OPINIÃO

Direita brasileira: entre o chulo e o vulgar

Semana passada tive o desprazer de ler nos portais a seguinte manchete: “Rogério Marinho defende reforma: ´Sindicatos pelegos perderam a boquinha´”. Li com calma a matéria e vi que o ilustre deputado federal pelo PSDB não apenas disse a frase da chamada como outras semelhantes com palavras toscas do gênero.

Que Rogério vem se destacando como baluarte do conservadorismo potiguar e devoto (e relator) de reformas contra o trabalhador é sabido, portanto, sem surpresas diante da reportagem. O que me chamou a atenção foi o termo escolhido por ele: “boquinha”.

Voltemos ao passado. Quando surgiu na política, lá pelos idos dos anos 90, liderado de Wilma de Faria no PSB (sim, Rogério era, digamos, Socialista), o homem era visto – merecidamente – como preparado e criativo. Tive oportunidade de entrevistá-lo duas vezes, uma rapidamente e outra em uma coletiva, e ele impressionou a todos os jornalistas pela articulação, emprego correto das palavras e embasamento.

Hoje, Rogério é um manancial de impropérios, frases feitas, ofensas e expressões chulas, como “perderam a boquinha”, esta significando que alguém – no caso os sindicatos, que para ele são hoje sinônimos do Inferno – perdeu algum privilégio ou regalia.

Mas, o que aconteceu entre o Rogério dos anos 90 e o de hoje? Que ele deu uma guinada – político-partidária pelo menos – à Direita, é sabido e claro. Mas – voltando à expressão “boquinha” – porque um homem articulado e hábil com as palavras hoje apresenta sistematicamente um palavreado de internauta adolescente ou de bebum debatedor de bar?

Contudo, nem precisei forçar muito a memória para lembrar que parte considerável da Direita brasileira atual, seja seus líderes políticos, seja representantes na mídia, se vale de grosserias e termos de chocar marinheiro em cabaré de beira do porto.

O mais visível deles, deputado federal Jair Bolsonaro, tem o linguajar de um adolescente numa partida de futebol. Alterna canalhices criminosas como “Você é tão feia que não merece ser estuprada” com “usei para comer gente”, se referindo a um apartamento funcional pago com dinheiro público.

Ícones conservadores na mídia tem postura parecida. Alexandre Frota e Roger Moreira, ex-ator e ex-roqueiro respectivamente, em priscas eras, usam o Twitter para soltar clichês, termos grosseiros e vulgaridades contra tudo e contra todos (de Esquerda, claro).

Mesmo de onde se esperava mais maturidade, ainda que posições reacionárias, pode se observar este fenômeno, como é o caso do pastor Silas Malafaia, conhecido no Rio de Janeiro por comandar vereadores e deputados e fazer dinheiro como ninguém com palestras, livros e discos. E dízimos, claro. Tem uma boca mais suja que Dercy Gonçalves. Quem o segue no Twitter – meu caso – já se acostumou com os “ihihihihihih”, “chupa essa”, “esquerdopatas safados” que ele posta mais do que as palavras de Jesus.

Em suma, em uma sutil (ou não) batalha da narrativa, a Direita parece ter encontrado a maneira exata de se comunicar com seu público e de uma forma que ela entenda e aprecie. É feio para olhos e ouvidos, claro, mas é o que temos para hoje.

Mas que é estranho ler e ouvir Rogério Marinho pular de explicações técnicas sobre os problemas da Região Metropolitana de Natal para “perderam a boquinha” e outras bizarrices que leio no Twitter do ilustre, é sim.

 

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