OPINIÃO

É possível sentir orgulho de ser LGBT?

Em outras datas do ano ou, melhor, em cada dia do nosso cotidiano, sempre é tempo de denunciar a LGBTfobia e lutar contra as demais opressões e o processo de exploração que submetem nossos corpos e força de trabalho. No mês de junho e, em especial, no dia 28 de junho, é um pouco diferente: a expectativa é que reafirmemos o orgulho de ser LGBT. Mas, diante de tantas dores, é possível enxergar as cores e sentir orgulho de ser LGBT?

Orgulho é um sentimento de satisfação pela capacidade de realização que se sente por si ou por outras pessoas. Pode ser desdobrado como algo positivo, uma espécie senso de justiça e reconhecimento pelo que conquistamos. Mas também pode ser avaliado como algo negativo, listado pela moral cristã como um dos sete pecados capitais, como algo desproporcional que se confunde com vaidade, ostentação e egocentrismo. É claro que estamos falando do primeiro sentido do orgulho quando falamos de orgulho LGBT.

Sentir e expressar orgulho de si ou de alguém por uma realização quando se tem uma vida de oportunidades, direitos garantidos e privilégios é fácil e, apesar de poder ser legítimo, não dificilmente, pode se configurar como autopromoção e ofensa para quem não teve as mesmas oportunidades. Sentir orgulho de realizações de si ou de alguém depois de uma vida de exclusão, opressão sobre nossos desejos, sexualidade, afetividade, corpos e identidades, violação de direitos e violência é totalmente diferente. Para nós LGBT, as vitórias alcançadas são como conquistas arrancadas à força depois em uma estrada chamada vida, cheia de pedras, espinhos, correntes, mordaças e abismos.

Por isso, Junho não é só tempo de festejar o São João.

Para mim, é tempo de sentir orgulho das dezenas de trabalhadoras, trabalhadores e jovens com quem construo o movimento LGBT, principalmente o Coletivo LGBT+ Leilane Assunção e as tantas lutas que temos travado.

É tempo de sentir orgulho por carregarmos nesse Coletivo o nome e a história da professora e lutadora Leilane Assunção, pela forma como ela se dedicava à educação, por ter encarado de frente não apenas as lutas do movimento LGBT, mas também as lutas anticapitalista e antiproibicionista e, ao mesmo tempo, por sua formação e sobrevivência.

É tempo de sentir orgulho de si! Sem dúvidas, por ser um homem branco e cisgênero, enfrentei muito menos dificuldades para chegar até aqui do que companheiros LGBT negros e talvez menos ainda do que companheiras LGBT, principalmente negras e trans. Isso não quer dizer que o caminho tenha sido fácil até as conquistas que alcancei, que hoje me fazem sentir e partilhar o orgulho que sinto. Não foi “presente” ter tido êxito nos meus estudos e ter chegado ao nível de pós-graduação. Não foi presente ter me tornado professor, técnico e servidor público, ter onde morar, como ir e vir, o que comer e um amor com quem divido a vida e as lutas há quase 8 anos. Sem dúvidas, foram mais oportunidades do que a maioria do extrato LGBT da classe trabalhadora. Mas tudo isso veio, apesar de eu ser cria da Ribeira, da Ocidental de Cima, no Alecrim, do Serrambi II e da zona rural de Parnamirim; apesar de eu também ter sido vitimizado, ao longo da vida, por meio de violências verbais ou físicas por ser “diferente”, na escola ou mesmo em casa, quando eu nem sabia o que significava essa “diferença”. Sem dúvidas, muita luta, estudos e oportunidades de trabalho informal e formal desde cedo transformaram esses pesares em “apesares”. Sem dúvidas, é possível hoje sentir orgulho porque sou uma das exceções que, de vez em quando, este sistema “deixa” passar, principalmente para os homens, brancos e cis, mesmo que oprimidos por suas “diferenças” e explorados como trabalhadores.

No entanto, inspirado nas palavras de Marielle Franco, só “sou porque nós somos”. Por isso, não é tempo de falar só ou principalmente de mim. É tempo de sentir orgulho das minhas e dos meus, daquelas e daqueles LGBT que estão comigo e dos que já passaram e tornaram possíveis muitas dessas conquistas.

É tempo de sentir orgulho de Marielle, por exemplo, que, primeiramente, se identificou como bissexual e, depois, como lésbica. Um mulherão que, mesmo oprimida por amar outras mulheres, mas também por ser mulher, negra, periférica e socialista, a certa altura de sua vida, percebeu que o silêncio e a omissão não eram opções. Percebeu que a vida só faria sentido se ela fizesse ecoar aquela voz que nos arrepiava e nos colocava para frente. A vida só faria sentido se ela enfrentasse tudo, por todas e todos, com todas e todos. E, mesmo que Marielle não esteja mais entre nós em carne e osso, ela está e estará por muito tempo, viva por meio do orgulho que sentimos, por seus ideais e, principalmente, por ter se tornado semente de inspiração para as lutas!

Além de Marielle, é tempo de sentir orgulho de um tanto de pessoas LGBT, que, mesmo oprimidos física, psicológica e socialmente e, claro, explorados economicamente como trabalhadoras e trabalhadores, atravessaram a estrada da vida e alcançaram tantas vitórias. Por isso, mesmo sendo injusto deixar um tanto de gente de fora, registro, em nome de muitas e muitos, que é tempo de sentir orgulho das trabalhadoras e dos trabalhadores LGBT que resistiram à prisão LGBTfóbica em junho de 1969, nos Estados Unidos, no processo que ficou conhecido como Revolta de Stonewall e deu origem ao 28 de junho como Dia Internacional do Orgulho LGBT. É tempo de sentir orgulho do sociólogo, jornalista e escritor Herbert Daniel, um gay e revolucionário brasileiro que lutou contra a ditadura civil-militar e pelos direitos e liberdades sexuais e de gênero, exilado para não ser preso e torturado e, infelizmente, morto por complicações da AIDS. É tempo de sentir orgulho de Frida Kahlo, feminista, latina, revolucionária e bissexual, uma das maiores artistas de nossos tempos. É tempo de sentir orgulho do grupo “Lesbians and Gays Support the Miners”, que apoiou centralmente a greve dos mineiros inglesas contra o governo de Margaret Thatcher e integrou a luta do movimento LGBT com as lutas sindicais, escancarando que, mesmo muito diferentes dentro da classe trabalhadora, temos demandas semelhantes. É tempo de sentir orgulho do gênio Leonardo da Vinci, artista, cientista, matemático, arquiteto, inventor, botânico e um tanto mais de coisas, além de LGBT. É tempo de sentir orgulho do advogado e jornalista Glenn Greenwald, premiado com o maior prêmio do jornalismo mundial, o Pulitzer, e, mesmo responsável por um portal jornalístico respeitado, o Intercept, e pela #VazaJato, tem sua orientação sexual, privacidade e família como alvos de ataques LGBTfóbicos.

É claro que esses exemplos e motivos de orgulho não podem servir para nos confundir como se todas as pessoas LGBT pudessem, neste sistema, ter, naturalmente, êxito ou plenitude em suas vidas, como se vitórias excepcionais pudessem, por suposta meritocracia, virar regra geral da noite por dia no capitalismo, sem que precisássemos romper com suas estruturas. Nesse sentido, não podemos nos esquecer do que dizia Leilane Assunção falando das pessoas trans – e aqui estendo para as demais pessoas LGBT: “(…) lutar se torna um imperativo ético. Ou a gente luta ou a gente morre. E mesmo quando a gente luta, às vezes, a gente morre.”

Por isso, nesse caminho, esses exemplos nos ensinam, de fato, que não podemos deixar de lutar, sentir e celebrar o orgulho pelo que já conquistamos e pelo que já conquistaram na história, mesmo que alguns digam que é errado por ainda termos por muito por lutar e conquistar.

Se ainda falta muito, para que mesmo serve sentir e celebrar esse orgulho? O orgulho precisa vir mesmo que as vitórias ainda não tenham vindo como, quanto e quando gostaríamos, porque o caminho não pode ser só de medo, tristeza e revolta, caso contrário seria desmotivador e sem perspectivas. Precisamos sentir orgulho porque o caminho da luta LGBT precisa ser trilhado também com sonhos, planos, força, esperança para que as lutas façam sentido!

Nesses termos, não é só possível sentir orgulho de ser LGBT; é preciso! As lutas e as conquistas de cada LGBT não servem apenas para orgulhar a si e aos que rodeiam essa pessoa. Servem para orgulhar e inspirar outras tantas pessoas, LGBT e não LGBT. Servem como combustível que engaja outras pessoas para as lutas que precisam ir além dos nossos próprios corpos e existências, alcançando outros tantos corações, mentes, direitos e, finalmente, um novo mundo que precisamos construir com o máximo de mãos para ampliar nossas chances de vitória! Servem para traçarmos como horizonte um mundo, como vislumbrava Rosa Luxemburgo, “onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *