ENTREVISTA

Editora Cortez, um QG contra a Escola sem Partido

Se for preciso, estará fincado no coração do bairro das Perdizes, em São Paulo, um QG contra o movimento Escola sem Partido.

O comandante do quartel é um nordestino típico, acostumado a dificuldades e que veio, viu e venceu na cidade grande há mais de 50 anos. No lugar das baionetas, as palavras, os autores e os livros, milhares deles, sobretudo de Ciências Sociais e Educação.

Aos 82 anos, vividos entre períodos de liberdade e no rigor da ditadura, o editor e livreiro José Xavier Cortez já reuniu experiência suficiente para saber o que de fato importa e o que é mera cortina de fumaça no debate da Educação.

Por isso, cava trincheira contra o movimento que busca regular o comportamento dos professores em sala de aula.

“Isso é um absurdo”, diz, subindo um pouco o tom pausado e ameno que marcou a maior parte de sua conversa com a agência Saiba Mais, em seu escritório na Zona Oeste da capital paulista.

“Educar é um ato político, ensinar é um ato político e é evidente que os professores têm de tratar de política em sala de aula”, analisa ele.

Cortez diz que jamais trairia os autores que publicou ao longo de quase cinco décadas. Ele está falando de gente como Paulo Freire e Florestan Fernandes, educadores respeitados, entre tantos outros com quem lidava pessoalmente.

“Nesta luta, e em nenhuma outra, jamais trairia meus autores”, assinala, para logo em seguida reforçar: “sou cúmplice deles”.

Diz isso porque boa parte do cast de autores de sua Editora Cortez pregava – e prega – o engajamento político. Eles ajudaram a criar e consolidar o conceito de empresa responsável por obras voltadas ao debate da Educação e, mais do que isso, à defesa do papel social e transformador do ensino.

Não por outra razão o lema da editora resume o pensamento do dono: “comprometida com a educação”.

Uma das raras manifestações políticas de José Cortez, ele é um crítico do projeto Escola sem Partido (foto: Carlos Magno Araújo)

Pode-se dizer que a posição sobre o movimento escola sem partido é uma manifestação rara, porém relevante, de Cortez sobre política. É que pisar no calo incomoda.

O tema em si – política – parece não atrair o editor, principalmente quando resumida à minúcia eleitoral, menos porque não considere importante e mais por acreditar que a resistência tem de ser feita na prática, no dia a dia.

E, também, no caso específico, por acreditar que não pode ser omisso quando causas que defendeu ao longo de toda a vida são postas em questão. É o que percebe no momento.

Política, na essência, editor e editora sempre fizeram, sobretudo ao publicar obras que questionam, por exemplo, o neoliberalismo e outros temas comuns à agenda da esquerda.

Sobre a mesa de trabalho dele, por exemplo, tem destaque agora “Democracia e Direitos Humanos: colapsos, rupturas e resistências”, do festejado professor Boaventura de Sousa Santos, que a Editora Cortez acaba de lançar e de quem já publicou outras quinze obras. Junto dele, “Sexo, Orientação Sexual e ‘Ideologia de Gênero’”, de Frei Betto.

A ideologia de gênero é outro tema que interessa ao livreiro e sobre a qual firma posição: “Nos tempos de hoje, em que os estudantes se informam de inúmeras maneiras,  tentar evitar que o tema educação sexual seja tratado em sala de aula, em todas as suas nuances, é outro absurdo”. O editor pensa que é exatamente na escola que o tema da sexualidade tem de ser discutido.

Sobre o presidente eleito Jair Bolsonaro, em quem não votou, prefere esperar o exercício do mandato, embora as preliminares – vide o apoio ao Escola sem Partido e a polêmica em torno da “ideologia de gênero” – não lhe pareçam animadoras.

Sobre o futuro ministro da Educação, o filósofo colombiano Ricardo Velez Rodríguez, diz desconhecer, tanto o personagem quanto a obra, mas pelo que tem visto, lido e ouvido prefere resumir sua expectativa numa frase que exala desânimo: “creio que jamais publicaria um livro dele”.

A respeito do trabalho da editora, que tem uma linha que Cortez chama de progressista, diz respeitar seu conselho editorial – “é rigoroso” – e que, por isso, dificilmente são aprovadas propostas de edição que não possuam conteúdos de qualidade e rigor técnico, ou seja, embasados em boas pesquisas, fundamentos teóricos e conhecimento.

Crise do setor não é de leitura

Cortez não esconde a tristeza quando fala da situação atual das editoras. Até por volta de 2014 a sua costumava publicar 100 livros por ano. Hoje, menos de 30. E com dificuldade. A crise, claro, reflete na estrutura.

Dos cerca de 70 funcionários que mantinha, restam 30. “É muito triste ver isso porque a gente sabe do profissionalismo e da capacidade técnica dessas pessoas”.

Cortez conta que há pouco tempo suspendeu uma reforma na sua casa para investir na editora. A própria estrutura interna da Editora Cortez passa por mudanças.

A administração da empresa está sendo transferida para as filhas, Mara Regina e Miriam, enquanto o fundador ficar na presidência.

Alvo da crise econômica, Cortez chegou a publicar 100 livros por ano, hoje apenas 30. (foto: Carlos Magno Araújo)

Cortez vai religiosamente ao trabalho. Todo dia, manhã e tarde. Diz que é para orientar as filhas.

Além das duas que trabalham com ele, uma advogada e a outra, administradora, há uma terceira, que é veterinária. Tem dois netos, de 4 e 5 anos.

A rotina inclui ainda palestras em escolas, dentro do projeto “Rodas de Conversa”, em que conta sua trajetória, de lavrador, lavador de carros e livreiro.

Desde 2016 a Cortez deixou de ser livraria para se fixar como editora. A sede no bairro Perdizes virou um show-room, um mostruário de boa parte dos 1.300 títulos que já publicou e dos novos que vão sendo publicados. A venda para escolas e universidades, enxerga ele, é uma boa alternativa empresarial.

Por paradoxal que pareça, Cortez diz que a crise no setor não tem a ver com falta de leitura ou com a concorrência com plataformas digitais. “Não acredito que o jovem que cada vez mais usa o celular é menos leitor”. Para ele, nunca se leu tanto no país.

O editor acredita em fases. “Quando o jovem tem de ler, é estimulado a ler, ele vira um leitor e procura os livros”. Daí, reforça, a importância da escola em trabalhar esses potenciais leitores.

A crise no segmento, segundo entende ele, é mais um problema de gestão – no caso, má gestão – do que de desestímulo à leitura.

Sem desconsiderar fatores como o alto custo de edição, como o preço do papel, Cortez crê que gigantes como Saraiva e Cultura, que fecharam livrarias e anunciaram recuperação judicial, pecaram na condução do negócio. E arrastaram com elas inúmeras pequenas e médias editoras, já que deixaram de repassar os valores a elas devidos pelos livros comercializados.

E como tudo isso é feito no modelo de consignação, ou seja, as livrarias só pagam os livros que vendem, as editoras acabam sofrendo as consequências. Ficam sem os livros e sem a parte da venda de suas obras. A quebradeira das livrarias representa um impacto em torno de 40% da receita das editoras, estima Cortez.

Pesquisa feito pelo Saiba Mais identificou que a dívida das grandes redes de livrarias com as editoras supera os R$ 200 milhões.

Editoras têm dívida de gratidão com Fátima

Projeto da senadora Fátima Bezerra que instituiu a Política Nacional da Leitura e do Livro é elogiada por Cortez (Foto: Carlos Magno Araújo)

A situação das editoras só não está pior, segundo Xavier Cortez, por causa da sanção, em julho, da lei 13.696/18, que criou a Política Nacional de Leitura e Escrita.

O projeto, da autoria da senadora potiguar Fátima Bezerra (PT) institui uma política permanente de promoção e de universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas, em todo o país.

Na prática, entende Cortez, estimula o trabalho e o negócio das editoras. Durante a discussão da lei, ele e diretores de várias outras editoras foram a Brasília apoiar o projeto de Fátima. “Todos os donos de editoras do Brasil têm essa dívida de gratidão pelo trabalho de Fátima Bezerra em aprovar essa lei”.

Como conterrâneo, diz, nunca deixou de acompanhar o trabalho da senadora. Mesmo agora quando ela concorreu, e venceu, a disputa para o governo. “Fiquei muito feliz e acho sinceramente que ela fará uma grande administração, ainda que seja de oposição ao governo federal”.

Para o setor, continua Cortez, ver alguém envolvida com a educação numa função importante, é ainda mais alentador. “Estarei acompanhando e torcendo para que Fátima faça uma ótima gestão”.

Nascido num sítio em Currais Novos em 1936, de origem humilde, Cortez entrou na Marinha aos 19 anos, em Pernambuco, onde fez a escola de aprendiz de marinheiros.

Foi expulso em 1964 ao participar de um movimento considerado subversivo já quando servia no Rio de Janeiro. “Na verdade, o que queríamos era mais respeito, já que os marinheiros eram tratados com muito desprezo pelos superiores”.

Foi então para São Paulo, onde virou lavador de carros. Conseguiu entrar na faculdade de Economia da PUC em 1966 e a partir de então a vender livros para se manter e bancar os estudos. Seus clientes, intelectuais de vanguarda.

Daí foi um pulo para tornar-se livreiro e depois editor. Hoje é nome de escola na zona sul de São Paulo, no bairro do Grajaú, e tem, entre vários títulos, o de cidadania paulista.

Faz questão de dizer que jamais esqueceu os conselhos dos pais, no sertão potiguar, de ser honesto, responsável e manter a palavra. Costuma dizer que o amor pela leitura e pelos livros mudou sua vida. “Foi a leitura que me levou a ser o que sou hoje”.

Sem ela, diz, jamais seria editor, jamais entraria na PUC. “O balanço que faço é que, acho, deixarei um legado bacana para o país, para minha família e para quem esteve perto de mim”.

 

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