CIDADANIA

Do isopor ao ouro. Surfista Ítalo Ferreira pode trazer o sonhado ouro olímpico para o RN

Luiz Henrique Gomes
Especial para o Saiba Mais

A palavra mais usada por Ítalo Ferreira em suas redes sociais é fé. Na madrugada desta segunda-feira (26), quando ele conseguiu avançar para as quartas de final do surfe, que estreia este ano nas olimpíadas, a postagem tinha apenas “Eu creio”, demostrando a fé no ouro olímpico. Há dois anos, em 2019, o surfista potiguar fez história no Japão. Em setembro daquele ano, o surfista ganhou a etapa de Miyazaki no mundial de surfe após ter problemas no pouso do voo em que estava. Ítalo desembarcou na cidade minutos antes do horário marcado para entrar na água, foi direto para a praia, chegou faltando nove minutos para o fim da sua bateria e surfou com uma prancha emprestada e de bermuda jeans.

Até hoje, este é o maior feito do potiguar no Japão, onde ele retornou este ano com o objetivo de conseguir um ainda maior: vencer as Olimpíadas de Tóquio. Caso saia com a medalha de ouro, Ítalo será o primeiro campeão da história do surfe nas Olimpíadas e o potiguar a chegar ao alto do pódio olímpico. O surfista chega com 27 anos no Japão com o prestígio de ser o atual campeão mundial de surfe – conquistado em 2019, mesmo ano do episódio no Japão, contra o também brasileiro Gabriel Medina. O título marcou o auge da carreira do potiguar, iniciada quando ainda era garoto.

Natural de Baía Formosa, distante 98,2 quilômetros de Natal, Ítalo se apaixonou pelo surfe graças à influência dos primos e dos amigos. Entretanto, sem estrutura para praticar o esporte, dependia da prancha emprestada dos primos para poder praticar. Diversas vezes, ele ia para o mar com tampas de caixas de isopor onde o pai, o comerciante Luiz Ferreira de Souza, armazenava peixes para revender.

“Ele ficava de dia no mar e a noite na escola. Mas sempre preferiu o surfe e nós temos muito orgulho de tudo o que ele conquistou”, disse o pai de Ítalo, conhecido na região pelo apelido de Luizinho, em entrevista à Folha de S. Paulo em 2019, quando o surfista foi campeão mundial.

No início dos anos 2000, Luiz Pinga, então diretor de marketing de uma das principais marcas de surfe, foi à Baía Formosa para avaliar um surfista que haviam indicado para ele como promessa da geração. Na cidade, acabou vendo Ítalo surfar, ainda moleque, e se surpreendeu. A partir daí, a carreira do potiguar não parou mais de crescer.

Ítalo logo venceu duas etapas do Mundial Júnior em 2011, foi vice-campeão da categoria, ganhou o Campeonato Brasileiro e em 2014, enfim, se classificou pra integrar o WCT (World Championship Tour), a elite do circuito. Logo na primeira temporada, em 2015, foi eleito novato do ano com um impressionante sétimo lugar e um estilo de surfe mais agressivo, com aéreos que surpreenderam o mundo inteiro.

Nos anos seguintes, em 2016 e 2017, Ítalo sofreu com lesões e ficou de fora de parte da temporada do surfe. Mas, em 2018, o potiguar conseguiu deixar para trás a maré de azar e venceu três etapas do mundial, o que o colocou no quarto lugar do ranking. A expectativa para ganhar o campeonato mundial cresceu, e veio no circuito de Pipe Masters, no Havaí, em 2019.

Antes mesmo do título, o potiguar já era influência para os jovens de Baía Formosa. No retorno à cidade após ser campeão, Ítalo foi recebido por centenas de moradores – entre eles, muitas crianças. “Eu penso que um dia posso ser como ele. Também quero conquistar o mundo”, disse também à Folha uma das surfistas da nova geração da cidade, Maria Clara, no dia em que o campeão foi recebido na cidade.

Agora, o surfista vive a chance de trazer mais um título para o Rio Grande do Norte. Ele é um dos dois potiguares presentes como atletas nas Olimpíadas de Tóquio e, na noite deste sábado, no horário de Brasília, já começou fazendo história: com notas de 7 e 5,9, o potiguar venceu a 1ª bateria do surfe nas histórias das Olimpíadas e avançou diretamente para as oitavas. Na madrugada desta segunda (26), se classificou para as quartas de finais. Se depender da vontade e da determinação de Ítalo, essas primeiras ondas olímpicas já não serão as mais lembradas pelos japoneses. A história do ouro, que começou no isopor, está perto do final.

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