CIDADANIA

Djamila Ribeiro defende que debate sobre feminismo saia da universidade para a periferia

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Por longos anos na história, as correntes feministas pautaram questões apenas de gênero. Na prática, as mulheres lutavam para terem os mesmos direitos dos homens brancos, de um modo que a questão étnico racial era um detalhe pífio. Com o subsequente crescimento nas taxas de mortalidade da população negra, grupos mais específicos começaram a surgir, na tentativa de pensar em políticas públicas focadas no jovem negro, que não eram contemplados ou sentiam poucos efeitos das medidas existentes. A universalização dos direitos foi um dos temas trazidos a Natal (RN) pela filósofa Djamila Ribeiro na noite desta quinta-feira (6). A escritora lançou a obra “Quem tem medo do feminismo negro?” na capital potiguar, durante palestra na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Ativista e uma das principais referências de feminismo negro no Brasil, a mestre em filosofia política discursou para mais de 400 participantes sobre a importância de se debater o racismo no Estado em que mais se mata negros no país. Segundo o Altas da Violência 2019, divulgado quarta-feira (05), o Rio Grande do Norte também foi o estado brasileiro que apresentou o maior índice de crescimento de homicídios de negros nos últimos dez anos, com 333,3%.

“Se aqui é onde mais se mata o jovem negro, e não se pensa em uma política pública pra isso, esses jovens continuarão morrendo”, alertou.

Segundo Djamila, é preciso pensar no racismo enquanto agente “adoecedor” da população negra, uma vez que a discriminação tem gerado o adoecimento psíquico da população.

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“Quando você melhora o índice de desenvolvimento humano de um grupo vulnerável, você contribui para o desenvolvimento humano de uma cidade e um país“, disse a ativista. “A gente precisa discutir que o não falar e o não fazer nada é manter essas pessoas na política de morte”, criticou.

Durante o evento, a filósofa também discursou sobre a desconfiança intelectual sofrida pela população negra dentro de uma sociedade que nega a existência negra de produzir saberes.

“As pessoas desmerecem as falas de intelectuais negras nesse país. Quando você mata a produção intelectual de um povo, você mata um povo”, pontuou.

A ativista também defendeu que o feminismo negro saia das universidades e chegue às mulheres periféricas, lugar onde diariamente se fortifica o movimento, mesmo que algumas ainda não tenham essa tomada de consciência:

“Existem muitas resistências na periferia, e elas produzem resistência há muito tempo. Mesmo as mulheres negras que não se entendem como feministas, se a gente for olhar a história de resistência nesse país, se deu muito por causa dessas mulheres negras.”

Filha de uma empregada doméstica e um trabalhador braçal, ambos já falecidos, Djamila foi a primeira da família a romper com o ciclo do trabalho doméstico.

“De onde eu venho é muito gratificante perceber que a gente está conseguindo espaço onde um dia me disseram que não era um lugar pra mim”, disse.

Além da luta feminista negra, a filósofa frisou a importância de se respeitar religiões de matrizes africanas e de se atentar ao genocídio dos povos indígenas e da marcação de suas terras. Também destacou a necessidade de que os grupos em defesa dos direitos indígenas, quilombolas e LGBTs lutem juntos.

“Não tem como pensar as opressões de maneira separada, nem lutar contra uma opressão enquanto reforça outra”, defendeu.

Apesar de uma involução hierarquizada limitar o espaço de fala das mulheres negras, Djamila convidou as mulheres a se manifestarem e estarem presentes em espaços de luta, produção de saberes e locais que naturalmente lhes impõe lugar de invisibilidade.

“Existe uma hierarquia posta que determina quem pode e quem não pode falar. A gente quer falar também, quer existir dentro desse espaço. Mas como eles querem continuar sendo únicos, existe um incômodo”, disse. “Gostaria que as pessoas brancas falassem mais sobre o racismo e sobre o branquitude, para entender que seus privilégios não são naturais e foram construídos com base no extermínio de outros grupos,” afirmou.

Demonstrando conhecimento sobre a realidade do Rio Grande do Norte, a escritora também criticou o fato de os governantes estaduais não terem recebido as mulheres e familiares de presidiários que estão acampadas na Governadoria, no Centro Administrativo de Natal (RN). Elas pedem a separação das facções na Penitenciária de Alcaçuz, maior presídio do Estado e que teve segurança reforçada na semana passada para prevenir motins.

“Que as mulheres acampadas aqui na Governadoria do Estado do RN sejam ouvidas”, reivindicou.

Na passagem pelo Rio Grande do Norte, a escritora, filósofa e ativista Djamila Ribeiro também participou de um Congresso Científico em Mossoró e palestrou no Campi do IFRN no município de Apodi

Djamila Ribeiro

Mestre em filosofia política pela Unifesp e colunista da revista Maire Claire Brasil, a ativista foi secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Quem tem medo do feminismo negro?

O livro reúne um ensaio autobiográfico, além de artigos já publicados por Djamila entre os anos de 2014 e 2017. Na obra, a filósofa discute, entre outros pontos, o aumento da intolerância às religiões de matriz africana, conceitos como silenciamento e empoderamento feminino, políticas afirmativas e obras de autoras feministas.

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