DEMOCRACIA

Disputa eleitoral motivou assassinato de ex-candidato do PSOL em Janduís; polícia prende dois acusados e busca mandante

A polícia civil do Rio Grande do Norte prendeu terça-feira (20) dois homens acusados de executarem a tiros Raimundo Gonçalves de Lima Neto, ex-candidato do PSOL à prefeitura de Janduís e conhecido na região como “Netinho” ou “Neto de Nilton”. O crime aconteceu em 11 de abril de 2020, por volta das 9h30, quando a vítima chegava de moto na fazenda onde morava, na região rural de Campo Grande.

A operação que prendeu João Paulo Fernandes da Silva Brito e Antônio Alcivan Fernandes Júnior foi batizada de “Flor de Mandacaru” e contou com o apoio de 100 policiais civis do Rio Grande do Norte e outros 20 da Paraíba. Foram cumpridos mais de 20 mandados de busca e apreensão e 9 mandados de prisão, sendo que três envolvidos de forma indireta no crime já estavam presos.

Netinho havia anunciado a pré-candidatura às eleições daquele ano poucas semanas antes de ser assassinado. A investigação foi coordenada pelo delegado Odilon Teodósio dos Santos Filho, que busca agora o mandante ou mandantes do crime. Ele não tem dúvidas de que o crime foi motivado pela disputa política eleitoral em 2020 na região:

– Não tenho dúvida de que terminou por beneficiar essa parte político partidário para alguém. A gente não pode amarrar ainda se foi esse ou aquele candidato que mandou, mas não vai fugir à regra porque o cara era candidato certo. O próprio prefeito atual tinha se excluído do pleito para apoiar ele, né ? Foi o cara que ganhou com folga, o Salomão. Então não tenho dúvida. Agora a gente dizer qual foi o candidato, esse ou aquele político partidário, a gente não tem ainda. Isso seria a última instância e a investigação tem muita coisa pela frente”.

Odilon Teodósio dos Santos Filho, delegado responsável pelo caso

Questionado como a polícia chegou aos acusados, a assessoria de comunicação da Polícia Civil informou que não fala sobre as investigações.

Acusados pertenciam a “Bando do Cangaço”

João Paulo e Antônio Alcivan também são envolvidos com crimes de roubo a banco e pertencem a uma organização criminosa autodenominada de “Bando do Cangaço”.

– Essa associação criminosa, através desses dois tentáculos João Paulo Fernandes da Silva Brito e Antônio Alcivan Fernandes Júnior, assassinaram o Neto de Nilton sem dar chance de defesa depois de emboscá-lo na chegada a uma porteira de acesso à propriedade rural da vítima”, afirmou o delegado.

Segundo ele, a polícia também identificou, na fase preliminar, outras pessoas que deram apoio indireto ao crime:

– Identificamos quem deu o local onde eles ficaram em coito, quem forneceu a munição… estamos já fazendo uma previsão de trabalho para seguir para a autoria intelectual, que será num segundo momento da investigação. Já temos a convicção investigativa que venha apresentar a sociedade esse crime bárbaro, que muitos acreditaram que seguiria impune. A polícia civil está fazendo sua parte e a investigação será apresentada à Justiça logo que possível for”, disse.

PSOL reelegeu prefeito de Janduís após crime 

Salomão Gurgel havia desistido de concorrer à prefeitura para apoiar Netinho, mas após o crime assumiu a chapa e venceu a eleição

De acordo com as pesquisas de intenção de voto realizadas na região até o assassinato da vítima, Neto de Nilton era o favorito para vencer as eleições municipais de 2020 e contava com o apoio do atual prefeito Salomão Gurgel, que já tinha desistido de concorrer à reeleição para apoiar o colega de partido. Com a morte de Netinho, Gurgel assumiu a chapa e venceu o pleito em novembro do ano passado com 2.034 votos, o equivalente a 56,06% dos votos.

Após as urnas confirmarem sua vitória, o prefeito reeleito fez uma homenagem à vítima:

– “Balas assassinas ceifaram sua vida! Mas não conseguiram enterrar os seus sonhos, que eram os sonhos de todos os janduienses de bem!”, escreveu nas redes sociais.

 Salomão Gurgel disputou as eleições com outros dois candidatos: Sílvia Helena (PL) e José Bezerra (PSB).

Janduís é um município de 5.386 habitantes na região Oeste do Rio Grande do Norte, distante 300 quilômetros de Natal.

PSOL parabeniza polícia e cobra nome do mandante do crime

O PSOL do Rio Grande do Norte se pronunciou oficialmente sobre a prisão dos dois acusados de matar Neto de Nilton cobrando os nomes dos mandantes do crime político. Em nota, o partido parabenizou a polícia pelo trabalho e destacou que nunca teve dúvidas de que a motivação para a execução foi política.

Leia a nota do PSOL na íntegra:

Nós, do PSOL, sempre estivemos cobrando do Governo do estado em diversas Após mais de um ano e três meses de espera tivemos, no final da tarde de hoje (20), a importante informação por parte da Polícia Civil do RN que, em entrevista coletiva à imprensa, noticiou a prisão dos assassinos do companheiro Netinho (Janduis/PSOL).

O Dr. Odilon, delegado que comandou as operações, informou que são dois os executores do crime bárbaro que manchou de sangue as pré-eleições democráticas de 2020, na cidade de Janduis e no Rio Grande do Norte.

Nós, do PSOL, sempre estivemos cobrando do Governo do estado em diversas reuniões e, publicamente, a necessidade imperiosa de desvendar este crime que hoje teve seu importante passo nas prisões dos autores e de outros que participaram no crime. Igualmente, seguiremos incansavelmente cobrando que a polícia do nosso estado, apresente para o sociedade, o mais rapidamente possível, quem são os mandantes dessa covarde execução e suas respectivas motivações, a considerar que Netinho era pré-candidato a prefeito pelo PSOL na cidade de Janduis/RN, disparado nas pesquisas e não tinha qualquer inimigo.

Para o nosso partido, nunca restou quaisquer dúvidas de que essa foi uma execução política encomendada por quem não respeita a vontade soberana do povo e o processo democrático.

Nossos parabéns pelo esforço da polícia investigativa do nosso estado e, reiteramos, que não descansaremos enquanto o próximo passo não for desvendado, ou seja, que os verdadeiros mandantes estiverem presos e suas motivações reveladas.

 Netinho, PRESENTE!

Assassinato de Neto de Nilton rememora execução de Marielle Franco

O crime político contra Neto de Nilton, ex-candidato a prefeitura de Janduís pelo PSOL, traz à tona outro caso de repercussão ainda maior: a execução da ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, também do PSOL.

Ela foi assassinada dia 14 de março de 2018, por volta das 22h, quando voltava de uma atividade do mandato. Além dela, morreu o motorista Anderson Gomes.

Assim como no caso de Neto de Nilton, dois acusados de matarem Marielle foram presos, o PM reformado Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, ambos encarcerados na penitenciária federal de segurança máxima em Mossoró (RN). A polícia, no entanto, ainda não conseguiu revelar o mandante do crime.

Nos dois casos – do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro – a pergunta que a sociedade espera que as polícias respondam é a mesma: quem mandou matar Neto de Nilton e Marielle Franco ?

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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