OPINIÃO

Empatia para todos

Empatia, escutar e se aproximar são fundamentais dentro de uma consulta clínica, meus alunos sabem o quanto que eu falo dessas palavras numa “instrumentação técnica” semiológica. Sem empatia não tem como se desenvolver uma entrevista clínica, pelo simples fato que precisamos das melhores e maiores informações para “entender” o que está ocorrendo e pensar em estratégias pra dirimir o problema em questão.

Certo dia um aluno (um pouco constrangido) chegou pra mim, após a aula, e perguntou:

– “Professor, racionalmente eu entendo e compreendo a importância da empatia em uma consulta, agora como se faz para fazer isso na prática? Eu não consigo demonstrar “afeto” para uma pessoa que eu nem conheço direito”, disse.

E eu concordo integralmente com esse aluno, a tarefa de se sentir o “outro” é difícil e até pode ser contra natural nos tempos individualistas de hoje. Agora a angústia desse estudante é o primeiro passo para conseguir progredir na sua formação médica. Sem reconhecer erros e habilidades não melhoramos como médicos e, principalmente, como ser humanos.

E o mesmo problema passa o paciente. Falar de questões e problemas eminentemente pessoais para um “estranho” e estar disposto a escutar possíveis intervenções que podem lhe desagradar é extremamente difícil também. Muitas vezes o paciente finge que fala o que sente, o médico finge que entende simpaticamente (lembrar que simpatia é diferente de empatia) e a consulta fica no 0 a 0. Assim, os problemas persistem e se agravam.

As faculdades de medicinas começaram a se preocupar com isso após quase um século de abandono, lembrando que a formação médica era muito mais humanista até o início do século XX. Mas ainda estamos caminhando lentamente, pois parece que a característica da empatia tem mais a ver com características próprias de cada indivíduo, dificultando muito estratégias de ensino nas escolas médicas.

O que sabemos é que estratégias de ensino que façam o aluno refletir e a falar sobre suas próprias vidas e que busquem ferramentas artísticas tem melhores resultados. A arte como forma de expressar a angústia da formação médica tem tido sucesso em alguns estudos pilotos pelo mundo afora.

Agora isso não é só fundamental na medicina, é fundamental na VIDA. Se colocar no que o outro sente, escutar um discurso “estranho” aos seus ouvidos e se posicionar de forma cordial é a arte de conviver em sociedade. Fora disso é barbárie. A empatia possibilita formação de médicos melhores, mas precisamos de engenheiros, arquitetos, advogados, deputados, biólogos… todos “trabalhados” na visão global dos nossos problemas, só assim sairemos desse atoleiro atual.

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