OPINIÃO

É os pingo da chuva me molhar

Quando criança, eu tinha muito medo da chuva. Lembro de me esconder sob as cobertas e rezar pra que ela passasse logo. E se dormia, logo vinham os pesadelos. Sonhava com a casa desabando, o vento derrubando as paredes, levando as árvores. Um horror.

Eu torcia para que o período chuvoso acabasse logo. Olha só que heresia. Torcer pra não chover na região Seridó do Rio Grande do Norte. Espero que já tenha sido perdoada. E quem é de Caicó sabe o quão sagrado é cada gota de chuva.

Eu cresci. Nem tanto, é verdade. A casa não desabou. As árvores ainda estão lá. Não vou a Caicó o quanto deveria, mas isso não quer dizer que não sinta falta. Quem é do interior tem um calorzinho diferente no coração. É inho, porque, para nós, o diminutivo é um carinho a mais. Uma emoção a mais. Como quem diz: Vai agora não, dorme aí.

A gente do interior se reconhece. E quando se reconhece, faz festa. Chama atenção, porque é feliz. E é feliz com o simples. Com o filho que chegou mais cedo da escola, com o mercadinho novo que é mais barato. E com a chuva. Sempre permeando a minha vida. Agora não mais de pavor. Mas de alívio, por saber que todos os medos, por mais bobos que sejam, um dia vão embora.

Nem lembro como me livrei desse medo. Mas passou. E agora numa manhã chuvosa de uma semana cheia, enquanto tomo abrigo na parada de ônibus, o único receio que tenho é de me atrasar para a reunião.

 

Leia outras crônicas da jornalista Ana Clara Dantas aqui

Artigo anteriorPróximo artigo
Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *