OPINIÃO

Dor de cabeça

Até 9h eu não existo. Sou fria, deprimente, robótica. Não tenho coração. Ignoro o bom dia de velhinhas, aceno indiferente. Não vivo, apenas cumpro o check-list matinal. Se não dispenso o despertador é porque ele já é quase extensão de mim.

TRIMMMM. 6h da manhã. Arrasto os chinelos até o banheiro e me levo junto. Ignoro qualquer sentimento que não seja o dever de estar de pé. Sou meio robô. Eu mesma me comando. Se o café é intragável, tudo bem, engulo de uma vez. Se chove logo cedo, sou à prova d’água. Flutuo, nado, remo, mas chego e faço o que tem de ser feito.

Mas a cabeça já não acompanha as engrenagens de robô. Dói. Lateja. Pulsa uma orquestra descompassada aqui dentro. Lembro que sou gente e disfarço. Fecho os olhos. Tento entrar no ritmo das batidas que sacodem minha cabeça. Antes fossem tambores! Mais parecem marteladas.

A dor me faz mal. Pior, me faz ruim. Remoo velhos rancores, jogo lixo na rua, nego esmola, olho feio. Desejo o mal. Desejo outra vida, que a minha já não dá conta de uma cabeça que dói.

Quero uma Coca-Cola. Se essa dor me matar, vai ser minha última refeição. A mediocridade na era de sua reprodutibilidade técnica. Cabeça quente num calor do inferno. Que dia! Morreu de quê? De quentura! E como morre alguém que vive no automático? Desliga?

Apago e revivo, feito máquina velha. Derrubando projeções, volto outra, melhor. Ainda assim, sinto uma dor vazia, sem razão de ser. Respiro. Encho o peito. Mas nada preenche o vazio do tempo que corre.

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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