OPINIÃO

É chifre !

Um dia pensei em escrever sobre “chifre”, esmiuçar, ou tentar, a cornagem, traição, adultério por intermédio de história de vida, ou desgraças vividas, melhor dizendo. Tinha essa pensamento desde que entrei no curso de jornalismo da UNP, na época editor de esportes do Diário de Natal.

Tinha convicção que encontraria personagens super interessantes para um livro-reportagem. Com o passar do tempo, não sei bem o motivo, fui mudando de ideia e acabei escrevendo sobre outro tema no meu trabalho de conclusão de curso. Deixei os chifrudos em paz e tirei boa nota com o tema “Auge e decadência dos cabarés da Ribeira”.

Certo dia, falando sobre o assunto com um amigo, advogado, ele achou muito interessante a ideia, disse que teria sido um tema de muitas histórias engraçadas e até contou algumas. Antes de explicar o motivo deste texto, vocês devem estar se perguntando, deixe eu apresentar as duas narrativas cômicas, ainda bem, que ele, entre risadas, me contou.

Um dia, começou,  ele foi chamado a um cartório. O cliente queria registrar o pedido de divórcio do irmão que andava sendo enganado pela esposa. Tudo bem. O “chifrudo” em pauta estava cheio de canjibrina, o mano quase o arrastava. Ele, tudo bem, aceitou assinar a entrada do pedido e foi marcada a data da audiência. Os dias se passaram, nada dos irmãos darem sinal de vida, mas como  estava tudo marcado meu amigo advogado não se aperreou no começo.

Passados mais alguns, cabreiro, resolveu ligar para reforçar a presença do casal. Atendeu a mãe do ‘galhudo’. Simpática, atenciosa, a velhinha , até muito bem humorada, no entanto,  aconselhou o advogado a esquecer o caso. Claro, meu amigo quis saber o motivo. A senhora mãe do “guzerá” deu uma gaitada e arrematou: “meu fio, seu adevogado, deixe isso pra lá, já é quarta vez que meu fio leva chife e aceita ela de volta…”

O outro caso, ainda mais inacreditável. Dois irmãos se casaram, as esposas não eram irmãs. Viviam em harmonia. E como eles eram unidos moravam todos na casa ampla de uma cidade do interior. Um certo dia, o mais velho acordou, foi até a cozinha, estranhou não ver sua sua esposa e nem seu irmão caçula. Perguntou por ela à cunhada. – Ela foi embora – respondeu, tranquila.

-Embora pra onde, e mais quem, criatura? – quis saber o marido surpreso.

– Foi cum seu irmão – respondeu ela ainda mais calma, depois terminou de  tomar seu café e se levantou serena para colocar o dele.

Resumo da história: passados seis meses, o casal traidor retornou de viagem. Ela com a barriga pela boca, mas nem davam jeito de incômodo ou qualquer arrependimento. Os dois felizes da vida, pareciam. O diacho é que  quando chegaram em casa, encontraram o casal “traído” com a mesma cara de sossego de sempre, e ela, para surpresa dos viajantes, também prenha de uns cinco meses. Os quatro continuaram morando juntos, trocando de quarto de vez em quando sem nunca ter uma desavença em casa. E assim criaram bem uns seis bruguelos.

Agora, volta a “bola para mim”, a razão de falar em cornagem neste texto pobre. Ia eu caminhando na Praia dos Artistas, vendo as obras caras e inacabadas da Prefeitura de Natal, imaginando como é que se gasta R$ 8 milhões para colocar umas pedras para conter o avanço do mar. Lá vem na minha direção um velho conhecido, da praia. Quis me esconder, pois sabia que vinha reclamação de vida e perguntas sobre futebol. Tá sem jeito, pensei, já me viu. Me lasquei, lá vem meia hora de conversa, me seguindo beira-mar para falar do América, do rebaixamento,  pensei contrariado.

E batata!

Começou a desfiar o rosário de queixas contra jogadores, treinador, dirigentes, que o seu América era um time que não podia estar nesta situação e tudo o mais. Sobrou críticas para todo lado e até alguns palavrões indignados. Eu, doido pra ficar só com meus pensamentos me agoniando com a aporrinhação. De repente, do nada, o cara começou a chorar, mas chorar mesmo, soluçando e tudo.

-Hôme, o que é que você tem? – perguntei. Puxa vida, nunca imaginei que o futebol fizesse alguém sofrer e chorar tanto.

-É o América? O time melhora, é só uma fase ruim – tentei consolara o sujeito. Aí foi que o berreiro aumentou.

-É não. Foi aquela rapariga…

E contou sua mágoa entre soluços sentidos. Me disse o coitado que juntou dinheiro, muitos meses, para comprar, adquirir seu quiosque na praia e fazer seu meio de vida, pois disse que era muito jeitoso para comércio e sabia cozinhar bem, e sua esposa também. Só que, essa “esposa” vivia brigando com ele, reclamando da canjibrina que ele tomava.

No sábado, a gente tava numa segunda-feira, ele disse que chegou para dormir no seu retiro, no seu colchão e encontrou suas coisas todas jogadas fora, até sua bandeira do América toda rasgada. Lá dentro, sua “esposa”, aos beijos e abraços com um sujeito que ela não conhecia, parou os amassos e na maior cara de pau esculhambou com ele e disse que lá, no quiosque, ele não colocava mais os pés.

Foi acabar de contar e caiu de novo num choro lamentoso e me abraçando. Foi assim. Rapaz, quase que eu chorava junto com ele. Esse negócio de chifre não é brincadeira não.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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