OPINIÃO

Doutor é quem tem doutorado, “doutor”!

Há alguns anos eu e a produção do programa da PNTV, recém-criada, nos preparávamos para receber e entrevistar um secretário de um município da Região Metropolitana de Natal quando a secretária dele nos liga: “É para avisar que ele quer ser chamado de doutor fulano e não se secretário”. Hesitante, o produtor passou o celular para mim e eu com bom humor respondi “Doutor é quem tem doutorado, moça”. Ela retrucou: “Estou só dando o recado, tenho ordem dele para avisar isso, senão depois sobra para mim”

Claro que na entrevista eu o chamei de secretário, como é o certo jornalisticamente falando. Ainda bem que ele não tocou nesse assunto comigo ou teria ouvido a mesma resposta que dei à secretária dele. Na verdade, ainda que eu entrevistasse ou tivesse alguma forma de contato com uma pessoa que efetivamente tivesse feito um doutorado, não havia ou há porque chamá-la desta forma, trata-se de um título acadêmico. Entendo perfeitamente que em um evento universitário, científico ou uma solenidade acadêmica sejam chamados pelos seus títulos que fizeram por merecer, com anos de estudo e trabalho. Mas, fora dos muros na academia, ´aqui embaixo as coisas são diferentes`, como cantava o Biquini Cavadão em “Zé Ninguém”.

Mas também entendo que culturalmente profissionais como médicos são tratados pela alcunha de doutor, e não serei eu a mudar isso, pelo contrário. Quantas vezes recebendo um profissional da medicina instintivamente o chamo de doutor sem sequer lembrar o nome dele. Muitos usam o nome “Doutor Fulano” como alcunha política. Faz parte.

Contudo, a cultura de tratar outros profissionais, como advogados, por exemplo, como “doutor” me aborrece um pouco. Mais que cultural, me parece ser a perpetuação de um caldo elitista que não desgruda do brasileiro. Por parte de quem chama, algo cultural, sei disso. Por parte de quem deseja ardentemente ser chamado assim, uma distinção de cunho elitista já que o termo o difere dos demais “mortais”, tenha doutorado ou não.

Na verdade, esse negócio de chamar e ser chamado por títulos ou patentes faz parte do imaginário brasileiro. É bem comum homens (principalmente brancos, héteros, classe média-alta) se cumprimentarem em lugares públicos chamando os amigos de “major”, “capitão”. O termo “coronel” já ficou tão amplo que além de saudar camaradas em bar também atende a líderes políticos, fazendeiros, latifundiários.

Termos da aristocracia também fazem parte do menu de saudações. Quando falamos com um amigo mais endinheirado esse ganha imediatamente o título de “barão”. Outro título comum é “chefia”, o que já compreende uma relação trabalhador-empregado.

O assunto é vasto e remete à formação do Brasil, podemos encontrar análises sobre isso em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, mas o fato é que o “doutor” acabou virando distinção básica, o que separa homens bem sucedidos dos “outros”. Ter feito doutorado é o de menos. O que importa é como se é chamado. Não é verdade, “dotô”?

 

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