OPINIÃO

“Eles rouba”

Um relatório do Tribunal de Contas mostrou que 620 mil pessoas receberam o auxílio emergencial sem ter direito. Entre os personagens tem de tudo: Influenciadora digital, socialite, dono de vinícola, entre outros cidadãos de bem. E, procurado por jornalistas, houve até quem jurasse ter feito o cadastro por engano. Então cabe o questionamento:

Quem nunca foi jogar Candy Crush e acabou cadastrado no auxílio emergencial? Quem jamais, numa folga do trabalho de administração da sua vinícola, foi caçar pokémon e acabou informando CPF e RG no aplicativo da Caixa Econômica Federal? Quem nunca foi disponibilizar a conta para receber os presentes em dinheiro da festa de casamento no Caribe e acabou recebendo o benefício federal de 600 reais ?

Parece piada, mas é só o privilégio da mediocridade. Como diria o Paulo Guedes, uma “farra danada”. Se tem um setor que está em alta no Brasil, mesmo em tempos de pandemia, é a instituição baixaria. A cada confusão em fila de supermercado, a cada festinha clandestina, a cada auxílio emergencial indevido, o setor registra alta.

E se analisarmos o passado dos investidores da baixaria, o barraco ganha mais contornos. Imagine receber 600 reais do auxílio emergencial, sem ter direito, enquanto ostenta em suas redes sociais um longevo engajamento na luta contra a corrupção?

Como este é um texto sobre roubo, então permita-me o trocadilho. Há uns três anos um personagem humorístico tomou o Brasil de assalto, tamanha sua popularidade até hoje: o Rogerinho do Ingá, motorista de van e apresentador do Choque de Cultura.

Para quem não conhece, o Rogerinho é um sujeito bruto, quase psicopata, um tanto trambiqueiro e moralista. Sim, é contra a música, porque é ambiente de droga; e contra a criminalidade, mas já roubou até caixa eletrônico. Como um homem do entretenimento, ele se preocupa com a originalidade do seu programa e por isso, em um episódio, faz um alerta para evitar que outras pessoas copiem suas ideias: “Eles rouba!”.

Não me assustaria se logo mais os humoristas anunciassem greve por tempo indeterminado. Não há como competir com a realidade. Rogerinho do Ingá estava certo: “Eles rouba”.

 

 

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras