DEMOCRACIA, Principal

Elas por elas: PT investe em formação para ampliar participação de mulheres na política

O Tribunal Superior Eleitoral registrou em 2016 que 18.244 candidatas não receberam nenhum voto nas últimas eleições municipais, o que significa que 12,5% de todas as mulheres inscritas para disputar as eleições no país há dois anos não contabilizaram votos.

Muito embora haja obrigatoriedade legal, desde 2015, para que 30% das candidaturas em cada pleito sejam de mulheres, é clara a dificuldade que os partidos têm de preenchê-las, o que reflete também nas chamadas “candidaturas laranjas”.

As eleitoras são maioria no país, mas ainda ocupam menos assentos nas casas legislativas e nos Executivos. No Congresso Nacional, por exemplo, as mulheres representam menos de 10% das vagas.

A boa notícia no meio de tanto retrocesso vem do próprio TSE após pressão popular das mulheres. Além da garantia de 30% das candidaturas para mulheres, a Justiça Eleitoral também determinou que pelo menos 30% do fundo eleitoral financie candidaturas femininas, passo importante para reduzir a desigualdade na representação de homens e mulheres na política.

Com base nesse cenário, o Partido dos Trabalhadores criou em 2018 o projeto Elas por elas, que se dispõe a oferecer condições políticas e materiais para formar novas lideranças femininas, além de fortalecer e dar visibilidade às lideranças já consolidadas.

No Rio Grande do Norte, exemplo dessa iniciativa voltada para a formação política de mulheres ocorreu no seminário “Feminismos, Resistência e Democracia”, organizado sexta-feira (13), pela secretaria estadual de mulheres do PT. Além da formação, a ideia era criar uma rede de influência só com mulheres.

O seminário foi amplo e contou com a participação de mais de 200 mulheres de várias regiões do Estado, filiadas a partidos de esquerdas (não apenas ao PT), feministas, representantes de movimentos sociais e simpatizantes da política e do projeto.

As mesas de debate foram marcadas pela diversidade. O feminismo foi pautado sob diversas óticas, como o viés de consciência de classe e de opressão contra a mulher. Ao final, um documento listando propostas em defesa e valorização das mulheres foi entregue à senadora e pré-candidata ao Governo do Estado Fátima Bezerra.

As propostas tinham como eixo central as questões da autonomia feminina, da independência econômica e da cidadania no sentido de que as mulheres tenham assegurados direitos às políticas essenciais de saúde, educação, ao trabalho, à segurança e à assistência social.

Fátima ressaltou que receber aquele documento da sociedade civil organizada tinha como significado, em um eventual Governo, realizar uma gestão integrada:

– Não dá de maneira nenhuma para convivermos com gestões conservadoras que dizem que as mulheres são prioridades só da boca para fora. Nós vamos romper com isso. Vamos fazer juntos com vocês dos movimentos de mulheres uma gestão integrada que tenha a intersetorialidade pra valer e não pra inglês ver. Nosso governo será um governo de mulheres, que tem que ousar, no sentido de fazer uma gestão radicalmente democrática.

Além da senadora Fátima Bezerra, o seminário contou com a presença da deputada federal Zenaide Maia (São Gonçalo do Amarante), vereadoras Natália Bonavides (Natal), Ana Michele (Parnamirim), Isolda Dantas (Mossoró) e da ex-vereadora de Natal Sargento Mary Regina.

Seminário “Feminismos, resistência e democracia” reuniu mais de 200 mulheres de várias regiões do RNDiversidade e opressão

Primeira professora transexual da rede privada de ensino no Rio Grande do Norte, Bia Crispim também tem o pioneirismo de ser a primeira mulher trans formada em letras do Estado, características que trouxeram ao evento a multiplicidade da mulher atual. Na fala da professora, numa das mesas do Seminário, houve espaço para desabafo e reflexão:

– Preste atenção que eu sou a única mulher trans presente no evento. E da mesma forma que sou uma aqui, eu também sou uma em muitos lugares. Isso nos torna de certa forma invisíveis. Uma mulher trans, na maioria das vezes, nem é vista como mulher, principalmente no Nordeste.

Aliás, Bia destacou que dentro do próprio movimento feminista as mulheres não pensam em todas categorias de mulheres que existem:

– Ser mulher não reduz o indivíduo a uma vagina, ser mulher é uma condição muito maior.

O debate englobou o feminismo e a consciência de classe, assim como as lutas anticapitalistas, antirracistas e as diferentes camadas em que se dá a opressão contra as mulheres.

Jamilla é cadeirante e foi candidata à vereadora em Currais Novos

De Currais Novos, Jamilla Batista emocionou o público. Ela foi candidata à vereadora pelo PT em 2016 e relatou as dificuldades de ser mulher e deficiente. Jamilla tem paralisia cerebral, possui necessidades complexas de comunicação e escreveu um texto lido para as mulheres que participaram do seminário.

Ela pontuou a própria experiência e as vivências das pessoas com deficiência que, segundo a militante petista, vem melhorando a cada dia. Ainda assim, Jamilla chamou atenção para a temática da saúde da mulher com deficiência, que perpassa a questão do machismo, o que intensifica os reflexos do capacitismo.

 

– A dificuldade que os profissionais de saúde possuem em nos enxergar como mulheres influenciam diretamente na qualidade dos serviços que recebemos. Como teremos acesso às informações para o exercício da nossa sexualidade se somos infantilizadas? Como podemos ter nosso direito à saúde garantida se não somos compreendidas na nossa integridade? Atualmente os desafios são grandes para todos, imagine para nos mulheres com deficiência quando falamos da saúde da mulher. Existem exames de prevenção que mulheres cadeirantes não conseguem fazer, um deles é exame de mama, um dos maiores erros que o Brasil pode cometer com relação a saúde da mulher. Por esse motivo muitas mulheres cadeirantes vão ter que fazer tratamento de câncer de mama porque nunca tiveram possibilidade de fazer uma mamografia. A mulher quando faz exame de mamografia tem que estar em pé e grudada no equipamento. Como é que o equipamento se aproxima de um corpo e uma mulher que está sentada?

“Não há feminismo sem perspectiva socialista”, diz socióloga

Socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres, Tatau Godinho foi uma das convidadas do seminário e chamou atenção para importância da militância de mulheres negras, dos movimentos rurais, de pessoas com deficiência, lésbicas, transexuais. Para ela, a reunião de todos esses segmentos fortalece a luta para mudar o Brasil como um todo:

– Não há feminismo que não tenha perspectiva socialista, de mudança social, que envolve classe, raça, gênero e os aspectos de desigualdade que a sociedade vai construindo. A luta de mulheres é uma proposta política de mudança. Para o PT isso é fundamental. O PT para se renovar, para ser um partido capaz de propor uma mudança para o brasil, precisa incorporar como uma parte fundamental a organização politica das mulheres.

Desafio é vencer a sub-representatividade da mulher na política, destaca Fátima

Segundo Fátima, ainda existem 14 estados brasileiros sem representação feminina no Congresso

Com o projeto Elas por elas, a ideia do partido é fortalecer a formação política de novas e já consolidadas lideranças para que as candidaturas de mulheres sejam competitivas e reais, e sejam eleitas, já em 2018.

A senadora Fátima Bezerra defende que uma dos principais desafios do Elas por Elas é lutar contra a sub-representação feminina na política:

– O projeto quer chamar, conclamar as mulheres contra essa chaga. Eu não vou me acostumar nunca com isso. Como somos mais da metade da população e somos excluídas dos espaços de decisão política? Não é normal você ter um Congresso Nacional onde de 27 estados da federação, você tem 14 estados que não tem nenhuma mulher.

Secretária adjunta de mulheres do PT RN, Laíssa Costa, ressaltou a importância do Elas por elas, que vem sendo implementado em todos estados do país, instigando que secretarias estaduais consigam viabilizar diversas ações voltadas para as mulheres.

– Através do Elas por Elas a gente consegue, por exemplo, fazer este seminário reunindo 200 mulheres em plena sexta-feira, mulheres de todas as regiões do estados, de diversos coletivos, de diversas áreas de militância para a gente ter um dia de formação política. Somos tão carentes de espaços para debater os nossos temas… porque a gente sabe que mesmo dentro da esquerda esses temas acabam sendo secundarizados. Então esse seminário está no escopo desse projeto que é o PT olhando para as mulheres no partido e nos fornecendo condições materiais e estruturais de poder oferecer esses espaços de formação e empoderamento.

 Laíssa destacou ainda que o trabalho de formação realizado pelo PT em 2018 vai além das eleições deste ano. Os frutos serão colhidos também em médio e longo prazo:

 – Com certeza reflete não só para agora, mas para daqui a dois anos quando pensaremos em mulheres que em nosso Estado queiram ser candidatas à vereadora, prefeita e que possam ter participado de um momento de formação política como esse.

Coordenadora política do projeto “Elas por Elas”, Dani Nunes fez uma avaliação positiva do projeto. E destacou a importância do PT estar investindo em formação e qualificação da militância.

– Esse momento hoje faz com que a gente consiga enriquecer nossa militância para que gere novos quadros, novas lideranças. O projeto fomenta novas lideranças, novas candidaturas de mulheres. Não é fácil estar numa candidatura de esquerda e sendo uma candidatura de esquerda e mulher é mais difícil ainda, pois enfrenta a questão do machismo, estrutural na sociedade.

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