OPINIÃO

É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem 

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Tradicionalmente escrevo sobre política neste espaço, até porque ela se faz tão presente e nebulosa nestes tempos que se seguem. Mas, hoje o assunto é outro, e não é música, como o título dá a entender, mas, comportamento.

Quem acompanha meus escritos nas redes sociais, canais onde gosto de dar minha opinião formada sobre tudo (olha aí mais uma citação musical) lembre que volta e meia eu espezinho o modelo homem-branco-hétero-classe média/alta-entre 40 e 50. Geralmente é nessa faixa que se concentram focos de homofobia, sexismo, racismo, machismo e preconceitos em geral.

Sei que a Sociologia e a História devem explicar isso; trata-se de homens que foram criados em ambiente patriarcal machista, que viam em sua maioria as mães como donas de casa recatadas e tinham as empregadinhas como possível iniciação sexual dos filhos do patriarca, entre coisas do gênero.

Mas, como não sou sociólogo nem historiador, não pretendo me deter na parte acadêmica desse comportamento. E, sim, na parte prática. Esse perfil de homem acaba sendo chato e mais de uma vez confessei que cada vez menos tenho tolerância com ele, ainda que amigos queridos, conhecidos de longa data ou colegas de profissão e interesses comuns. Amigos, amigos, chatice à parte.

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Até porque não obstante a citada postura de homofobia, sexismo, racismo, machismo e preconceitos, há um componente a mais que me aborrece, componente este ligado a tudo isso citado, inclusive: a nostalgia.

O macho branco cinquentão atualmente tem uma eterna nostalgia, afinal, para ele “antes era que era bom”. Tudo. Músicas, livros, filmes, lugares, mulheres etc etc etc.

Estou com um amigo nessa faixa e no som, uma música atual e lá vem o discurso pronto: “Ah, na nossa época é que tinha música de verdade, Queen, Scorpions, Legião, Capital, lembra?”. Aí eu falo de tal filme que vai estrear e ele: “Nada, antigamente é que tinha filmes de verdade, hoje é só efeitos espaciais e vulgaridade”.

Com outro amigo, a garçonete simpática traz a cerveja e ele: “Hoje em dia essas meninas todas tatuadas e com brincos na cara toda. Antigamente é que as mulheres eram elegantes, pareciam sérias”.

Esporte? Antes é que o futebol era bom, hoje “é só correria”; Fórmula 1? “Ah, antes tinha Senna, Prost e Piquet, ali era corrida de verdade”.

Enfim, o macho cinquentão hétero, excetuando na parte tecnológica (afinal, redes sociais e Zap são bons para dizer que o antigamente era melhor, não é mesmo?) parou no tempo.

Penso o contrário. Lembro com certo desgosto dos preconceitos e cretinices de “antigamente”, um mundo dividido entre “Clube do Bolinha” e “Clube da Luluzinha”, com muita coisa escondida debaixo do tapete e hipocrisia.

Hoje vejo a moçada jovem mais tranquila. com relações interpessoais mais sadias. Música boa ou ruim depende do gosto e toda época tem seus prós e contras. Filmes bons continuam sendo feitos, inclusive o cinema brasileiro deu um salto de qualidade em relação aos anos 80. Futebol? Assista um vídeo da famigerada Copa de 1990 e depois a jogos de Messi e Cristiano Ronaldo para tirar suas próprias conclusões.

Acho estranho essa nostalgia dos marmanjos que mesmo elogiando Belchior, parecem não se lembrar do que ele cantou em “Como nossos pais”: “É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.

E no primeiro parágrafo eu falei que o texto não era sobre política, mas não teve jeito. Vamos politizar o tema na reta final. Essa neura com o “antes era melhor” acabou cristalizando tanto entre os homens da minha geração (40/50 anos) que esse acabou sendo o perfil clássico do eleitor de Bolsonaro, e que ajudou a elevar seu patamar de 15% nas pesquisas para a vitória em 2018: O tiozão ressentido, machista, que acha que lugar de mulher é na cozinha e que mulher tem que ganhar menos que o homem mesmo exercendo o mesmo trabalho, que faz piada com população LGBT e com negros e que prega a família tradicional tendo a amante fixa e saindo atrás de garotas de programa ou travestis.

Bem, como disse a música, o novo sempre vem. Esperemos. Embora Geraldo Vandré tenha cantado que “esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Talvez seja o momento de fazer acontecer;

 

 

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