CULTURA

Dodora Cardoso: “Eu era a rainha do SPC e do Serasa em Caicó, hoje sou 100% feliz”

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Maria Auxiliadora Cardoso da Cunha Oliveira é nome grande. E proporcional ao coração e à alegria da menina do interior que desde sempre sonhava em ganhar o mundo cantando. Natural de Caicó, cidade-polo da região do Seridó potiguar, Dodora Cardoso nunca sonhou com carro importado ou apartamento com vista para o mar. O sucesso e o fracasso, para ela, sempre estiveram relacionados à reação da plateia. O que machuca é a indiferença.

– Sucesso é ver uma pessoa sorrir ou chorar na plateia. Se você começa a cantar e ninguém vira para lhe ver é melhor ir para casa, vá vender dindin. Não entendo porque as pessoas me amam. Mas a empatia com os fãs é visceral, eles gritam. Já fui proibida de cantar numa casa em Natal por causa da reação dos fãs, gritando quando estou cantando. Não sei explicar.

É preciso assistir a um show de Dodora Cardoso para entender de fato a relação da artista com os fãs. Desbocada, segura a plateia na mão da primeira à última música. Uma trajetória consolidada em 2017 com o primeiro disco autoral, lançado em dezembro. Sem patrocínio, foi pagando a produção do CD a conta-gotas com o dinheiro que recebia dos cachês e da contribuição de um amigo ou outro. Priorizou compositores do Rio Grande do Norte e, sem esquecer as raízes, gravou quatro músicas de artistas de Caicó. O disco marca os 40 anos de carreira e os 60 de idade.

– Meu disco foi todo feito por Jubileu Filho, que tem 9 funções no CD. Gravei voz e piano com Eduardo Tauffic. Você sabe o que é isso ? Não tenho palavras para expressar minha felicidade. E ainda consegui pagar um CD autoral gravando no melhor lugar. O ano de 2017, que começou comigo dentro de uma van chorando de raiva, foi muito importante. Eu era a rainha do SPC e do Serasa em Caicó, hoje sou uma mulher 100% feliz.

Obviamente, a trajetória de Dodora Cardoso não começa com os gritos dos fãs nem com o público beijando seus pés, como geralmente acontece hoje quando volta a Caicó. Nos últimos 60 anos, a linha do tempo de Dodora teve choro e riso, medo e esperança, raiva e alegria. A primeira e maior influência estava dentro de casa. O pai era trombonista de vara e fã incondicional de duas grandes cantoras: a gaúcha Elis Regina e a potiguar Glorinha Oliveira. Sargento Omar Peitico, como era conhecido, foi a grande inspiração de Dodora.

– Meu pai ouvia Elis Regina, Glorinha Oliveira e Ângela Maria também. Ele era repentista, poeta e tocava trombone de vara. Minha irmã ouvia muito Beatles. E quando eu era pequena brincava de formar plateia. Juntava os meninos fingindo que era para estudar e começava a cantar para ser aplaudida.

O serviço militar levou a família de Dodora para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, uma tragédia abateu os Cardoso. Por conta de uma briga de jogo, Omar levou uma facada de um “amigo” e morreu, segundo os médicos, de uma infecção na transferência da ambulância para o hospital.

– Eu era muito pequena, não lembro direito do assassinato. Sei que o cara que o matou foi lá em casa pedir desculpas a ele, colocou a mão no ombro do meu pai e os dois saíram juntos. Foi uma facada só. Morreu de infecção, na transferência. Minha mãe ficou sozinha com quatro filhos para criar. Ainda demoramos uns seis anos no Rio de Janeiro até resolver a papelada para voltar a Caicó. Sofremos muita violência nesse período, mas voltamos.

Dodora Cardoso conquistou o 1º lugar no concurso A Mais Bela Voz do Sertão, na rádio Rural

 

De volta a Caicó, a caçula Dodora foi à luta. Estudava em colégio de freira e cantava em festas particulares e entre amigos. Na época, a rádio Rural promovia concursos de calouros para escolher A Mais Bela Voz. Haviam eliminatórias por cidades e a grande final, quando o público conhecia a Mais Bela Voz do Sertão. Em 1977, a rádio a convocou para cantar. Dodora não sabia, mas um grupo de amigas haviam feita sua inscrição. Refeita do susto inicial, partiu para o ginásio para soltar a voz. Defendeu a canção Sonhos de Palhaço, composição de Antônio Marcos. Advinha quem ganhou ?

– Fiquei em primeiro lugar como A Mais Bela Voz de Caicó e depois ganhei o concurso geral de A Mais Bela Voz do Sertão. A final foi em Parelhas. Tive que sair escoltada porque algumas pessoas não gostaram do resultado. Os ginásios eram lotados, a gente percorria até 20 cidades no interior. Uma banda acompanhava os cantores, sempre quando canto Sonhos de Palhaço um filme passa na minha cabeça. A rádio Rural foi muito importante para mim, sou muito grata. Minhas amigas que me inscreveram hoje são todas doutoras e por causa delas eu virei cantora. Para mim, aquele concurso é o marco, o começo de tudo. Por isso esse ano digo que completo 40 anos de carreira.

A vitória do concurso da rádio Rural abriu o mundo de Dodora para as bandas de baile, conjuntos musicais que tocavam todo o dia de música. Os bastidores desses grupos nem sempre eram saudáveis. As bandas de baile, geralmente, tinham um dono que explovaram os músicos em troca de retorno financeiro. Dodora era disputada pelas bandas, mas nem por isso devidamente reconhecida. Como cantora de baile conheceu praticamente todo o Nordeste.

– Costumo dizer que conheci 80% do Nordeste. Fomos a muitos municípios do interior. Comecei na banda Natureza Lucilante, depois fui para o Circuito Musical e migrava de banda para banda. O que diferenciava eram os egos das pessoas. Havia sempre um manda chuva que queria gritar e ganhar mais. E não fazia quase nada. Ele investia naquilo que tinha retorno. Gritavam, pagavam pouco, mas sabiam que você daria retorno.

Do final da década 1970 até meados dos anos 90, os cantores populares se destacavam também se apresentando em comícios eleitorais. Dodora cantou para vários políticos e como não tinha preferência política por nenhum candidato, pagou um preço alto. Se o político para o qual ela cantava não ganhasse a eleição, Dodora ficava pelo menos dois anos sem espaço para cantar. Todos os espaços em Caicó se fechavam para ela. Eram tempos difíceis, em terra de coronéis. Sem dinheiro nem oportunidades. Esse aliás foi um dos motivos para Dodora deixar Caicó e se mudar de mala e cuia para Natal.

– Esse tipo de política é muito agressiva. Eu nunca tive preferência por nenhum candidato. Cantava para quem me contratava primeiro. Se pediam para vestir branco eu vestia. Se mandavam eu colocar nariz de palhaço eu colocava. Mas em Caicó era assim: se você vestia vermelho e o azul ganhava, você ficava sem cantar. Era cruel isso. Mas hoje, quando eu volto a Caicó, as pessoas me amam. Queriam até que eu me candidatasse a vereadora, mas não. Meu negócio é cantar. Eu sou feliz e realizada cantando. Nunca precisei derrubar ninguém, passar por cima de ninguém. Nunca quis casa, carro importado. Sempre quis cantar e se hoje consigo pagar uma aluguel e morar num lugar legal eu devo isso ao meu trabalho como cantora, ao que conquistei.

 

A cantora caicoense tocou em mercados públicos, penitenciárias e até no teatro Riachuelo

 

Em Natal há 12 anos, Dodora abraçou e foi abraçada pelo público. Se apresentou três vezes no teatro Riachuelo ao lado de Glorinha Oliveira e de Fafá de Belém, mas se sente mais à vontade nos Mercados Públicos da vida. Por três vezes também se apresentou em penitenciárias para presos acusados de homicídios e outros crimes. Um dia, ao parar num bar para comprar água no interior do Estado, foi interpelada por um homem, que perguntou se Dodora se lembrava dele.

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– O cara bateu com um taco de sinuca no meu ombro e perguntou se eu sabia quem eu era. Não me lembrava e ele disse: “você não é a cantora ? Eu vi você na penitenciária, tinha matado dois na época!” Lógico que me lembrei na hora. O público sempre me surpreende (risos).

Conversar com Dodora é garantia de risos e boas histórias. A cantora caicoense que vai do samba à seresta de fossa, diz que é assim dentro e fora do palco. Hoje, a maior alegria que tem é, além dos aplausos do público, ouvir o neto cantando. Já a maior tristeza tem endereço certo:

– O que me faz chorar é saber o motivo da fome do povo, saber porque chegamos àquela pobreza. Quanto à mim, só quero cantar. Não quero ser consagrada. Meu sucesso acontece quando vejo uma pessoa sorrindo ou chorando na plateia. Eu canto e isso me faz feliz.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"