local senti que os números estavam meio estranhos, sabe ? Não batia. E vi o segundo lugar, onde me fotografaram. Eles estavam abrindo a porta e perguntei onde era o endereço. Nesse lugar também foram atenciosos, olharam no próprio celular o número pra ver se coincidia com o lugar para onde eu ia, me indicaram e eu fui.

E deu tudo certo ?

Não deu porque faltavam alguns documentos, mas cheguei ao local. E tudo bem, passou. O problema é que à noite, quando eu cheguei em casa, por volta das 20h, me deparei com uma mensagem: “mãozinha, tome cuidado que sua foto está circulando em grupos de whats app nas redondezas dizendo que você estava filmando para cometer assaltos”. Quando eu li aquilo caiu a ficha: “eu estava correndo de risco de vida”. No primeiro vídeo que fiz no instagram, o post não foi para apontar errado, mas uma forma de avisar que eu estava sentindo que eu ia morrer. Porque se acontecesse alguma coisa comigo a galera ia saber onde eram as imediações.

“Quando eu li aquilo caiu a ficha: “eu estava correndo de risco de vida”.

E houve uma revolta imediata…

Teve um agravante que muita gente ligou os locais como se fossem os culpados, mas não são. O incidente foi naquelas imediações. Então as pessoas estão distorcendo um pouco, está virando um telefone sem fio. E queria aproveitar o espaço também para pedir calma para a população, para as pessoas que querem fazer justiça, querendo ir em algumas lojas. Não quero que aconteça isso, estou calmo, estou sendo bem representado e resguardado. Vai ter Justiça. Sei que é revoltante, mas não quero que ninguém faça justiça. Do mesmo jeito que eu fui vítima de uma fake news, outras pessoas inocentes também podem ser penalizadas injustamente. E isso eu não quero.

Mas você já sabe de onde partiu a filmagem, quem fez os prints da sua imagem e colocou nos grupos acusando você de criminoso ?

Não mano… esses daí, esse tipo de informação eu não sei porque como está em segredo de justiça meus advogados não dizem muita coisa, sabe ? Dizem algumas coisas, mas não falam muito para que eu não cometa nenhum erro. Como está grande a pressão para cima de mim, eles não querem falar.

“Sei que é revoltante, mas não quero que ninguém faça justiça”.

Você não quer expor ninguém, por enquanto, então…

É, mano. Até agradeço esses dois representantes, que são muito altruístas, foram muito humanos. Passaram a madrugada toda conversando, me aconselhando, me desconstruindo, que eu tinha que ficar calado. No começo eu fiquei com medo de morrer. Até porque já tinha acontecido algumas coisas comigo, não de divulgarem minhas imagens, mas já sofri muito racismo. Então eu tinha uma barreira, muito medo. Então sentei e comecei a refletir. Assisti muitos relatos de outras pessoas que sofreram, a família do rapaz que morreu com 80 tiros, os meninos da escola que foram baleados. Então eu falei: “não, mano, eu não vou ficar calado. Se eu morrer eu vou morrer lutando”. Quero fazer justiça de uma forma limpa. Para as pessoas dizerem: “ele não badernou, ele em momento nenhum incitou a violência contra nada, ele foi uma pessoa íntegra do começo ao fim”.

Você quer que sua história sirva de exemplo também ?

Sim, eu quero que minha comunidade tenha voz. Daquele dia para cá ouvi muitos relatos. Pessoas me falando: “pô, Maozinha, aconteceu isso comigo outro dia…” e eu quero ser porta-voz da comunidade. Antes eu estava com medo, mas agora não: agora eu quero ser a voz pelo tipo de repercussão. Quero ser a voz ativa dessa coisa.

Você citou que essa não foi a primeira vez que você foi vítima de racismo. Como foi das outras vezes ?  

Sim, foi racismo. Hoje em dia, por muito tempo, eu tive que esconder que eu sou bailarino, sabe ? Eu sou bailarino, dancei balé clássico, usei sapatilha de ponta, fui 10 anos da companhia Gira Dança, dancei balé contemporâneo. Já fui abordado uma vez e perguntaram: “tu faz o quê da vida ?” Quando falei bailarino começaram a debochar. Então uma maneira que encontrei para amenizar é dizer que eu era publicitário. Porque quando eu falo “sou publicitário” a galera fala: “poxa, ele é foda”. Eles imaginam que a publicidade é uma parada muito grande, que só quem consegue acessar é a elite. Outra vez eu estava na Suíça trocando uma ideia com umas pessoas e um cara disse: “mano, você está aqui fazendo o quê?” Eu estou aqui como fotógrafo para cobrir um festival de dança. O cara se abismou. E se abismou porquê ? Porque ele viu um preto, nordestino no meio da Suíça, de Genebra, do poder econômico da Europa, num dos maiores festivais do país e que abrange cinco cidades da Suíça: Genebra, Volver, Lausanne, Stransbourg e outros lugares que não lembro o nome. Então é um choque, sabe ?

“Eu quero ser porta-voz da comunidade”

Esse choque era dos próprios suíços ?

Não, dos brasileiros mesmo que trabalhavam lá com outros empregos, tipo: uber, vendedor de picolé, garçons, conheci muita gente assim. E perguntavam logo se eu estava ilegal… e explicava que não, que eu me garantia, o pessoal da companhia gostou do meu trabalho e me contrataram. Mas o início é assim: um pré-julgamento. “Você é ilegal, um imigrante….” a gente é instruído, até eu mesmo, a conseguir subemprego. Minha mãe sempre dizia: “larga esse balé e vai trabalhar na construção, vai levantar tijolo”. Mas eu não aceitava isso. Eu vou ser bailarino, vou dançar e vou seguir assim.

E como é que o balé entrou na sua vida ? Era algo que você sempre quis fazer ou aconteceu de forma inesperada ?

Então… no começo não, ta ligado ? Começou mais como uma zoação mesmo. Teve um projeto em 2007 com o Instituto Ayrton Senna em parceria com a Casa da Ribeira e a Cosern. Esse projeto oferecia 1 ano de oficina de teatro. No final do ano a gente fazia apresentação nas escolas, eu estudava no Atheneu. E no começo eu fui no intuito de arrumar uma namorada (risos) porque tinha muita menina assim, sabe ? Eu tinha 17 anos, era moleque, queria namorar e quando eu vi que quando eu passei nas audições mesmo bagunçando eu vi que o negócio era sério. E o diretor da Casa da Ribeira Henrique Fontes, que conhecia o antigo diretor da companhia Gira Dança, onde dançam os cadeirantes, me indicou porque achava que eu tinha um potencial grande para entrar na companhia. Eu conversei com o Anderson Leão e construímos essa relação de 10 anos na Gira Dança. Me desliguei depois porque já queria outros ares e estava me interessando por cinema e fotografia. Comprei uma máquina, fotografava…

“Minha mãe sempre dizia: “larga esse balé e vai trabalhar na construção, vai levantar tijolo”. Mas eu não aceitava isso. Eu vou ser bailarino, vou dançar e vou seguir assim”.

E o que você fotografava ?

No início a própria companhia Gira Dança, eu pedia para entrar nos espetáculos… e quando vi que estava ficando bom quis me aprofundar na área artística. E a partir daí passei a desenvolver alguns trabalhos. Conheci o Xampu aqui de Mãe Luíza, que é rapper, e fiz o clip dele. Rayanne Torres, cantora de forró, me chamou para fotografar também… fiz outros trabalhos com a galera do reggae e estou trabalhando agora com o Coala, aqui de Natal. Comecei com a fotografia e estou no geral também, ampliando para o audiovisual. E em 2019 rolou a Suíça.

Como é que surge esse convite para fotografar o festival de dança na Suíça ?

Começou num festival que aconteceu em 2018 em Recife e Natal chamado Cena CumpliCidades. Abriram uma residência artística aqui em Natal no espaço do Gira Dança. No final dessa residência eles escolheram três grupos. Um faria uma pequena circulação na Suíça, outra faria apenas uma apresentação em Natal.

Qual o nome dessa companhia ?

Companhia Ioannis Mandafounis, é o nome do próprio diretor, um grego que reside na Suíça.

E você ganhou a etapa de Natal ?

Fui na audição, mas na certeza de que não ia conseguir. Só tinha a elite do balé de Natal, ta ligado ? E você, queira ou não, por mais que não tenha esse peso, para mim tinha. Minha vida toda fui educado para eu ser menos. Então fui na certeza de que eu não ia conseguir.

Mas conseguiu…

Quando eu vi meu nome na lista, mano… eu falei: “car&%$, meu nome ta na lista!!!”. Aliás, foram três negros: eu, o René Loui, que hoje é diretor e criador da companhia CIDA aqui de Natal, e o moçambicano Manoel Castomo, pesquisador e coreógrafo de danças africanas em Recife. Iríamos nós três para Recife, mas o Castomo não conseguiu porque teve um problema com imigração. Então fomos eu e o René. Fizemos uma pequena circulação, uma improvisação artística na Suíça e voltamos.

“Minha vida toda fui educado para eu ser menos”

Você tem uma deficiência física, isso atrapalhou ?

Tenho paralisia cerebral e o único com deficiência era eu. Mas isso não alterou o julgamento, tanto que só depois eles descobriram minha deficiência Viram que era normal a forma que eu me expressava com o corpo. No ano seguinte chamaram a gente pra fazer a apresentação em Recife, com todas as despesas custeadas pela companhia. Fizemos a apresentação e, quando acabou, o René Loui e o Castomo voltaram e eu fiquei auxiliando a produtora. A gente acabou criando uma afinidade e só voltei para Natal quando a companhia seguiu para o Rio de Janeiro.

E quando você passa de bailarino a fotógrafo contratado pela companhia ?

Em 2019 me ligaram de novo, fazendo um convite, mas com essa ressalva: os recursos que tinham não era para dançar, mas fotografar o festival. Perguntaram se eu topava, eu disse que sim e fui fazer o festival na Suíça. Passei quase dois meses rodando a Suíça.

Você fala inglês ?

Não, nem inglês nem francês. Eu fui na cara e na coragem (risos), estava com um pedaço de um mapa, o dinheiro da passagem, mas eles me deram total apoio, não me deixaram sozinho. A produtora que me convidou falava português porque tinha morado um tempo no Brasil.

No dia do episódio do racismo, você tinha ido receber um pagamento por um trabalho com essa companhia. Chegou a voltar para a Suíça agora ?

Não. Agora, com a pandemia, eles me ligaram de novo, e propuseram que eu fizesse um trabalho de filmagem aqui em Natal mesmo, uma filmagem que quando tiver concluída eu vou exibir nos bairros. E nesse momento estou em pleno processo de criação. Foi por conta disso que eu fui até a casa de câmbio receber o pagamento.

E o que você está filmando ? Qual é a proposta desse vídeo ?

Estou filmando artistas, pessoas comuns, um conjunto de corpos para mostrar a diversidade de corpos, como os corpos se movem e se estudam. Como se movem na dança. É pegar uma senhora dançando. Ah, mas ela não sabe dançar. Sabe, sim. Ela vai dançar o que o corpo dela permitir. Então é mais ou menos essa a proposta do trabalho. E vou tentar exibir em algumas comunidades para a galera ver que é legal, que a dança não é um bicho. O seu corpo é um instrumento artístico, o seu corpo é uma ferramenta artística. Como meu corpo é um painel: eu tenho 35 tatuagens, meu corpo é um painel visual, meu corpo é minha arte enquanto dança e enquanto visual. Então essa é a mensagem que eu quero passar: todo mundo é artista. As pessoas gostam de se ver dançando, é ter uma empatia com o próprio corpo.

“O seu corpo é um instrumento artístico, o seu corpo é uma ferramenta artística”.

Você disse que tem paralisia cerebral. De que forma essa deficiência dificultou e ajudou você a superar as barreiras no trabalho e na vida ?

Tem umas dificuldades. Queira ou não tenho uma limitação física e isso muitas vezes atrapalha. Mas na questão de força de vontade, não. Eu queria ressaltar um assunto sério. As pessoas tendem a falar que eu superei, falam na minha superação. Mas isso não é verdade. Eu não superei, eu me adaptei. Eu não sei como é a posição de uma pessoa que não é deficiente. Eu nunca tive os dois braços bons, então não sei como é ser um não deficiente. E eu queria deixar um alerta nisso: se for uma pessoa com deficiência desde nascido, não fala nada. Porque as pessoas podem se sentir agredidas. É uma visão muito de “ah, o bichinho, um coitado”. Então não fale. Eu me adaptei, não superei, porque eu não sei como é não ser deficiente.

“As pessoas tendem a falar que eu superei, falam na minha superação. Mas isso não é verdade. Eu não superei, eu me adaptei”

Você citou no início da nossa entrevista o caso do músico Edvaldo Rosa dos Santos, assassinado com 80 tiros no Rio de Janeiro. Recentemente teve os episódios do Carlos Alberto de Freitas, assassinado no Carrefour, o do George Floyd, nos EUA, e outros tantos que não tiveram tanta repercussão. Você como artista negro se vê nesses casos também ? De que forma esses crimes mexem com você ?

Me vejo muito e isso me deixa triste. Ser questionado porque você tem passaporte. Numa casa de câmbio você precisa levar passaporte porque se você for abordado por um policial acaba questionado. É foda ter sempre que provar que você é uma pessoa de bem. Eu tenho que amarrar o calçado com o pé direcionado para a pista para a pessoa ver que você não está ali esperando o momento certo para preparar um assalto. Isso principalmente em ruas de elite. Eu não estou me vitimizando, isso acontece. Minha mãe me orientou sempre a andar na rua sem colocar a mão no bolso e com o semblante mais leve possível para que ninguém pense que eu estou debochando. A sociedade já definiu o bandidão com a cara braba, preto e da quebrada. Como são tratados os vilões do videogame ? Pessoas punk, negro, pessoas periféricas. Quem era o herói ? O branco. Mário é de que cor ? Mário é branco. O herói do fatal Fury ? É branco. Quem são os heróis do Street Fighter ? São Ryu e Ken, dois brancos. Agora que está tendo uma diversidade maior de personagens, ta ligado ? Mas não só nos jogos.

“Eu tenho que amarrar o calçado com o pé direcionado para a pista para a pessoa ver que você não está ali esperando o momento certo para preparar um assalto”

Há um discurso cada vez mais forte da representatividade na sociedade. Como tem visto essas ações ?

A questão da representatividade está sendo muito forte, agradeço, isso é muito bom. A chamada geração do Mimimi está se portando de uma forma mais consciente, de uma forma que a sociedade diga: “chega, basta”. Outro dia estava vendo uma foto que um homem negro nu estava fazendo dele mesmo, mas não estava aparecendo as partes íntimas. E as pessoas vieram falar que era uma foto vulgar. Mano, as pessoas têm que entender que a palavra “vulgar” surgiu numa era machista, sexista, racista, mais até que hoje, e misógina. Esse conceito foi criado nessa época. Não existe mais o que é vulgar. E isso hoje é relacionado às meninas de quebrada, negras periféricas, brancas periféricas. Você não vê uma menina branca da zona sul, de shortinho curso no shopping sendo taxada de periguete, prostituta. Essa menina é chamada de modelo. Mas se for branca e da quebrada é taxada de mulher sem cultura. E isso tem que acabar. A galera da nova geração está começando a desconstruir esse tipo de raciocínio, não tem mais espaço pra isso.

“A chamada geração do Mimimi está se portando de uma forma mais consciente, de uma forma que a sociedade diga: “chega, basta”

E você acha que essa desconstrução também tem relação com as redes sociais, onde cada pessoas é seu próprio veículo de comunicação e tem sua voz amplificada ? Porque hoje a imprensa tradicional já não faz mais essa ponte com a sociedade da forma como fazia há alguns anos…

As redes sociais têm um peso tanto para a maldade como para as coisas boas. Mas também não podemos esquecer que ainda existe muita gente sem acesso à informática. E acho muito importante a gente ocupar espaços tradicionais também, tá ligado ? Tem muita gente ocupando os espaços tradicionais que gosta de assistir novela, que não tem redes sociais, e também atinge. Mano, quando vi que meu caso estava na Tribuna do Norte, fiquei: “poxa, mano, é isso que tem que acontecer, que mais vozes cheguem em mídias tradicionais”. Porque mídias sociais a gente já está dominando, já temos um papel grande. A gente precisa ocupar essa mídia tradicional, que é retrógrada, comandada por uma elite… e quando falo elite são aqueles “caciques”, que só se retratam quando doi no bolso. Porque aquele repórter da Globo (Willian Wack) chamou um cara que buzinou de “preto, é coisa de preto”. Porque ele foi chamado atenção ? Não foi pelo que ele falou, mas porque doeu no bolso. O Carrefour fez nota de repúdio porque já estava doendo no bolso. Essa elite grande só se retrata porque doe no bolso, senão fica por isso mesmo.

“E acho muito importante a gente ocupar espaços tradicionais também, tá ligado ?”

Você citou sua filha, mas e sua mãe, como reagiu ao que aconteceu com você ?

No início ela estava com medo, mas quando viu o tamanho da repercussão e da voz que eu estou tendo ela ficou mais calma. Está vendo que o filho dela é amado, está sendo respeitado. Eu não sou nada, mano. Sou um simples artista que quer ganhar a vida nessa sociedade que ninguém respeita a arte. Eu tenho que matar dois leões por dia, mais do que outras pessoas. Não temos apoio cultural, não temos sensibilidade do poder público. Então minha mãe agora está mais tranquila. Está vendo que tenho advogados, a mídia está dando repercussão, meu eco está chegando longe. Comecei sozinho. Lembro do rei Leão. O Simba foi acusado de matar o pai e estava sozinho no meio da multidão sendo julgado por todo mundo. E ele começou a gritar e a galera passou a escutar. Então é mais ou menos isso. Meu rugido começou sozinho e está chegando a lugares que nunca imaginei. Recebi mensagens de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro. Pessoas públicas falando. A partir de hoje não sou mais Diogo Ricardo. Minha missão como ser humano agora é ser porta-voz da minha comunidade. O que está faltando aqui ? O que o povo está precisando ? Então minha mãe está sentindo que a voz do filho dela está chegando em muitos lugares, onde jamais ela imaginaria.

“A partir de hoje não sou mais Diogo Ricardo. Minha missão como ser humano agora é ser porta-voz da minha comunidade”.

Queria deixar algum recado ?

Queria pedir para as pessoas da comunidade terem calma, não ficar dando nomes a locais. Da mesma forma como fui julgado injustamente outros estabelecimentos podem ser julgados injustamente. Quero sair desse processo de uma forma limpa, de uma forma justa. Quero sair como herói, quero sair como uma pessoa que teve a voz ativa. Eu estou conseguindo ter calma. Quero agradecer a todas as pessoas que me deram apoio, comunidade nordestina, do Rio Grande do norte. Os órgãos públicos me atenderam de uma forma excelente, a Polícia Civil me atendeu de uma forma humana, me deram total assistência. As pessoas que estão me representando, além de profissionais, estão sendo altruístas, humanas. Não existe esse discurso de que somos todos iguais. Eu sou preto, você é branco. Eu sou baixo, você é alto. Então é preciso respeitar a diversidade. E conversar mais com a comunidade. A comunidade não é só tráfico e bandido, não. Mãe Luíza tem galerias, banco, caixa eletrônico, mini-shopping, geramos uma economia muito forte aqui. Maldade existe em todo lugar. Agora aqui em Mãe Luíza tem muita gente boa, salões de nome, o Studio da Preta, lojas, a comunidade está se tornando auto-suficiente, uma visão que as pessoas estão tendo só agora. Então peço só para as pessoas não fazerem nada de forma precipitada. Eu acredito na lei, na Justiça, acredito na polícia. As pessoas que fizeram isso comigo vão pagar.

“Essa elite grande só se retrata porque doi no bolso, senão fica por isso mesmo”.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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