OPINIÃO

E @s alternativ@s ?

Estava eu outro dia na minha insignificância, meio de saco cheio de tudo e de todos, principalmente de mim, num desses momentos de rebordosa pandêmica, quando o carteiro chegou e meu nome gritou com uma carta na mão… Mentira. Ninguém clamou por mim, ninguém me chamou nem sonhou comigo, eu apenas dei por decidido parar certa feita e conferir uma missiva (depois de vários dias) jogada ali à tôa na mesa do hall do condomínio.

Era pra mim.

Tratava-se de uma correspondência vinda lá de longe, mais (im)precisamente de Curitiba, Paraná, extremo oposto de onde sou/estou aqui-agora. Rasguei com pressa o envelope, sem me recordar ao certo do nome que assinava o remetente. Podia ser Cássio, Francisco ou Mancha…

O que é uma assinatura? – eu me perguntava, na ansiedade daquele instante. Será credor? Será criatura? Será coisa coisada dessas que a gente cria, descria, encontra e desencontra, come e cospe por aí sem se dar conta? O nome do remetente não me contava o fenômeno que, numa pandemia, decorreu disso: o Correio funcionar e fazer chegar até mim aquilo…

Um jornal alternativo.

Eu me deparei então com O RelevO.

Todas as classificações são perigosas, sabemos, mas elas nos ajudam a organizar o pensamento, quando não nós mesmos. Uma forma de lidar com o caos do mundo… O RelevO é isso que se pode talvez classificar, em certas instâncias, como manifestação de uma imprensa alternativa. Seu caráter “periférico” já se mostra em seu editorial, em que se descreve como “jornal de papel em tempos epidêmicos”.

Que alento foi para mim ler aquilo… Foi quase um abraço. Não só porque, junto com o humor, a imprensa alternativa constitui tema de pesquisa que a mim interessa deveras, mas também, e sobretudo, porque é bom saber que, de algum modo e em algum tempo e lugar, a arte e a literatura resistem.

Alguém poderá dizer que as inúmeras lives no Instagram ou em canais de Youtube consistem também em formas de resistir artística e literariamente. Alguém poderá dizer que esse meu lugar cômodo de fala (“professorinha assalariada classe média intelequitual metida a articulista de site de oposição”) não alcança o que há, de fato e efetivamente, por aí no mundo mundo vasto mundo. Eu leio O RelevO e penso nisso tudo e num pouco mais. Que privilégio ler um exemplar de imprensa alternativa. Essa materializada no jornal que circula às margens e que não está lá, nem em academias literárias ou salas de aula, nem nessas enunciações tais como filas de gente almoçando em pé, lanhouses de gente imprimindo currículo, aplicativos de assistência de emergência que não sabem funcionar para gente que precisa.

Penso, lendo O RelevO, que é tudo mesmo impreciso…

E é pensando em imprecisão que penso em Romildo Soares, descuidadamente. Por que me veio à mente a lembrança de Romildinho? Sabe Deus e Exu desconfia… Onde andará Romildo? Onde se dividirá o sujeito artista, poeta e compositor do sujeito não-aclamado, julgado e moralizado sumariamente, não-acolhido pelo Estado e pelas multidões?

É com esse maldito que também esbarro casualmente, perdida naquelas questões típicas: Onde a democracia? A divisão da riqueza? O fim da corrupção?

A coincidência acontece e é relevante nestes tempos difíceis de distância e desilusão. Encontro sua pessoa magra e gorda de verve com sua mais recente safra, manuscrita em páginas de caderno, renovação do poema-piada, essa coisa poética romildiana escrachada-liberta de juízo de valor e intitulada: livro de rhumor em tempos de horror.

Damo-nos as costas, seguimos cada qual em seu devir, ele e eu, eu e ele. No assento módico do Uber que me conduz a lugar nenhum, leio (com O RelevO na bolsa), o poemeto em que se mete nosso bardo, mais um desses esquecidos que a imprecisão chama “alternativos”.

 

PANDEMIA

Em uma guerra
Bacteriológica
Eu me vírus.

 

 

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