OPINIÃO

Do bolsonarismo como paixão, identificação e seita

Eu me aborreço toda vez que leio sobre uma fictícia polarização entre Lula e Bolsonaro, ou quando, diante de debates sobre o desgoverno federal se argumenta que “é uma questão de política”. Não. O bolsonarismo não é e nunca foi política. É antes de tudo justamente uma visão não-política da realidade. Mais que isso: Uma paixão, um processo de identificação.

Na verdade, como muita gente boa já analisou, o bolsonarismo vem de muito antes de Bolsonaro. Remete a séculos atrás, ao escravagismo, aos senhores de engenho, à proibição dos direitos das mulheres. No pós-ditadura militar, o bolsonarismo estava lá nos votos a Collor, aos tucanos, a Aécio. Disfarçado, inibido, mas, sempre lá, esperando apenas uma brecha para vir à tona.

Essa brecha surgiu em 2018, com a candidatura viável de alguém com quem parcela da população brasileira podia se identificar sem maquiagem. Tosco, ignorante, assumidamente misógino, racista, homofóbico. Essa parcela não precisaria mais votar em gente que era antiPT mas metida a esnobe, a intelectualmente superior, como FHC e Serra, nem em almofadinhas educados como Alckmin, nem tampouco em ogros com verniz e gostos requintados, como Collor e Aécio. Com Jair, eles poderiam votar diretamente no que eles próprios eram.

Afinal de contas, quem nunca se deparou com o tiozão grosseiro da fila da lotérica, falando alto e reclamando de tudo? Quem nunca ouviu em festas, no trabalho ou no bar piadas preconceituosas como as ditas diariamente pelo despresidente? Todos nós conhecemos durante a vida dezenas de bolsonaros, mas, não obstante o barulho que sempre fizeram estavam reservados à mediocridade deles. Hoje, um deles foi alçado à presidência, empoderou os demais. A caixa de Pandora foi aberta.

Essa identificação imediata gerou uma paixão. Os apoiadores de Bolsonaro atualmente o fazem não pelos atos de Governo ou ideias defendidas, embora em tese pareça. Nada disso. O que eles idolatram é a pessoa Bolsonaro, as ideias (“guerra cultural”, “guerra ao comunismo”, “pela familia e valores cristãos”) é uma ficção, um pretexto, e eles mesmos sabem disso. Eles veneram o tiãozão de churrasco sempre pronto a zombar da mulher, do preto, do gay, do anão, do gordo, do deficiente.

Também me irrita comparações com o apoio que beira a idolatria a Lula. O petista o recebe não apenas por ele ser ele (e o paradigma que ele quebrou, retirante que chegou no Sudeste de pau de arara e virou presidente) mas, principalmente pelas ações de Governo. Pelos 8 anos de inclusão social, investimentos em Educação, diminuição da pobreza, enfim, indicadores econômicos que não deixam ninguém mentir.

Toda pessoa com quem converso e que venera Lula, lança mãos desses dados imediatamente. Lula construiu esse apoio/idolatria com ações concretas.

Bolsonaro em 3 anos de governo destruiu bem mais do que construiu. Apresenta índices econômicos péssimos (mesmos antes da pandemia) que constrangem diariamente seu posto Ipiranga Paulo Guedes. Tem uma gestão pautada em sabotar as instituições e em grosserias diárias. Ainda assim, idolatrado. Justamente por fazer isso.

Esse somatório de identificação com paixão gerou ao bolsonarismo hoje um status de seita. São pessoas que não questionam a palavra de seu líder. Se Bolsonaro disser que em uma “motociata” de 12 mil pessoas haviam um milhão, então, está dito, ainda que as fotos dos drones mostrem a verdade. Para esse pessoal a verdade é que Bolsonaro disser. Se ele disser que a situação econômica do Brasil está boa, então, está, ainda que os devotos vejam os preços subindo nos supermercados. O sujeito sente o problema no bolso, mas a verdade é que jair disser.

Isso é perigoso? Claro. E muito. É com fanáticos assim que se constrói um golpe ou que se agridem as instituições. O que podemos fazer? Contra os fanáticos, coisa coisa. Em relação à política, unir forças contra esse processo visivelmente fascista, sem patrulhar comportamento, votos passados ou origem partidária-ideológica. Com seitas, não se brinca.

 

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