ENTREVISTA

Edson Pavoni: “A função do Inumeráveis é não deixar nenhuma dessas histórias virar número”

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Quanto mais números da Covid-19 a imprensa multiplica, mais histórias de vidas são sepultadas sem direito a despedidas no ritual do luto. Os números de hoje já não são os mesmos de amanhã e também não serão iguais aos de depois de amanhã e assim sucessivamente. Cada número guarda uma memória. Por trás de cada vítima do novo coronavírus existe uma história que prova como todos somos inumeráveis.

A entrevista de hoje é sobre memórias e histórias em tempos de Covid-19. A Agência Saiba Mais conversou com o artista Edson Pavoni, que criou com um grupo de voluntários o projeto Inumeráveis, um memorial virtual dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil. O projeto é colaborativo, ou seja, qualquer pessoa pode participar. Para isso, basta gostar de escrever ou contar histórias. O site do projeto https://inumeraveis.com.br/ explica como participar. A ideia é transformar números em histórias.

Aos domingos, algumas dessas histórias registradas no Inumeráveis são lidas e interpretadas por artistas durante o programa Fantástico, da Rede Globo. A parceria deu uma projeção ainda maior ao memorial.

Você também pode ouvir a entrevista no Saiba Mais Podcast aqui

Confira: 

Saiba Mais: Você podia começar se apresentando para a gente, contando o que te levou a criar o Inumeráveis?

Eu sou artista e idealizador do projeto Inumeráveis, um memorial para contar a história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil. Sou de São Paulo, nasci na periferia dessa cidade grande e cinza, e moro aqui até hoje. Como artista, o meu principal tema de estudo e pesquisa é conexão. Porque as pessoas se conectam, porque as pessoas se desconectam de uma determinada pessoa ou de um assunto. E hoje, por causa da pandemia, todos os dias a gente acorda com um número novo. Depois de um tempo, esse número vai perdendo o significado e a gente vai se desconectando do que ele realmente representa. E o que ele representa são vidas individuais, únicas, que estão sendo perdidas.

E é uma ideia tua? Você foi chamando mais gente? Como se deu esse processo?

Inumeráveis nasceu numa ligação telefônica com o grande amigo Rogério Oliveira, um empreendedor social e uma pessoa muito sensível, que está muito conectada com os movimentos da sociedade. Essa angústia minha e dele, de olhar para esses números e sentir que eu vi eles todos os dias e sentir que estavam perdendo o significado, que a gente estava olhando para eles quase como se fosse um relógio, um relógio para quando a curva vai abaixar, quando é que eu vou poder sair de casa, quando na verdade não é sobre isso.

Então, a iniciativa nasceu nessa conversa, onde a gente teve a ideia de criar um memorial. Um espaço onde colaborativamente a gente pudesse contar as histórias de todas as pessoas que tinham falecido ou que vierem a falecer vítimas do coronavírus no Brasil.

Você chegou a comentar nas redes sociais que o Inumeráveis tem uma ligação com a tua busca pessoal pela história de vida do seu pai, que você não chegou a conhecer. Fala um pouco dessa relação e qual a influência dessa busca no projeto.

Tem essa história… essas coisas que a gente cria na nossa vida. A gente não sabe exatamente porquê, depois o tempo vai passando e a gente vai entendendo porquê, vai ligando os pontos. Não dá para conectar os pontos antes, a gente conecta sempre depois.

Um ponto que eu conectei com esse projeto foi o fato de que meu pai faleceu quando eu era muito novo, tinha só três anos, e nunca soube muito bem a história dele. Sei bem pouca coisa, assim de um ou outro familiar, tem um mistério envolvendo a vida dele. Eu já fiz algumas viagens de moto pelo interior procurando pessoas, familiares, procurando a história e encontrei alguma coisa, mas não muita coisa. A história dele permanece um mistério como tanta coisa e, de alguma maneira, criar esse memorial, onde nenhuma história se perde, é um presente talvez que eu queira dar para a sociedade. Talvez seja um presente que eu queira dar para mim mesmo.

E o que mais te impressionou ou surpreendeu desde que o país mergulhou na pandemia? Tem alguma história destes dias que te marcou, você correndo atrás de outras histórias?

A gente teve a ideia de criar um memorial. Ele ainda não tinha nome, não tinha corpo, nem uma imagem. Antes de qualquer coisa, a gente foi entender se o processo que a gente estava imaginando, que era esse processo de ir atrás de histórias, de entrevistar familiares, de escrever essas histórias, era um processo saudável, se era um processo saudável para a sociedade. E, então, eu, junto com Alana Rizzo, uma pessoa que entrou muito rápido nesse projeto como voluntária, uma jornalista excelente, a gente entrevistou, foi atrás de redes sociais, encontrar alguém que conhece alguém. Até que a gente  encontrou uma pessoa que topou conversar com a gente e ele tinha perdido o sogro e a sogra. Ele era realmente muito conectado com essas duas pessoas. Então a gente fez uma entrevista e foi bem importante de entender que no final da entrevista essa pessoa que a gente estava entrevistando ela estava melhor do que no começo da entrevista. 

A tristeza ainda estava lá, o luto ainda estava lá, mas uma celebração, uma energia de celebração da vida apareceu assim e foi crescendo durante a entrevista. Tem uma mágica mesmo em passar alguns minutos contando para alguém que você não conhece o quanto o seu homenageado, aquela pessoa que faleceu e que você ama tanto era único, era especial, era importante para o mundo. E quando eu entendi, desliguei, escrevi junto com a Alana, a gente olhou para os textos, leu e entendeu a energia completa ali, eu entendi que aquela unidade, aquelas duas histórias tinham em si uma energia de cura e de conexão com o que estava acontecendo.

Quando você ouve a pessoa, você escreve essas histórias e depois ler essas histórias é impossível ficar de verdade desconectado do que está acontecendo lá fora. E, então, eu visualizei essa onda de cura, liguei para o Rogério e falei: “Rogério, isso tem que ser para dar certo, ele tem que ser um movimento, tem que ser um jeito que as pessoas, que muita gente entrevista, muita gente é entrevistada e daí, de alguma maneira, essa onda, essa energia de celebração da vida atravessa a sociedade”.

A gente desenhou para isso e isso começou rapidamente a acontecer e agora felizmente está acontecendo de forma muito consistente e cada vez maior no Brasil inteiro.

O Inumeráveis é um site, então, em que qualquer pessoa pode encontrar histórias de vítimas da Covid? Explica para a gente o que é o projeto e como as pessoas podem participar.

O inumeráveis é um memorial colaborativo. Isso significa que, se você é um familiar, se você perdeu alguém, vítima de coronavírus no Brasil, você é nosso convidado para prestar as suas homenagens neste espaço, que é um espaço muito solene, mas também de muita celebração dessa vida que existiu e tudo que ela transformou. 

Você pode ir até o memorial inumeraveis.com.br que lá tem um link que você pode escrever a sua história, se você quiser escrever história do seu homenageado. Mas se você quiser também pode responder a um questionário sobre essa pessoa e daí um dos nossos jornalistas vai escrever essa história ou, se preferir, você pode nos mandar um áudio via WhatsApp. Todos os links estão lá no site do memorial inumeraveis.com.br.

Você acha que a saída para crise, para essa crise sanitária, para essa pandemia toda, ela passa por iniciativas voluntárias que parte da própria sociedade como o Inumeráveis? Que mensagem o teu projeto quer passar para a sociedade?

Existem muitas discussões em torno da pandemia. A discussão política talvez seja uma das mais intensas, mas tem a discussão da logística, da infraestrutura. O Inumeráveis ele está dentro do campo da discussão humanitária. Ele está olhando para todos esses outros símbolos e deixando eles um pouco de lado e olhando diretamente para as pessoas, para os humanos ali, por trás de cada um desses números. 

Claro que o Inumeráveis como uma obra artística, poética, jornalística, tem uma vontade. E a vontade, a função do Inumeráveis é não deixar nenhuma dessas histórias virar número. A vontade do Inumeráveis é que todos nós que ficamos possa se conectar com mais profundidade, com mais verdade tudo que está acontecendo nesse momento histórico da nossa sociedade.

Eu queria encerrar essa entrevista com uma poesia que, de certa maneira, resume o que a gente está fazendo aqui:

Não há quem goste de ser número
Gente merece existir em prosa 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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