DEMOCRACIA

Fábio Faria fala em pacificação, elogia imprensa, cita inclusão digital, mas esquece Nordeste, região mais excluída do país

O novo ministro das Comunicações Fábio Faria (PSD) esqueceu as origens. No discurso de posse na nova pasta recriada pelo presidente Jair Bolsonaro para abrigar o Centrão, o deputado federal do Rio Grande do Norte não citou uma única vez o Estado potiguar ou a região Nordeste.

A ausência no discurso não é um mero detalhe. Faria apontou como principal desafio no novo Ministério das Comunicações a inclusão digital. De acordo com pesquisa recente divulgada em abril de 2020 pelo IBGE com dados de 2018, o Nordeste é a região onde há mais pessoas sem acesso à internet no país. Ao todo, 17,65 milhões de nordestinos não acessam a grande rede.

Fábio Faria foi eleito pelo povo do Rio Grande do Norte para a Câmara Federal em 2018 na última das oito vagas a que o Estado tem direito. E por pouco não fica de fora. Ele obteve o apoio de 70.350 eleitores, menos da metade dos 166.427 votos que conquistou em 2014, quando foi o terceiro candidato mais votado, impulsionado pela eleição do pai, Robinson Faria, para o Governo do Estado.

Apesar da eleição pelo RN, o novo ministro fixou residência há alguns anos em São Paulo, onde mora a esposa Patrícia Abravanel, filha do dono do SBT Sílvio Santos. Reportagem do site Congresso em Foco divulgada em dezembro de 2019 revelou que, com recursos da Câmara Federal, Faria viajou 43 vezes a São Paulo no ano passado, e apenas seis para o Rio Grande do Norte, no mesmo período.

Assim que o nome de Faria foi anunciado por Bolsonaro, entidades como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação destacaram que o fato do novo ministro ser genro de um empresário da comunicação, como Sílvio Santos, torna o ato do presidente imoral na medida em que o novo responsável pela pasta vai “controlar e fiscalizar as concessões de rádio e televisão e, também, será responsável por distribuir verbas publicitárias do governo federal”.

No discurso de posse, além de não citar as origens, Fábio Faria também não fez menção aos políticos do Rio Grande do Norte que prestigiaram a posse. Estavam lá o ministro do Desenvolvimento Regional Rogério Marinho (PSDB), o prefeito de Natal Álvaro Dias (PSDB), a deputada federal Carla Dickson (PROS), que herdou a vaga dele na Casa, além dos deputados estaduais Galeno Torquato (PSD) e Albert Dickson (PROS). Das autoridades potiguares, apenas Robinson Faria foi citado.

Pacificador

Fábio Faria tentou fazer o discurso político que Bolsonaro não fez na posse do novo ministro. O potiguar convocou o que chama de “armistício patriótico” e falou com a autoridade de quem vai pacificar o país:

– Precisamos de um armistício patriótico e deixar a arena eleitoral para 2022. É preciso sobretudo respeito. Deixar diferenças políticas e ideológicas de lado para enfrentar esse inimigo invisível. É hora de pacificar o país”, disse, interrompido por aplausos.

Analistas da política nacional afirmam que Fábio Faria também terá o papel de fazer a ponte política entre o Governo e o Congresso Nacional, onde atuou durante 14 anos, por quatro mandatos consecutivos. Uma pista dessa relação, o novo ministro deixou escapar ao se referir à economia do país no período pré-pandemia que, segundo ele, se recuperava “com as medidas do Governo e o apoio do Congresso Nacional”.

Na frente de Bolsonaro, o ministro das Comunicações elogiou a imprensa, citou a importância da TV aberta (ele é genro de Sílvio Santos), valorizou os canais fechados, citou a importância da rádio, defendeu a implementação da rede 5G como determinação do presidente Bolsonaro, e elogiou o chefe.

“(Bolsonaro foi) o primeiro a perceber esse movimento digital e espontâneo. A internet não aceita voz de comando. Cada cidadão é um organismo vivo. O povo te deu poder, presidente, e o senhor retribuiu com respeito”, disse.

Ao final do discurso, Fábio Faria que se converteu à igreja evangélico depois que casou com Patrícia Abravanel, citou um versículo da bíblia.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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