OPINIÃO

É Carnaval! Para quê Política Cultural?

Rodrigo Bico escreve às quartas-feiras na agência Saiba Mais

“Eu não vou, vão me levando, vão me empurrando, desse jeito eu tenho que ir”, cantava um artista natalense em meio a folia de momo em sua cidade. É claro que trata-se de uma das marchinhas potiguares mais importantes e mais conhecidas do nosso saudoso Dosinho, mas é preciso ir a fundo pra entender o contexto na qual ela se aplica nesse texto em questão.

Caminhamos para ter por mais um ano um dos maiores Carnavais da cidade do Natal, com altos investimentos da Prefeitura para esse período, com constantes defesas de que os 4 dias de folia movimentam fortemente a nossa economia. Não é novidade para ninguém o apego que o Prefeito Carlos Eduardo e seu Secretário de Cultura, Dácio Galvão, têm pelos eventos, mas a cada ano isso se torna mais descarado. Ambos se esforçam em ir para a imprensa dizer que todos os eventos por eles realizados não tocam em quase nada dos cofres municipais e que tudo é financiado pela iniciativa privada e pelas Leis de isenção fiscal, inclusive a Lei Djalma Maranhão.

Mas o fato é que um evento como o Carnaval compromete em quase sua totalidade o Orçamento da Secretaria de Cultura/Funcarte de todo o ano. A política de Evento sucumbe a política cultural tão sonhada por artistas e trabalhadores da Cultura de nossa cidade. Todas as vezes que a Prefeitura lança um Edital (nunca contestado) com prazo de inscrição de 10 ou 15 dias, eu tenho a impressão de ver artistas como pombos se debatendo pela única migalha de pão arremessada pelos gestores para que tais profissionais possam vislumbrar algum alimento a sua frente, tendo sorte, ele pode receber o pagamento de tais serviços com no mínimo de 6 meses de espera.

Mas longe de mim ser contra o Carnaval, afinal precisamos de seu efeito letárgico, pois ainda estamos cambaleando com os golpes sofridos na cultura em nível nacional, a verticalização da ausência de políticas culturais nas esferas federal, estadual e municipal faz com que o gestor que não tem compromisso com uma política cultural permanente possa surfar na calmaria de seus projetos pessoais, transformando a Secretaria de Cultura numa grande Agência de Eventos. Enquanto isso, eu sigo na maré dos empurrões carnavalescos, deixo que vão me levando, do jeitinho que eu tenho que ir. Posso, quem sabe, inscrever um projeto na Lei Djalma Maranhão para o Carnaval e ter a certeza de que conseguirei uma empresa para me patrocinar e tudo muito bem articulado pelos Gestores públicos.

Com um Carnaval forte, para que vou me preocupar em Gravar um CD? Montar uma peça de Teatro ou espetáculo de Dança? Para que vou preparar uma exposição e circular com ela por entre bairros o ano inteiro ou quem sabe até produzir um filme? Para que tudo isso, se em 4 dias de folia eu esqueço tudo, me jogo em meio a blocos carnavalescos enquadrados na Lei Djalma Maranhão, pois os Blocos populares continuam desamparados.

Cadê o FIC 2016? Cadê o FIC 2017? Cadê o Teatro Sandoval Wanderley? Não precisa se preocupar: É Carnaval! Se joga na Folia, deixa a reclamação de lado e segue o fluxo, substitua as doses de entorpecentes pelos “cala-bocas” habituais.

Acabaram com os editais do FIC, única política cultural continuada de financiamento direto da Prefeitura de Natal (inclusive criada por Micarla de Sousa) e enquanto isso estamos letárgicos com o Carnaval natalense. Os servidores e servidoras não sabem, há meses, o que é receber um salário em dia e enquanto isso estamos letárgicos com o carnaval natalense. O Teatro Sandoval Wanderley pode ser derrubado a qualquer momento e enquanto isso estamos letárgicos com o Carnaval natalense.

Só não podemos esquecer que a quarta-feira de cinzas é ingrata e chega tão depressa só pra contrariar.

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