OPINIÃO

Em nome de Deus, de Iemanjá, do Zodíaco e da pata de coelho

Sei que já virou meme e piada de Twitter, mas, também acho curioso, para não dizer engraçado mesmo, católicos e evangélicos que passam o ano inteiro professando sua fé no ano novo vestirem roupa branca e pularem as sete ondas “para dar sorte”, isso sem nem falar da oferenda de flores (à Iemanjá).

Da mesma forma que também acho curioso pessoas que levam a sério religiões afro, budismo, espiritismo, terem medo de passar debaixo de uma escada por razões de superstição e não de segurança, ou de manterem hábitos, (ainda que culturais, de infância mesmo) como fazer o sinal da cruz ao passar em frente a uma igreja católica.

É certo que o brasileiro é bem flexível no que tange à religiosidade e crenças. Afinal, estamos no país – o único do mundo – que tem “católicos praticantes” e “católicos não-praticantes”. Mas esse, digamos, ecumenismo de parte dos brasileiros se revela mais quando em festas e momentos de celebração.

Natal e ano novo são pródigos disso. Do católico fervoroso que mantém a superstição de vestir branco até o evangélico radical que manda ver no chester e no tender na ceia natalina. Ou o praticante da doutrina espírita que, por via das dúvidas, confere lá o Horóscopo do dia. Enfim, a religiosidade do brasileiro médio é umbilicalmente ligada não apenas a um estranho ecumenismo mas a comportamentos sociais.

Não que o ser humano em geral não seja contraditório e paradoxal, não se trata disso. É que no Brasil se atingiu um nível elevado de “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço” e de comportamentos difusos. Balanças com pesos diferentes para as coisas, mesmo. Exemplo: O que é bonito para a Europa não funciona para o Brasil, na ótica do brasileiro médio que visita outros países. Para este, o homem tocando violino na Place Vendôme, em Paris, é lindo. Já o rabequeiro com seu instrumento na porta da C&A merece desprezo. Filmar o artista em Lisboa conta pontos para a postagem do Instagram. Já o malabarista no semáforo aqui em Natal é “vagabundo que quer ganhar dinheiro sem trabalhar”.

Esse fosso entre teoria e prática, entre convicção e ação, que faz de parte das pessoas contradições ambulantes. Creem em Deus e em Jesus como seu salvador, mas, também consultam uma cartomante de vez em quando, e conferem se os signos do Zodíaco estão a seu favor. Bem, ajuda  – ainda que do não visível – nunca faz mal. Melhor sobrar do que faltar. E ter no bolso um amuleto, tipo uma pata de coelho, vai que… Em nome de Deus e de Iemanjá, rainha do mar, amém!

 

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