CULTURA

Em livro sobre 2ª Guerra Mundial, historiadores narram os impactos do conflito em Natal e outras capitais do Nordeste

Ponto geograficamente estratégico para o bloco dos Aliados (Inglaterra, França e Estados Unidos), na guerra que teve início em 1939, o Nordeste do Brasil abrigou forças americanas, levantou bases e enviou soldados para batalhas importantes do maior conflito armado da história da humanidade. 

A convite da professora do departamento de História da UFRN Flávia de Sá Pedreira, 17 pesquisadores se reuniram no livro “Nordeste do Brasil na II Guerra Mundial” que traz uma série de trabalhos sobre diversos impactos do período da região brasileira mais geograficamente próxima da Europa.

Nesta segunda edição, da Ideia editora, a obra ganha dois novos capítulos e está disponível na Cooperativa Cultural, custando R$ 60.

Em Natal, Anna Gabriella de Souza Cordeiro escreveu sobre o impacto da guerra no bairro da Ribeira, local que, na década de 1940, era considerado ponto de entrada para a cidade, devido ao porto e estação rodoviária. Na época, o local ganhou o Grande Hotel, além de cafés, bares, um cassino e até o Mercado da Ribeira, transformando a região em um grande centro da boemia e da juventude, com atrações para os soldados americanos que aqui aportavam. O que, por um lado atraía comerciantes, também afastava natalenses desfavorecidos financeiramente ou não-adeptos à má fama que o bairro também ganhava.

“O capítulo tem por objetivo entender como o reordenamento urbano, ocorrido na cidade de Natal durante a Segunda Guerra Mundial, resultou na desvalorização do bairro da Ribeira”, explica Cordeiro.

A pesquisadora lista, no capítulo, a diversidade de mudanças que trouxe novo traçado urbano para a cidade e crescimento da economia, pela entrada do capital estrangeiro, mas também afastou os citadinos de um dos bairros mais tradicionais da capital do RN.

Em Memórias de um veterano norte-rio-grandense da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o professor de história Luiz Gustavo Costa conta a trajetória de um potiguar que se alistou voluntariamente no Exército, foi para a Guerra, participou do principal conflito de libertação da Itália, a batalha de Monte Castelo, finalizada em 21 de fevereiro de 1945, após 3 meses de conflito.

Severino Gomes de Souza nasceu em 5 de agosto de 1924, no município de Baixa Verde (hoje João Câmara), no estado do Rio Grande do Norte. Seu pai, comerciante de pequeno porte, possuía uma pequena propriedade de cultura algodoeira. Logo em 1935 presenciara quando seu primo Antônio Justino de Souza, então prefeito de Baixa Verde, fora obrigado a abrigar em suas terras militares oriundos da cidade de Natal participantes do Levante Comunista […] alistou-se voluntariamente aos 17 anos de idade ao exército, no início da década de 1940. […] seguiu para a Itália no dia 22 de setembro de 1944, na partida do segundo e terceiro escalões de nossa força militar. Nos campos italianos pôde participar da frustrada tentativa da tomada de Monte Castelo, em 29 de novembro de 1944 bem como da tomada do mesmo ponto estratégico na data de 21 de fevereiro do ano subsequente. No pós-guerra, atuou ativamente em palestras a respeito do período em que a Força Expedicionária Brasileira esteve em ação”, conta o historiador no livro.

Severino Gomes de Souza em Roma, em 1944. Ao fundo, o Colizeu de Roma. / Foto: Arquivo pessoal.

O capítulo é resultado de longo período de convivência de Luiz com o capitão Souza, como ele se refere ao personagem:

“Ele [Severino] está com 97 anos, reside em Recife, mas no momento que o conheci, em 2011, ele estava aqui, em Natal. Então, durante dois anos ininterruptos, todo sábado eu ia pra casa dele. Às vezes saía de lá recheado de informações, […] outras ele não estava muito afim de falar e a gente ficava contando piada a tarde inteira. Mas, justamente eu estava entendendo como funciona, aí vem o meu trabalho. A questão da importância da história oral”, complementa o co-autor.

“Ele [Severino] me disse uma frase muito interessante: ‘eu quando voltei, descobri que não sabia falar sobre o que vivi, então resolvi me debruçar nos livros, resolvi me tornar um acadêmico’. É um caso diferente de um homem que lá esteve, um homem alfabetizado, o que não era lá muito comum quando você vê, né?”, relembra Luiz.

 

O então aluno do curso de história Luiz Gustavo ficou amigo do veterano Severino Gomes ainda no início da graduação e construiu o trabalho de conclusão de curso a partir das conversas com o militar aposentado. / Foto: Guilherme Bezerra

Já o professor João Gilberto Neves Saraiva decidiu tentar entender o contexto desse período a partir dos registros de veículos de imprensa internacionais e é o responsável pelo capítulo “No front das redações: construindo o Nordeste nas páginas do The New York Times”. Neto de um ex-militar da Força Aérea Brasileira, o pesquisador ouvia, desde muito cedo, uma versão bem diferente da oficial sobre o papel do RN no conflito. Enquanto Natal, realiza celebrações anuais falando sobre os aspectos vitoriosos do período, o avô de Saraiva relatava uma situação extremamente difícil inclusive para quem estava muito longe do front de batalha:

“A memória dele era blackout, fome, medo, [tinha que] prestar muita atenção nas entrelinhas dos jornais para saber em que pé a Guerra estava, a vivência dele parecia ser bem menos celebração e bem mais vivência de guerra apesar dele nunca ter ido à Itália. Quando chegou a hora de fazer mestrado em História aqui na UFRN, eu comecei a pensar sobre isso. Em que lugar eu encontraria esse tipo de informação sobre como foi a guerra vivida, e não a Guerra lembrada”, remonta o coautor que buscou no jornal norte-americano registros diários do conflito também pela ausência de material nacional digitalizado sobre a época.

É também abordando esse imaginário sobre a Guerra em Natal que a professora Flávia de Sá traz o capítulo “Intelectuais potiguares em face de Parnamirim Field”. Nele, a pesquisadora fala sobre a relação dos intelectuais de Natal com a presença dos americanos da base militar.

Ao mesmo tempo em que se idealizava muito o american way of life, o estilo de vida americano, as pessoas que conviveram com os americanos aqui na cidade, principalmente, em relação ao cotidiano mesmo, em questão de racionamento, de espaços públicos, frequentar esse lugar e não outro, as proibições que haviam…”, narra a coautora e organizadora do livro.

Neste trabalho, Flávia conta o episódio em que um coronel lançou carta aberto pedindo que o então jornalista Câmara Cascudo escrevesse algo em favor da base de Parnamirim, desejo que não foi atendido por Cascudo. A historiadora também aborda crônicas de Veríssimo de Melo, já conhecido à época e que, segundo avalia a pesquisadora, demonstrava “incômodo com a presença física dos americanos”.

O livro Nordeste do Brasil na II Guerra Mundial traz ainda outros 13 capítulos com diferentes abordagens sobre o contexto de cada capital nordestina

O Brasil na II Guerra Mundial

Puxado pelos Estados Unidos, o Brasil entra na Guerra em junho de 1944, ao lado dos países aliados (EUA, Inglaterra, União Soviética e França). Após aproximação com o país norte-americano, o litoral brasileiro passou a sofrer retaliações nazista, com registro de seis navios nacionais afundados por alemães em 1942, resultando na morte de 600 pessoas. Com isso, cresceu a pressão para que Getúlio Vargas declarasse guerra à Alemanha de Adolf Hitler, o que ocorreu no mesmo ano.

Contudo, os cerca de 25 mil soldados brasileiros da Força Expedicionária Brasileira só foi criada no ano seguinte e enviada à Itália em 1944.  Os soldados da FEB lutaram na Itália, em regiões como a de Monte Castelo, e 443 brasileiros morreram em batalha na Europa.

 

 

 

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