OPINIÃO

Dostoiévski não foi à Copa 2018

Em O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch, é possível fazer um tour pelas lembranças da antiga União Soviética e perceber o seu significado para a Rússia atual, país sede da Copa do Mundo de 2018. Constatamos uma contradição. Por um lado, as consequências desastrosas do período Stalinista e comunista: fome, prisões e mortes dos que não concordavam com o regime. E, também, o dilema ideológico da abertura a partir da Glasnost (abertura) e da Perestroika (reestruturação) de Mikhail Gorbachev, no final da década de 1980. Vemos a herança militar dos anos de chumbo com Vladimir Putin e, ao mesmo tempo, da literatura de Dostoiévski, Tosltói e Gogol.

Por outro lado, a Rússia vive a fantasia do consumo desenfreado do ocidente, sobretudo, pelos jovens. Gorbachev prometeu democracia com abertura para o mundo. Entretanto, isso não aconteceu. O fim da U.R.S.S veio acompanhado de desemprego, alcoolismo, conflitos étnicos, máfias e da ausência de democracia no governo Putin. O fato como o Estado trata os homossexuais é uma prova cabal da sua barbárie cultural e política. Olhando o espetáculo da Copa, percebemos uma Rússia sob a égide da globalização midiática e econômica. Os apresentadores de TV demonstram uma ignorância histórica fenomenal. A ausência de conhecimento faz com que reduzam o país ao tamanho das avenidas, frio, calor e as longas distâncias entre os lugares de Jogos. Tudo isso acompanhado de enquadramentos superlativos dos lugares pelas câmeras.

Com as desclassificações da Rússia e do Brasil, o que manteremos de memória cultural daquele povo? Mesmo o capitalismo publicitário na Copa deixa de explorar uma componente estética que abarcaria outro espectador consumidor, isto é, aquele que adora futebol e, ao mesmo tempo, ama a literatura universal. Temos que concordar com Gilles Lipovetski, quando afirma que estamos na era de um “capitalismo artista” no qual “(…) se molda uma forma inédita de economia. Sem dúvida, a atividade estética é uma dimensão consubstancial ao mundo humano-social, o qual Marx dizia, em seus escritos de juventude, se distinguir do universo animal por não poder ser modelado sem levar em conta as ‘as leis da beleza’”.

Por isso, grandes vultos das artes não podem ser considerados apenas como instrumento do interesse econômico. Eles são do domínio estético e, por isso mesmo, devem ser considerados no universo do gosto e do consumidor atual. Assistimos, assim, a ausência de referências fundamentais para a humanidade.

Refiro-me, sobretudo, à falta de publicidade sobre o patrimônio cultural e artístico daquela nação. Como não aproveitar o momento do espetáculo para divulgar escritores tais como Dostoiévski e Tósltoi ? Claro, não se pensa aqui em fazer da Copa do Mundo um evento literário, mas aproveitá-lo para introduzir na publicidade a necessidade de preservação da arte em escala universal.

A mensagem ética da compaixão e do perdão do personagem Raskólnikov em Crime e Castigo seria oportuna para um mundo tomado pela fúria das guerras e pelas barbáries das políticas de imigração na Europa e EUA. Como diz Edgar Morin, a literatura nos abre janelas para o mundo e é vestimenta para uma vida criativa.

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Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais

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