OPINIÃO

Dor crônica

Num canto escondido do jornal alguém anuncia sua dor. “Sofre-se dores variadas e infindáveis”, diz o cronista do dia. Num desses cantos da cidade que não sai no jornal, há quem sinta uma dor vazia e oca. Não há quem acuda. Estão todos ocupados com suas próprias dores. Variadas e infindáveis. Crentes e descrentes, guardam consigo a certeza de um infinito, onde não haja dor. Ainda que lhes reste o mais “completo” vazio, que seja um vazio sem dor, apenas o passar das horas.

Quando o cronista rasgou o peito e pendurou a sua dor nas linhas do jornal, ele buscava compaixão. Mas encontrou o estranhamento de uma gente cujas dores são silenciadas. Não faz alarde, se faz, não é ouvida. Como quer alguém agora romantizar o que lateja? O que pulsa embaixo da carne viva? Ah, eles não sabem que o cronista também sente dor. Desde o dia que pisou no mundo. Uma dor que é o seu próprio mundo.

Já ouviu médicos e toda a sorte de especialistas e entendidos no assunto. Mas é uma dor sem raiz, vagabunda, que parece não deixar vestígios, embora saiba se fazer presente como poucos. E, em virtude deste mal, tem sido um filho ausente, um amigo displicente e até um amante grosseiro. Não há espaço para quem quer que seja. Será que o mundo é apenas isso? Um homem e sua aflição. Um homem que, por ora, é tão somente um sobejo de dor.

Era como se sentia a cada manhã. No começo, não havia dor. Na verdade, não sentia nada. Mas não tardava e um troço metálico feito faca cega perfurava suas fracas carnes de cronista e ali morava até o tardar das horas. Não oferecia resistência, até porque não podia oferecer o que não tinha. Restava-lhe a escrita. É fato, andava escrevendo melhor. Há meses não saía de casa, mas versava sobre o tempo e o clima que fazia na cidade. Indignava-se, amava, berrava e até varria o chão quando dava.

Agora, a vida era um homem, sua dor e as circunstâncias. Às vezes acertava o ritmo das coisas e vivia bem com ela, a dor. Mas estava cansado. Queria ser um sujeito qualquer. Banal e ordinário. No entanto, do cachorrinho abandonado à velhinha pedindo esmolas, tinha dias que a vida era uma sucessão de pequenas tragédias. A maior delas parecia ser essa mazela de sentir tudo, em especial, dor. Em doses absurdas, sentia muito.

Ninguém sabe o que pensava o cronista no dia em que alardeou sua dor no jornal. “AQUI SOFRE-SE DORES VARIADAS E INFINDÁVEIS.” Não se sabe de quem é que ele fala. Nunca foi de seu feitio falar de si, não assim, de forma tão ruidosa. Agora, pouco importa. Nenhuma dor é maior que a outra. Um dia sentiram dor, então alguém nasceu. Agora sentem dor e fazem crônica, poesia, alarde. Que é também um jeito de nascer, mas principalmente de viver, apesar da dor.

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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