OPINIÃO

Em meio a jumentos e jabutis

As metáforas são um dos recursos poéticos que mais me atraem nas línguas. Fazendo um paralelo com a canção – cheia de metáforas – do Alceu Valença, para mim elas são a fruta que mais tem sabor.

Bichos, por exemplo, metaforizam muito bem seres humanos. Há a jararaca para representar pessoas traiçoeiras e venenosas, há o gato para representar pessoas bonitas e elegantes, há o pavão para representar pessoas narcisistas e vaidosas, e por aí vai… Algumas me parecem injustas, por exemplo: chamar alguém de cachorro ou de vaca não faz jus à natureza original porque implica uma conotação pejorativa. Fazer o quê, as línguas são sempre, em alguma medida, arbitrárias…

E por falar em bichos, estava eu um pouco melancólica com as notícias do dia acerca das jumentices do desgoverno atual (com todo respeito aos bichinhos que, conforme cantou Elino Julião, são nossos irmãos), quando esbarrei com uma notícia boa: a abertura das inscrições para o Prêmio Jabuti 2019.

Como sabemos, esse é o prêmio literário de maior tradição e credibilidade no país. Coordenado pela Câmara Brasileira do Livro, neste ano ele completa a sua 61ª. edição e homenageia a escritora Conceição Evaristo, uma mulher negra, o que é também mais um alento neste cenário de retrocesso e destituição de direitos de segmentos historicamente perseguidos e injustiçados.

E o Jabuti? Por que esse nome? No site do prêmio (www.premiojabuti.com.br), há referência ao clima modernista da época de sua criação (1958) e ao personagem de Monteiro Lobato. Conforme se pode ler na página do certame, “o pequeno quelônio, já familiar no imaginário das culturas indígenas tupi, ganhou vida e personalidade nas fabulações do autor das “Reinações de Narizinho”, como uma tartaruga vagarosa, mas obstinada e esperta, cheia de tenacidade para vencer obstáculos, para enganar concorrentes mais bem-dotados e chegar à frente ao fim da jornada”.

Com efeito, a figura simpática desse animalzinho parece uma ótima metáfora para quem, como eu, atreve-se a (tentar) fazer literatura fora dos “grandes esquemas”, digamos, em que o próprio autor se responsabiliza por todas as fases do processo de criação de um livro (além de escrever, tem que se virar com a edição e a distribuição).

Aliás, no ano passado, o grande vencedor, tanto na categoria de poesia como também com o prêmio maior de livro do ano (R$100 mil pilas!), foi um autor independente, o cearense (eita povo arretado!) Mailson Furtado Viana. Ele concorreu com o livro “À cidade”, dedicado a Varjota, município perdido lá nos rincões do Ceará. Na cerimônia de premiação, emocionado, o escritor falou das dificuldades enfrentadas por um autor independente e, tal qual um jabuti heroico e vitorioso, declarou: “Esse prêmio é nosso!”

Se você também se entusiasmou e vai dar uma espiada no site (as inscrições vão até dia 28 de junho), vou logo preparando seu espírito para dois baldes de água fria (olha a metáfora!): primeiro, o valor das inscrições é bem salgado (a taxa mais em conta custa mais de R$200,00); segundo, você vai dar de cara, por mais que não queira, com a logomarca deste governo BolsoIGnaro (“Pátria Amada Brasil”), o que pode fazer você se sentir, como brasileiro, um jumento.

Com todo respeito ao nosso irmão.

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