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Disputa do segmento evangélico conservador no RN alimenta racha no PSD de olho em 2022

A CPI da Covid-19 instalada na Assembleia Legislativa não é a única fissura nas relações entre o ex-governador Robinson Faria e o deputado estadual Jacó Jácome, suspenso das atividades parlamentares por decisão unilateral do presidente estadual do  PSD. Para fortalecer a oposição contra a governadora Fátima Bezerra e encorpar o chamado “blocão” com outros partidos, Robinson destituiu o líder da legenda Vivaldo Costa e tirou poderes de Vivaldo e de Jacó.

Mas a CPI é apenas uma das peças do tabuleiro político-eleitoral do PSD. Em jogo, também, está uma disputa pelo apoio do segmento evangélico nas eleições de 2022, quando Robinson pretende concorrer a uma vaga de deputado federal caso reverta uma condenação na Justiça eleitoral. Se a eleição fosse hoje o ex-governador estaria inelegível.

O filho dele, o ministro das Comunicações Fábio Faria, sonha em chegar ao Senado com o apoio do presidente da República Jair Bolsonaro e da ala mais conservadora dos fieis.

Uma rusga de um passado não tão distante põe um tempero a mais na relação estremecida entre os Faria e os Jácome. Em 2018, mesmo com Jacó no PSD, o ex-deputado Antônio Jácome apoiou o ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves para o Governo do Estado. Na época, Robinson ainda tentou negar a legenda para Jacó disputar a reeleição, mas a pressão e o medo de perder apoio o fez voltar atrás. Em um comunicado divulgado quinta-feira (24) no qual acusa Robinson de “truculento e coronel”, Jacó lembra o episódio:

– Não satisfeitos com o fracassado plano de me tirar da vida pública, eis que acabo de receber, com indignação, a decisão arbitrária, injusta e truculenta de cercear o livre exercício do meu mandato, e, ao arrepio da lei e sem fundamentação e sustentação jurídica. Medidas contra as decisões tomadas no exercício do mandato que legitimamente exerço outorgado pelo povo do RN. Por puro capricho e com viés unicamente eleitoreiro o ex Governador suspendeu os efeitos da eleição feita de forma democrática para a escolha do líder do partido”, escreveu.

Naquela eleição, quando Robinson amargou o terceiro lugar, as famílias Jácome e Dickson, hegemônicas entre os fieis da Assembleia de Deus, optaram por apoiar Carlos Eduardo, derrotado por Fátima Bezerra no 2º turno.

Antônio Jácome apoiou Carlos Eduardo em 2018 e abriu um racha no PSD de Robinson./ foto: divulgação

De olho no tempo e nos votos perdidos, Robinson e Fábio avançam sobre os evangélicos e costuraram o apoio da família Dickson.

Quando Fábio Faria assumiu a pasta das Comunicações, em junho de 2020, a cadeira de deputado federal foi herdada pela ex-vereadora Carla Dickson (PROS), primeira suplente da coligação e esposa do deputado estadual Albert Dickson. A base eleitoral de ambos está, sobretudo, enraizada nos fieis da Assembleia de Deus.

A AD é a maior congregação evangélica do Rio Grande do Norte, conta com mais de 250 mil fieis e aproximadamente 1.600 templos espalhados pelo Estado. Só em Natal são 260 igrejas. A estimativa de estudiosos sobre religião no RN apontam mais de 100 denominações em todo o RN.

O número de fiéis da Assembleia de Deus e potenciais eleitores corresponde a mais de 40% das 487.948 pessoas que se identificaram como evangélicas no último censo do IBGE, em 2010, o que na época, 11 anos atrás, já representava 15,4% da população potiguar.

O detalhe é que essa equação “evangélicos + conservadores” não é uma ciência exata para a transferência de votos. Embora ligado a um pensamento mais tradicional, levantamento recente divulgada pelo Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) mostrou que o ex-presidente Lula já lidera também entre evangélicos, com percentual de 43% contra 32% do atual presidente Jair Bolsonaro.

Carla Dickson declara apoio a Fábio Fábio, de quem herdou cadeira na Câmara Federal 

Fábio Faria foi recebido por mais de três mil pastores em 17 de junho e avança sobre evangélicos para disputar Senado / foto: divulgação

Durante a semana, Carla Dickson anunciou na imprensa que votará em Fábio Faria para o Senado, num claro aceno de apoio e também de retribuição pela ponte que o ministro tem feito entre o mandato dela e Jair Bolsonaro. No pacote, Carla também negocia o apoio do ministro numa eventual candidatura à reeleição dela caso o pai de Fábio permaneça inelegível.

Genro de Sílvio Santos e casado com Patrícia Abravanel, Fábio Faria se batizou em janeiro de 2019 na igreja Batista, mas disse já na época que não se considerava evangélico, apenas “um homem cristão”.

Em 17 de junho, após uma agenda administrativa em Mossoró, Fábio Faria foi recebido em Natal por mais de três mil pastores da igreja Mundial do Poder de Deus. O evento também contou com a presença do bispo Abner Ferreira, presidente da Igreja Assembleia de Deus Ministério de Madureira.

Diferente da Assembleia de Deus comum, onde não há tradição da cúpula orientar o voto dos fieis, na AD Madureira o apoio é explícito. No material distribuído à imprensa pela assessoria do ministro há uma declaração do bispo Ferreira afirmando que a igreja apoiaria Fábio Faria.

Evangélicos, casos de famílias

Casal Albert e Carla Dickson: família evangélica

A família Dickson desbancou como principal força política evangélica do Rio Grande do Norte o clã Jácome, com quem disputa o eleitorado mais conservador do segmento no Estado. Além da deputada federal Carla Dickson e do estadual Albert Dickson, o clã também conseguiu eleger em 2020 a vereadora de Natal Margareth Régia, irmã de Albert. Ou seja: há pelo menos um membro dos Dickson nos parlamentos federal, estadual e municipal.

Já os Jácome buscam recuperar terreno na política após a derrota do ex-deputado federal Antônio Jácome em 2018, apenas o 5º colocado na disputa para o Senado, atrás de Styvenson Valentim (Podemos) e Zenaide Maia (PROS), ambos eleitos, Geraldo Melo (PSDB) e Garibaldi Alves (MDB). Antônio Jácome chegou a ser vice-governador do Rio Grande do Norte, na segunda gestão de Wilma de Faria, e emplacou o irmão Osório Jácome, vereador de Natal.

Antônio é pai de Jacó Jacome, que retomou o mandato de deputado estadual em março de 2021 após a cassação de Sandro Pimentel (PSOL), condenado por irregularidades nas contas de campanha de 2018. Além de Jacó no parlamento estadual, a família conta com o vereador de Natal Eriko Jácome, sobrinho de Antônio. Ele foi reeleito em 2020 e exerce o segundo mandato no parlamento municipal.

Albert e Antônio têm atuação distintas. Na família Dickson, a mais carismática e que arregimenta mais apoios é a deputada Carla. O casal tem atuação no interior, basicamente estimulando o assistencialismo. Já Antônio é respeitado entre os mais velhos e, embora sem mandato, ainda conta com prestígio.

Isolados 

O segmento ainda conta com o bispo Francisco de Assis, vereador de Natal por cinco mandatos consecutivos e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, a mesma congregação do bispo Edir Macêdo.

Correndo por fora, sem família influente, mas uma liderança que começa a despontar entre jovens evangélicos é a vereadora Camila Araújo (PSD), que exerce o primeiro mandato no parlamento municipal. Filiada ao PSD do ex-governador Robinson Faria, ela já está sendo cotada a voos mais altos na política e começa a incomodar lideranças tradicionais que “dominam” o segmento.

 

 

 

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"