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No apagar das luzes, Dodge denuncia fraude e pede novo inquérito para o caso Marielle

Em último ato à frente da Procuradoria Geral da República (PGR), Raquel Dodge apresentou denúncia de irregularidades na condução do caso dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. A procuradora-geral da República pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) a abertura de um novo inquérito para apurar o crime que completou um ano e seis meses no último sábado (14). Segundo Dodge, a denúncia cita desvio de investigações para não revelar organização criminosa, inserção de declarações falsas em documentos oficiais e outros crimes relacionados a fraude processual.

Os nomes apontados na denúncia sob a acusação de “encenação de investigação” para conduzir a falsos mandantes do crime são: Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE –RJ); Gilberto Ferreira, funcionário do gabinete de Brazão; Rodrigo Ferreira, policial militar que apontou o vereador Marcelo Siciliano e o miliciano preso Orlando de Araújo como mandantes do crime; Camila Nogueira, advogada de Ferreira, e Hélio Kristian delegado da Polícia Federal.

O pedido da procuradora para federalizar o caso foi feito após a análise da tentativa de obstrução das investigações. No entanto, o processo de federalização do crime contra Marielle e Anderson está em análise desde o ano passado. Qualquer mudança na condução do inquérito precisa de autorização do STJ.

Os pais da vereadora Marielle, no entanto, são contrários à federalização das investigações do crime que provocou também a morte do motorista Anderson Gomes. Para o pai de Marielle, Antônio Francisco Silva Neto, a transferência das investigações para o âmbito federal é desnecessária, após um ano e meio de condução do caso pelas autoridades do Rio de Janeiro. Ele questionou a proposta de federalização feita pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge faltando pouco tempo para ela deixar o cargo.

“Por que vai para a esfera federal começar um inquérito que já tem esse longo período de investigação? Acho que não é necessário. Nós acreditamos nas autoridades no Rio de Janeiro, que já deram passo importante na prisão dos dois envolvidos. Por que agora, no final do mandato dela, pedir a federalização? Não vejo necessidade. Confiamos no pessoal do Rio de Janeiro, que já têm envolvimento com o pessoal da Polícia Federal na investigação. Se ela tinha esse interesse, deveria ter feito o pedido antes e não no final do seu mandato”, disse durante uma entrevista na sede da Anistia Internacional Brasil, na zona sul do Rio.

A advogada Marinete Silva, mãe de Marielle, reforçou o argumento. Segundo a mãe, a federalização não faz sentido no momento e seria um processo mais doloroso para as famílias. “Não tem por que sair. Até porque, isso indo para a esfera federal hoje, a gente não sabe na mão de quem vai cair este processo.”

“Se tem uma investigação há um ano e seis meses, integrada com a Polícia Federal, não há por que sair do estado onde aconteceu todo o crime para ir à esfera federal”.

Conforme a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, o que deve existir é uma integração das autoridades envolvidas com poderes investigativos. “Nós não opinamos quem deve estar à frente da investigação. O que nós dizemos é que quem quer que seja tem que trabalhar de forma integrada e cooperada para trazer as respostas o quanto antes”, disse.

Ao Brasil de Fato, Marinete Silva, mãe da parlamentar assassinada, disse que passar o caso para a esfera federal atrasaria ainda mais a investigação.

“Imagina se começa um novo processo para se inteirar do que tem nele com 18 volumes, por enquanto. E está na segunda etapa já, esses homens [Ronnie Lessa e Élcio Queiroz] vão ser ouvidos agora, dia 4 de outubro. Já está caminhando para sabermos daqui a uns dias a respeito do júri. Queremos que eles sejam condenados e também queremos saber o mandante. Com a federalização fica mais longe da gente saber quem é esse mandante porque vai sair do nosso controle”, explicou Marinete.

Dezoito meses

Marielle, assassinada em março de 2018 (FOTO: Márcia Foletto/Agência O Globo)

O crime completa um ano e meio no próximo sábado (14). Para o pai de Marielle, é muito tempo sem respostas sobre os autores da morte da filha e do motorista Anderson.

“[São] 538 dias do assassinato da minha filha. Desde o início, nossas perguntas são as mesmas. Quem mandou matar Marielle e por quê?”, denuncia Antônio Francisco. “É inadmissível que uma defensora dos direitos humanos seja assassinada nos dias de hoje no Brasil e com toda tecnologia que temos não serem descobertos os mandantes”, completa o pai.

Na visão da mãe da vereadora, apesar do tempo sem a solução do crime, não é possível perder a esperança de que o caso vai ser resolvido. “Não posso deixar de ter esperança de saber quem mandou matar a minha filha. A gente tem que ter esperança sempre. Independente da minha dor profunda”, conta.

A diretora da Anistia afirmou que, durante todo esse tempo, várias vezes autoridades indicaram que a solução do caso estava próxima, mas não foi isso que ocorreu. “Em diferentes momentos recebemos das autoridades essas informações. Em todos os momentos das autoridades não estavam falando a verdade como a gente vê até agora”.

Marinete Silva está confiante também na audiência, prevista para o dia 4 de outubro, com o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz, apontados como suspeitos de participar dos assassinatos e presos em unidade federal no Norte do país.

“Não quer dizer que eles vão delatar diretamente quem mandou, mas a gente já tem alguma coisa para que sejam levados a júri e a [pode ser que a] gente tenha alguma coisa mais concreta em relação à morte da minha filha”, disse.

Mandato

Raquel Dodge encerra nesta terça-feira (17) mandato de dois anos na PGR. Durante o período em que chefiou o Ministério Público Federal (MPF), a procuradora apresentou 64 denúncias contra 224 pessoas; 19 pedidos de homologação de delações premiadas, e 427 pedidos de extradição.

Para o lugar de Raquel Dodge, o presidente Jair Bolsonaro indicou o subprocurador-geral Augusto Aras. Antes de tomar posse no cargo, Aras precisa ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e pelo plenário da Casa. A previsão é que a indicação seja votada em 25 de setembro.

Até a aprovação, a Procuradoria-Geral da República será chefiada interinamente pelo vice-presidente do Conselho Superior do MPF, Alcides Martins.

*Informações: Brasil de Fato e Agência Brasil

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Pedro Torres
Pesquisador e jornalista com foco em direitos humanos, política e tecnologia baseado em Natal/RN. CONTATO: pedrohtorres@outlook.com

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