OPINIÃO

Djangos

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“Eu toco melhor que qualquer outro guitarrista, exceto aquele cigano”, diz o protagonista Emmet Ray (Sean Penn) no filme Sweet and Lowdown, de Woody Allen, lançado no Brasil em 1999 como Poucas e Boas. A nêmesis de Ray é Django Reinhardt, o primeiro músico a deslocar dos Estados Unidos o centro inventivo da música plasmada pelos negros, criando o jazz manouche ou, para os anglófilos, gypsy jazz.

Django nasceu de ciganos franceses, na vila belga de Liberchies, em 1910. Emigrou a Paris em 1922, quando começou a tocar banjo acompanhando músicos profissionais em concertos e gravações. Adotou na década seguinte o violão cigano, recriando a música da tribo com notas do hot jazz e do swing de dois gênios que cultuava — Louis Armstrong e Duke Ellington.

Para difundir a alquimia, Django (que não sabia ler nem escrever) aliou-se com Stéphane Grappelli, violinista francês de formação clássica também apaixonado por jazz. Os dois criaram o Hot Club of France, um combo inovador na sonoridade e na formação sem sopros, percussão ou piano. O quinteto era exclusivamente de cordas, com dois violões e um contrabaixo na seção rítmica.

Django tocou e viveu como cigano. Nômade, morou quase sempre em uma carroça. Um incêndio doméstico comprometeu os tendões de dois dedos da mão esquerda, mas nem isso rebaixou sua técnica. Cultuado até hoje por guitarristas de jazz, blues e rock, mereceu de outro gigante do instrumento um testemunho inequívoco de genialidade. Jimi Hendrix batizou sua banda de Band of Gypsys.

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Morto por hemorragia cerebral em 1953, Django pode ser ouvido na trilha sonora de vários filmes de Woody Allen e na música de seguidores contemporâneos, como o francês Birélli Lagrene e o holandês Stochelo Rosenberg. Eles preservam o lirismo, a vivacidade, a pulsação, o caráter anômalo da guitarra manouche no jazz — sempre capaz de desconcertar ouvidos habituados ao usual.

Não sei se há sangue cigano no elenco dos Demônios Vermelhos. Mas eles têm o DNA excêntrico do Hot Clube de France. Numa copa regida pela redução de espaços e pelo congestionamentos das linhas final (com 4, 5 e até 6 defensores) e média (5, 4 ou 3 marcadores), a Bélgica contenta-se com 3 zagueiros e 4 meio-campistas fixos. Além (e por conta) disso, mantém uma ofensividade que beira o suicídio, conforme demonstrado na virada (3 a 2) sobre o Japão, que não os desclassificou somente porque se esqueceu, nos momentos cruciais, de quem era (um time mediano) e a quem enfrentava (uma seleção de ponta).

Contra o Brasil, os djangos rubros vão enfrentar a pior oposição ao jazz que praticam. São, portanto, candidatos a uma gaveta no cemitério de grandes seleções que, depois de arrebatar todos os corações pela ofensividade desabrida e a beleza do conjunto, são envenenadas pela combinação de técnica do mesmo nível com eficiência tática superior. Jazem lá a Hungria de 1954, a Holanda de 1974, o Brasil de 1982 e a Dinamáquina de 1986.

O escrete do professor Adenor adota o padrão tático dominante no Matutão russo, baseado na eficiência da marcação, na solidez da defesa. Mas o traçado estrutural à europeia é enriquecido pela brasilidade que nem os treineiros mais conservadores ousam extirpar, como demonstrado pelos campeões Parreira (1994) e Felipão (2002).

Em resumo: nossos canários são mais belgas do que eles. Se os coadjuvantes William e Jesus x Mertens e Lukaku se equivalem, nossos dois solistas — Neymar e Coutinho — são melhores que Hazard e De Bruyne na arte de ‘dar aos pés astúcias de mão’, conforme a definição do estilo brasileiro pelo valoroso centromédio João Cabral de Melo Neto, que não gostava de música mas amava o futebol. Nosso jazz é mais hot, nosso swing é mais maneiro. Os verdadeiros djangos (ainda) somos nós. 4 a 2.

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Jornalista e Poeta

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