OPINIÃO

Dona Maria Helena vs os famigerados “homens-xícara”

Minha mãe, que partiu há dois anos, tinha personalidade forte, quase sanguínea, era briguenta mesmo. Fluminense de Niterói, tinha fama na família de não fugir de brigas nem de levar desaforos para casa, nem quando jovem e muito menos quando idosa, quando se tornou especialista em brigar com os gerentes do Nordestão quando achava tangerinas entre as laranjas e quando alguém tentava burlar a fila preferencial, ocasião em que ela virava uma leoa.

Pois Dona Maria Helena, que é como papai a chamava quando queria se referir à parte impulsiva dela, tinha uma indignação especial e uma cruzada particular contra o que ela chamava de “homens-xícara”. Aqueles marmanjos que batem papo em calçadas, segundo ela geralmente em frente a concessionárias de veículos ou bares, não apenas ocupando o espaço do passeio público mas – o que mais a indignava – com os braços em forma de < para descansar as mãos na cintura, de maneira a alargar ainda mais a área corporal. Daí ela os ter apelidado de “homens-xícara”, pelo formato que pareciam formar e pelos braços se assemelharem às asas das xícaras. Invariavelmente mamãe não desviava deles, mesmo que em posição de “xícaras” e os confrontava pedindo licença de forma ríspida e quase os derrubando, ou melhor, sendo derrubada.

Eu e meu filho Pedro tentávamos convencer mamãe a não ser tão bélica, ainda que os homens estivessem errados e fossem “espaçosos”. “São uns famigerados”, dizia mamãe, certamente desejosa de dizer palavrões que a doutrina evangélica que seguia e a educação conservadora não permitiam.

Recordei essa história engraçada e tudo isso porque mamãe sustentava que esses “homens xícaras” ou seja os homens espaçosos e desagradáveis, sem noção do coletivo e sem atos de gentileza e respeito, eram exceção, e não a regra. Hoje, se viva estivesse, mamãe veria que esse tipo de homem chegou ao poder e está empoderado. Os “homens-xícara” estão nos mais altos postos do Governo Federal. Em secretarias, ministérios. E na presidência. Homens que fizeram da grosseria e de um machismo. racismo e homofobia mais que culturais, mas, orgulhosos, uma prática cotidiana. Não se trata de minha opinião. Eles próprios deixam isso claro nas próprias redes sociais e pronunciamentos deles. Produzem provas contra eles mesmos, como se diz. São orgulhosos de sua grosseria e tosquice.

Portanto, dona Maria Helena veria hoje os famigerados “homens-xícaras” que ela tanto desprezava, em situação de total empoderamento. Não chega a ser surpresa. Após a simbólica eleição de uma mulher para a presidência da República (Dilma Rousseff em 2010) já em 2014 no embate contra Aécio Neves, começamos a ver sinais de misoginia nas campanhas contra ela e pelo impeachment. O caso dos adesivos com a imagem de Dilma em postos de combustível, foi de um machismo e canalhice imperdoáveis. E sintomático do que viria pela frente. Não surpreende que o país tenha elegido presidente um homem que disse que não estupraria uma colega deputada “porque ela não merecia”.

O resultado desta eleição e do empoderamento de homens misóginos-machistas está aí: Aumento no número de agressões a mulheres e de feminicídios. Crescimento no caso de agressões á população LGBTQI+. E muitos outros direitos afrontados ou questionados. Afinal, para os “homens-xícaras”só o espaço – literal ou metafórico – deles importa. Pensando bem, talvez seja até melhor mamãe não estar aqui para ver os famigerados, como ele os denominava, com tanto poder.

Uma pena.

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