OPINIÃO

Dois cliques de Francisco

Um bom fotógrafo eterniza imagens que entram não só para a iconografia cotidiana a estampar manchetes em portais de notícia ou capas de insistentes jornais impressos, mas também podem ficar marcados para todo sempre no imaginário coletivo por representarem com perfeição a simbologia de um momento histórico.

O anúncio do fim da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, é notícia ilustrada em nosso inconsciente pelo flagrante perpetrado por Alfred Eisenstaedt chamado “Kiss in Times Square” no qual um marinheiro e uma enfermeira se beijam. Também é facilmente reconhecível por nossas tão fatigadas retinas a imagem mais célebre de Che Guevara, de autoria de Alberto Dias Korda, reproduzida tantas vezes que se tornou produto da cultura pop a enfeitar camisetas e quadros mundo afora. Há fotografias tão representativas que uma delas em especial acabou motivando o filme “A Conquista da Honra” de Clint Eastwood e tantas outras serviram de estímulo, inspiração e justificativa para ações e escolhas às mais diversas.

No sábado, 07 de abril de 2018, um jovem fotógrafo chamado Francisco Proner, de apenas 18 anos, produziu a imagem que circula o mundo levando consigo toda uma carga de significantes e significados, quase uma aula de semiótica instantânea e riquíssima, sendo vista, interpretada, exibida e compartilhada incessantemente. A precisão, senso de oportunidade e sensibilidade apurada do profissional o converteram em um nome conhecido e admirado. O que ele produziu naquele momento é mais do que um mero fotograma, mas uma obra de arte que, tal qual um clássico literário, deixa abertas inúmeras possibilidades de leituras possíveis.

Quem é aquele homem sendo conduzido nos braços em meio a tantos apoiadores? De onde veio? O que fez? Para onde vai? Tais perguntas podem ser respondidas de mil e uma maneiras, objetivas e lúdicas, mas seja qual for o desenvolvimento do raciocínio que formulemos a respeito, certamente a ilustração que escolheremos é uma só, a foto de Francisco Proner que, naquele exato instante, não apenas pressionou um botão de sua câmera, mas também deu um clique que pode acionar reações diversas: quem sabe a união de todos aqueles que acreditam que possa haver uma convergência das esquerdas em torno de um projeto, juntando progresso e desenvolvimento com melhor distribuição de renda e justiça social. Talvez o curitibano Francisco tenha apertado um interruptor que motivará a tomada de consciência de que ainda somos (ou podemos ser) maioria e, por mais que as bolhas de agressividade em que vivemos, infectando de sectarismo nossas redes sociais e produzindo constrangimentos afrontosos em almoços de família digam o contrário, a imagem estará lá eternizada, contradizendo esta inverídica afirmação.

A imagem de Lula saindo do Sindicato nos braços do povo é uma peça pronta de marketing político capaz de reunir pessoas diversas em torno de uma ideia. Porque se a esperança um dia venceu o medo, também pode vencer o ódio.

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras

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