OPINIÃO

Dionísio vai a fazenda

Ao descrever os protestos contra a guerra do Vietnã durante a convenção do partido democrata em Chicago, Norman Mailer, no seu livro Os exércitos da noite registrou: “Sim, essa era a falange: marginais de classe média e crianças devoradoras de drogas e flores” e completou “(…) hippies vestidos de pastores turcos e senadores romanos, de gurus e samurais. Pareciam ser o produto de todos os cruzamentos da história e das histórias em quadrinhos, das velhas lendas e da televisão e dos arquétipos bíblicos do cinema”.

Dificilmente poderíamos imaginar que, em pleno auge dos chamados “trinta anos gloriosos do capitalismo”, com seu crescimento econômico, seu desenvolvimento tecnológico e sua consolidação de uma rede de proteção social derivada do new deal de Rossevelt e das políticas kenesyanas que geraram a social democracia europeia, algum tipo de movimento de rebelião pudesse emergir e ganhar uma dimensão global. Mas, como a história gosta de nos pregar peças, foi justamente isso que ocorreu.

Tal qual uma grande onda, de São Francisco a Maracajaú, de Praga ao Quartier Latin, a geração dos filhos daqueles que sofreram o peso da segunda grande guerra mundial ocupou as ruas, praças, campos e esquinas do planeta com um espírito demolidor. O alvo dos filhos do baby boom do pós guerra era a sociedade disciplinar, o consumismo dos anos 50, a moral social de um mundo puritano, afeito a todo tipo de perversão sexual entre quatro paredes, mas completamente assexuado da porta de casa pra fora.

O termo Hippie, que passou a descrever o tipo de criatura que emergiu nos protestos de Chicago contra a guerra do Vietnã, tão brilhantemente descritos por Norman Mailer, derivava do Hipster, palavra usada no sentido original no poema O Uivo, de Allen Ginsberg, indicando uma figura que emerge do espaço marginalizado da sociedade norte americana dos anos 50, que transitava pelos guetos negros, ouvindo Jazz be bop e cultivando suas conexões com prostitutas, traficantes e viciados dos bairros pobres das periferias das grandes cidades industrializadas do norte (nenhuma semelhança, diga-se de passagem, com a figura bebedora de café, de barba longa, camisa xadrez, óculos escuros e postura blasé, que se convencionou a chamar de hipster na segunda década do século XXI). Na boca dos escritores da geração beat, Hipster era toda a fauna marginal que estava excluída do padrão estético existencial de uma América branca, anglo-saxã e protestante.

O termo atravessou os anos de 1940 e 1950, até que, em 1964, aterrissou no colo de um grupo de boémios e intelectuais, formados por escritores, músicos e estudantes universitários que se reuniam em torno do bar Blue Unicorn na região de North Beach em São Francisco, no distrito de Haight-Ashbury. Essa nova “fauna” alternativa, objeto de desdém das correntes mais conservadoras da sociedade norte americana, passou a ser chamada de Hippie depois de uma reportagem no jornal Examiner sugeriu estar surgindo nas ruas de São Francisco uma nova geração de desajustados sociais, sucessora dos beatniks.

Ao contrário da beat, cujo campo de expressão estética era fundamentalmente a literatura, a nova geração de loucos, santos e chapados, teve um alcance muito maior no que diz respeito aos efeitos políticos de seu movimento de rebelião contra cultural. Isso se deu em função não apenas do vagalhão revolucionário que tomou conta do planeta em 1968, mas também pelo fato de que um novo campo de expressão estética, ganhava força: o rock.

O interessante é que segundo a mitologia vendida como produto pela indústria cultural nos anos setenta, o ponto culminante de toda a experiência revolucionária Hippie não foram os violentos e explosivos protestos de Chicago contra a guerra do Vietnã, mas um festival de música, realizado entre 15 e 18 de Agosto de 1969, em uma fazenda de gado leiteiro próxima da região de White Lake, na cidade de Bethel, estado de Nova York.

Essa primeira grande experiência da era dos festivais de massa, foi vendido no cartaz de divulgação como uma “Exposição aquariana” que prometia “três dias de paz e música” e acabou sendo lido, pelas plateias jovens mundo a fora, a partir da canção Woodstock, de Joni Mitchell, que nem chegou a se apresentar no festival, mas que pintou aquele acontecimento como uma utopia platônica cósmica new age de paz e amor.

Essa harmonia domesticada entre o eu livre e a massa coletiva chapada de ácido, entusiasmada por mais uma manifestação de Dionísio na terra, justo em uma era termonuclear, teceu as mitologias contra culturais da era Hippie. Mas essa mitologia também diz muito pouco sobre o nível de tensão e violência radical presente nos movimentos políticos dos anos de 1960.

Havia na época um claro racha na classe média norte americana, sentido nas ruas, e colocando, em campos divergentes, os universitários de Berkeley que procuravam uma rebelião de massas mais próxima do que ocorreu no Quartier Lartin em Paris, com barricadas e confronto com as forças da ordem; e os hippies de Haight-Ashbury que queriam apenas sentir a fruição de si mesmos, plantar sua maconha tranquilamente, fazer seu sexo coletivo sem grilos e ouvir seu rock´n´rool em paz.

Nesse sentido, os performers e ativistas que participaram dos protestos de Chicago podem ser entendidos como um híbrido desses dois personagens. De um lado, o ativista estudantil de esquerda, que buscava a derrubada do sistema pela revolução, de outro o hippie que procurava sua própria fruição sensorial, em busca da expressão estética existencial do si mesmo, em um ruptura com o sistema de consumo que um capitalismo em permanente estado maníaco apresenta como único caminho para a felicidade plena.

Abbie Hoffman, líder dos Yippies (grafado desse modo para não ser confundidos com os Hippies) e um dos articuladores dos protestos de Chicago e do cerco ao Pentágono, descrevia esse novo tipo de ativista como: “Um maluco combatente das ruas, um dissidente que carrega um revólver na cintura. Tão feio que a sociedade de classe média fica assustada só de olhar para ele. Um cabeludo, barbudo, louco filho da puta cuja vida é um teatro, a cada momento criando uma nova sociedade, enquanto destrói a velha”.

Muitos jornais independentes convocavam a juventude para uma mobilização, oscilando retoricamente entre uma dicção místico-pacifista, e uma abordagem de combate e ação num estilo mais afeito aos Black Panters, vaticinando que “(…) um milhar de crianças saqueará as grandes lojas com o objetivo de destruir o fetiche da propriedade que está sustentando a guerra e o genocídio”.

A própria ideia de Abbie Hoffman era a de cercar o Pentágono e formar um anel de exorcismo tão poderoso, capaz de fazê-lo levitar 100 metros acima do solo, para que, daí ele pudesse se tornar laranja e começasse a vibrar até que todas as emanações malignas evaporassem e fizessem com que a guerra do Vietnã acabasse naquele instante. Com a quantidade de ácido consumida durante as manifestações, vale salientar, talvez muita gente defenda, até hoje, o sucesso da operação.

Essa perspectiva mística se misturava a um treinamento de combate para o enfrentamento das forças policiais, bem como para a ação direta que implicava a depredação e o saque de lojas e repartições públicas, supostos símbolos do sistema opressor e genocida que mandava jovens de classe média para matar camponeses vietnamitas pobres nas selvas do sudeste asiático.

O mais louco disso tudo é que você pode ler tanto as descrições de Norman Mailer sobre os momentos que antecederam a explosão de violência policial contra os ativistas, quanto as reportagens sobre a festa de música e paz de Woodstock como elementos referenciais de um mesmo tipo de ritual ancestral onde: “Acenderam-se fogueiras e os baseados passaram de mão em mão e como já descrevemos; que formas pré-históricas o vulto sombrio do Pentágono deve ter assumido à luz bruxuleante das labaredas, como as figuras que os espiavam com binóculos nos telhados do edifício devem ter parecido estranhas – quais gárgulas debruçadas nas arestas de uma catedral”.

As referências para descrever os dois momentos (a paz de Woodstock e a explosão de violência do cerco do pentágono e dos protestos de Chicago) são sempre identificados com a manifestação de antigas saturnálias romanas, em que uma ruptura da ordem era protagonizada em meio a uma inversão total das hierarquias sociais.

Para mim, nascido em 1974, filho da geração de 68, acostumado a ser posto pra dormir no berço enquanto mamãe ouvia o álbum triplo de Woodstock, essas mitologias sempre povoaram o imaginário. A sensação que nós, que nascemos nos 70, passamos a adolescência entre os 80 e os 90 e estamos envelhecendo num século pandêmico como o XXI, é que as promessas da “era de Aquário” não se cumpriram como prometia script da canção de Joni Mitchell.

Mesmo assim, dizer que a geração de 68 fracassou em sua revolução contra cultural não é de todo exato. Muito dos conceitos chaves da ordem que emergiu com aquela geração, condicionaram muito do mundo que temos hoje.

Ideias como diversidade, conectividade, inovação, sustentabilidade, são expressões em algum sentido, de valores que emergiram da capacidade imaginativa de criação de novos afetos políticos cultivados paradoxalmente, tanto nas fazendas dionisíacas daqueles anos, quanto das ruas envoltas em fumaça de gás lacrimogênio e barulho de bala de borracha dos protestos que se espalharam pelo mundo.

E sabe o que é o mais louco? Isso tem muito pouca coisa a ver com “comunismo”. Pode acreditar, amigo velho, mesmo que alguma “mamadeira de piroca” do pensamento, dessas que povoam as redes sociais, insista em te convencer do contrário.

A forma expandida desse artigo foi publicada no livro Rebelados da Cultura: Revoltas e Antropoéticas, do selo Caravela Cultural. Organizado pelos professores Alex Galeno, Fagner França e Lucas Fortunato. Para acessá-lo na íntegra, clique aqui

 

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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