DEMOCRACIA

Em discurso histórico, Lula convoca o povo para as ruas e fala em retomar a alegria: “estou de volta”.

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São Bernardo do Campo – “Estou de volta”. Em um discurso histórico para cerca de 50 mil pessoas em frente a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, o ex-presidente Lula atacou so ex-juiz Sérgio Moro e o atual presidente Jair Bolsonaro, convocou o povo para lutar nas ruas por outro Brasil e reafirmou que vai percorrer o país com alegria:

– Quero construir esse país com a mesma alegria que nós construímos quando estivemos no Governo. Cá estou, livre como um passarinho”, disse sob uma multidão de aplausos.

O petista ainda ressaltou que o momento é de organização e citou partidos e políticos aliados que estavam no ato, a exemplo de Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, ambos do PSOL, e Jandira Feghali e Luciana Santos, do PCdoB.

– Se a gente tiver juízo e souber trabalhar direitinho, a esquerda que o Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultra-direita que nós tanto queremos derrotar. Esse país não merece o governo que tem, esse país não merece um governo (de um presidente) que manda os filhos contar mentira através do fake news”, afirmou, em alusão aos filhos do presidente da República Jair Bolsonaro.

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Pelos menos quatro pessoas passaram mal durante os 45 minutos em que Lula falou para uma multidão de fiéis. A região no ABC paulista ficou pequena para tanta gente e nem todos conseguiram ver ex-presidente em cima do trio elétrico. Vários políticos do PT e partidos aliados como PSOL e PCdoB, acompanharam o ato ao lado de Lula, entre eles a governadora do Rio Grande do Norte Fátima Bezerra.

Ex-presidente Lula discursou ao lado de personalidade e políticos de partidos de centro-esquerda

Muitos simpatizantes de Lula se amontoaram dentro do Sindicato para acompanhar as palavras dele pela televisão. Ao final do discurso, repetindo a cena que antecedeu a prisão dele em 7 de abril de 2018, Lula saiu nos braços do povo carregado e com o nome gritado. O ato gerou imagens semelhantes às registradas pelos fotógrafos.

Apesar de ter sido anunciado como um pronunciamento oficial ao povo brasileiro, Lula avisou que pretende elaborar com calma esse discurso endereçado à nação:

– Quero fazer um pronunciamento ao povo brasileiro em 20 dias. Vou pensar, escrever, rabiscar. Não queria fazer hoje porque qualquer coisa que eu falasse de forma mais dura vão dizer que estou com ódio. E com 74 anos eu não tenho o direito de ter mais ódio no coração. Estou com energia de 30 e tesão de uns 20 anos. Não tenho porque ficar nervoso. Estou de bem com a vida. A única coisa que me motiva nesse país é que é possível governar para o povo mais necessitado, que é possível colocar o pobre na universidade, colocar o povo nas escolas técnicas, melhorar o ensino fundamental. Em 12 anos, geramos 22 milhões de empregos com carteira profissional nesse país. Mas só iremos salvar esse país se tivermos coragem de fazer um pouco mais”, afirmou.

Lula também posicionou o Brasil como parte integrante da América Latina. Citou o caos e a reação do povo ao modelo neoliberal semelhante ao que o ministro Paulo Guedes tenta implementar no Brasil, criticou a oposição na Bolívia que não aceita o resultado das eleições que deram o quarto mandato consecutivo ao presidente Evo Moraes, destacou a vitória de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner na Argentina e criticou a interferência dos EUA nos governos latino-americanos:

– A direita na Bolívia está fazendo a mesma coisa que o Aécio fez aqui quando perdeu a eleição para a Dilma. O Chile é o modelo de país que o Guedes quer construir, que está fazendo com que pessoas velhas morram porque não tem salário. Eles não foram eleitos para destruir, mas para governar. Vocês viram que o companheiro Alberto Fernandez e a companheira Cristina deram uma surra no Macri e ganharam as eleições ? Precisamos ser solidários com a Bolívia, com o Chile, a pedir a Deus que o companheiro Daniel ganhe as eleições no Uruguai e precisamos ser solidários ao povo da Venezuela. Quem decide o problema do país é o povo do país. Que o Trump resolva o problema dos americanos e não encha o saco do povo latinoamericano. Não devemos aceitar isso”, disse.

Bandeirão “Lula Livre” foi aberto pelo público ao final do discurso de Lula (foto: Elineudo Meira)

Defesa quer a anulação de todos os processos contra Lula

O ex-presidente também não poupou seus algozes, em especial o ex-juiz e atual ministro da Justiça Sérgio Moro, chamado de “canalha e mentiroso”. Lula voltou a falar que sempre dormiu com a consciência tranquila e que não acredita que Moro e Bolsonaro consigam fazer o mesmo.

“Preciso provar que o juiz Moro não era um juiz. Era um canalha. Preciso provar que o Dallagnol não representa o MP que é uma instituição séria. Eu tinha certeza que os delegados que disseram o inquérito contra mim mentiram em cada palavra que inscreveram“, afirmou.

Como ficou 580 dias preso, Lula disse que foi obrigado a assistir a programação da televisão aberta e não poupou críticas às emissoras.

– A programação da TV do Sílvio Santos é um horror, a da Record também. E a Globo continua a mesma vergonha. Até agora a Globo não colocou uma matéria do Intercept, só uma matéria que foi para defender o Faustão, que foi dar aula para o Moro”, disse.

Agora em liberdade, em razão de uma mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a possibilidade de prisão após condenação em 2ª instância, Lula disse que ainda não tem nada ganho. E deixou claro que vai lutar junto ao STF para anular todos os processos que instaurados contra ele.

– Nós ainda não ganhos nada. Queremos que seja julgado os habeas corpus anulando todos os processos feitos contra mim. Já existe argumento suficiente. Moro é mentiroso não só por causa do (site) Intercept, mas é pelo que está escrito na minha defesa há quatro anos. E aquilo só tem uma explicação: me tirar da disputa eleitoral. Mas o que eles não sabem é que um povo como vocês não depende de uma pessoa, mas de um coletivo”, afirmou.

Lula terminou o discurso nos braços do povo, como no dia da prisão (foto: Elineudo Meira)

Já na segunda metade do discurso, diante de vaias e xingamentos do público contra Jair Bolsonaro, Lula pediu que o público não ofendesse o presidente.

– Sou um cara traumatizado porque duvido que um filho da minha mãe dissesse um palavrão contra Bolsonaro. (Até porque ele) já é um palavrão. Não temos que brigar ou xingá-los. Temos que dizer em alto e bom som: “não vamos permitir que eles destruam o nosso país”. A juventude, ou briga agora ou futuro será um pesadelo. A luta não é de um ou de três dias. E saibam que esse jovem de tesão de 20 e energia de 30 estará na rua junto com vocês”, afirmou, antes de encerrar reiterando que não quebrará o elo de confiança com o povo brasileiro:

– Eles não sabem o tesão que eu estou (para lutar). Temos que seguir o exemplo do povo da Bolívia, do Chile, atacar e não apenas se defender. Podem contar comigo. A única coisa que não vou fazer da vida é trair a confiança que vocês”, disse, antes de sair carregado nos braços do povo.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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