OPINIÃO

Distopia, a gente lê por aqui

Eu não sou muito ligada em filologias e etimologias (embora as reconheça belas e importantíssimas): é que, aquariana que sou, eu me fio muito mais é no instante e no movimento. Mas às vezes a raiz das palavras ajuda a gente entender. Ao “pé da letra”, por exemplo, então, digamos, a palavra distopia poderia dizer este presente saturado de ontens e amanhãs que presenciamos agora, a palavra que diz este real: um “lugar ruim”.

Agora imagine só: um planeta, e mais precisamente, um país lindo, diverso e múltiplo como o Brasil, concentrar tanta feiúra, tristeza e ruindade…

Quando eu me percebi gente e leitora, caí logo de amores pela literatura fantástica, surreal, e também distópica. Talvez por influência do meu irmão, um físico-leitor danado com quem cedo logo aprendi (ou tentei) rudimentos de física quântica e de ficção científica, misturando num só caldeirão Isaac Azimov e Stephen King e temperando a geleia geral com Julio Cortazar e Ignácio de Loyola Brandão.

E eu lia e me deliciava com todos aqueles fantásticos e pensava que, mesmo em uma realidade paralela ali pertinho, a poucos milhares de quilômetros de anos-luz, eu, confortavelmente filha de uma suada e suposta democracia, estava bem distante e protegida daquelas personas e paisagens, eu jurava, incauta, que transitava por outras narrativas bem longínquas.

Pois eis que de repente eu me percebo personagem de uma distopia. Não é Huxley, não é Rubião, é o mundo de Trump e o país de Bolsonaro. Só pode ser um conto contado por um narrador meio sádico toda essa história (ou seria estória?) a que estamos vivendo. Não pode ser verdade, eu me flagro pensando ao ler uma notícia ou ouvir um pedaço de fala no ar.

E já que entrei em quarentena, decido regurgitar minha mágoa e reler uns clássicos, além de me aplicar no álcool (em gel). Começo por um livro que fez e ainda faz a minha cabeça, cujo título é perfeito para se pensar uma sociedade que exige fechamento de Congresso e STF e que debocha de Coronavírus: “A hora dos ruminantes”, de José J. Veiga.

Não é só uma narrativa sobre um vilarejo em que imperam as velhas relações de poder baseadas na grana e no (falso)moralismo, é o retrato deste nosso tempo: um belo dia, aparentemente do nada, a rotina daqueles “cidadãos do bem” é afetada com a invasão, súbita e misteriosa, de quadrúpedes, inúmeros, milhares, insuportavelmente muitos, primeiramente cachorros, depois bois.

Eu me sinto exatamente assim, tomada no tempo e no espaço por uma profusão exaustiva e nauseante de cães e gado.

Não sei se a teoria das cordas explica a relação entre a literatura e a vida, esta vida, esta que há para ser vivida. Sei que desconfio de tudo e não duvido de mais nada, sei que José J. Veiga já dizia:

As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser.

 

 

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