OPINIÃO

Eclesiastes 3:4 para tempos de pandemia: Tempo de chorar, e tempo de rir

Não sou muito dado às coisas do invisível e da religiosidade (na verdade um eufemismo poético para não dizer que sou ateu) mas, da mesma maneira que já espezinhei muitos trechos picantes ou sem noção da Bíblia, livro sagrado dos cristãos (eu disse dos cristãos, viu?) também aprecio ou mesmo me emociono com alguns livros dela. Como o Eclesiastes, por exemplo.

O trecho mais conhecido e talvez poético do Eclesiastes faz referência ao tempo, sempre ele. Que há um tempo para rir, e um tempo para chorar; Tempo para dançar, tempo para prantear.

Lembrei deste trecho ao perceber uma das polêmicas mais vazias e sem sentido destes tempos de pandemia e isolamento onde, na verdade, muita coisa parece não fazer sentido. Trata-se da fiscalização mútua entre quem está sofrendo com isso tudo e quem está tentando justamente não sofrer ou sofrer menos.

Explico: Uma parte das pessoas percebe a gravidade da situação mundial e em especial do Brasil, onde, sem governo, sem ministério da Saúde e sob um anestesiamento coletivo da população, ultrapassamos os 100 mil mortos por Covid-19 e uma curva de óbitos que não baixa. Motivos, sim, para entristecer a todos nós, para deixar a pessoa deprimida, desanimada.

Mas, outra parte das pessoas, sabendo dos dados elencados acima ou não, diante da situação coletivamente difícil, optou por manter a sanidade mental ou não se deixar abater e fez do período, da maneira que pode, um tempo de descanso, foco em projetos estritamente pessoais e até de uma certa e paradoxal leveza, refletidas nas postagens das redes sociais e da própria postura prática.

Não quer dizer que em imensa maioria sejam indiferente às mortes e às famílias com pessoas internadas. Significa que elas, da forma delas próprias, tiveram que se reinventar para não enlouquecer, para continuar justamente inteiras emocionalmente para seguir em frente. Esse posicionamento – leveza, música, alegria –  pode ser facilmente confundido com leviandade. Muitas vezes não o é.

Da mesma maneira que quem fica mal, como se estivesse carregando sobre os ombros o peso do mundo e do vírus, também não fica assim porque deseja. Ninguém acorda pensando “Hoje vou tirar o dia para sofrer”. A leitura das notícias do dia, os números, os dados, afetam a muita gente, emocional e fisicamente, principalmente pessoas que têm uma sensibilidade mais à flor da pele.

Então, não existe um “comportamento padrão” para o isolamento. Não vejo porque as pessoas têm de policiar umas às outras do referente ao comportamento. Voltemos ao Eclesiastes: Há um tempo para rir e um tempo para chorar. E esse tempo é feito por cada um de nós, esse tempo pode estar dentro de um dia. Podemos acordar chorando e terminar rindo, por uma e outra razão, ou vice-versa.

O tempo é de compreensão. Não está fácil para ninguém, por razões diversas. Se há um tempo para tudo, também há que se respeitar o tempo do outro, ainda que este tempo seja de prantear quando você quer rir, ou  tempo de ver o outro se divertir quando é você quem está no fundo do poço.

Uma observação: falo de posturas pessoais no respeito ao isolamento e aos protocolos de segurança em saídas. Não ponho nesta conta negacionistas e pessoas que querer desafiar os decretos e andar sem máscaras e fazer aglomerações. Essas, Freud explica e as autoridades deveriam fiscalizar. Simples assim.

E termino esse texto com outro trecho do Eclesiastes, este 3:16  “Vi mais debaixo do sol, que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniqüidade”.

Certamente falando de um país chamado Brasil. Infelizmente.

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