OPINIÃO

Endometriose não mata, mas sou viúvo

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A professora da UFRN Dalvanir Avelino (dir) foi uma referência na assistência social e morreu em 22/11 diagnosticada com endometriose

 

O que será das nossas mulheres, as que nos dão as mãos e dedicam seu carinho, cuidado e companheirismo assumindo o belo e tortuoso caminho da vida conjugal; e das mulheres que num ato de pura expressão da existência sublime da concepção de vida dão à luz e nos põem neste plano tido por terreno, às vezes pedregulhoso, resvaloso, outras de campos floridos ? Essas mulheres que serão nossas filhas, nossas irmãs, nossas amigas, comporão a extensa latitude de pessoas que dão valor e completam a essência da existência humana ?

Esta é uma carta de dor, mas a cima de tudo, de amor. Esse sentimento que trago se aponta como lâmina afiada que por vezes resvala me arrancando da pele da alma, saudade e saudosismo sim, este o cabo que puxa uma dor de quem perde valor imensurável na vida.

Não há revolta, tão pouco lugar a insana tristeza, sensatez na dor, recriar na dor alternativas a continuar se dedicando a um legado deixado por uma história que não pode e não deve ser submetida a nada menos que a beleza absoluta de tempos de construção de cumplicidade e parceria, evolução só possível quando compartilhar se torna entrega e recepção de si e do outro, sem que cada um deixe ter a beleza de ser o brilho que iluminou o encontro.

A companheira que me deixou sofria de um desses males que levam as mulheres, tantas delas, ao sofrimento, à anulação e, por fim, muitas vezes a sair precocemente de nossas vidas. Me disseram: “endometriose não mata”. Mas, sou viúvo.

Entendi nestes anos acompanhando a evolução de um quadro de endometriose aguda, nível 4, agressiva e de dores, que não sou capaz de mensurar, que a medicina brasileira pouco avançou no cuidado e na abordagem sensível a cada caso exposto. E estamos falando de uma doença que atinge milhares de mulheres. Porém, os pífios avanços e procedimentos padronizados e pela pura falta de humanidade no atendimento vão provocando distorções, efeitos colaterais fora de controle e entendimento pela medicina atual. Por vezes senti a conduta de “segredo” no diagnóstico de dúvida escondida na autoridade médica.

Minha companheira faleceu de morte súbita, aguardando uma cirurgia em uma enfermaria de hospital, na causa mortis, choque hemorrágico por hemoperitônio causado por endometriose. Mas sempre nos disseram que endometriose não mata.

Há que se mudar algo nas políticas públicas referente à saúde da mulher. Não é possível aceitar que mais da metade da população tenha seus principais problemas de saúde relegados a segundo plano. E não digo isto pela dor da perda de uma mulher essencial em minha vida, digo pelas que ainda vão sofrer e morrer pelo que não foi feito, pelo que não foi debatido, pesquisado e, principalmente, pelo elemento humanizado que se perde nas condutas tecnocratas, burocráticas e no ambiente de saúde humana que se contamina por interesses de mercado.

Este não é um manifesto contra a classe médica, muito menos um ato de revolta à saúde de meu país, é um ato de amor ao próximo (a), um apelo a quem possa ouvir abstendo-se do aparelho auditivo, dessa forma, e possa se permitir a audição da alma, esta que nos define humanos. 
O esforço que desprendo em minhas palavras se compõe de reflexos e vivências de ser homem e, nem por isso, deixando de saber da importância fundamental da mulher, da histórica carga de injustiças nas quais elas estão expostas. A solidariedade de gênero deve, ao meu ver, avançar para um lugar equânime, de mãos dadas, símbolo de quem caminha junto e deve ampliar-se aos horizontes da ciência e dos cientistas.

Não há saída para uma sociedade que não sabe o valor de um abraço.

 

PS: O Senado Federal abriu consulta pública e o reconhecimento da endometriose pelo INSS como doença incapacitante pode entrar na pauta de debates dos senadores e senadoras até virar projeto de lei. Para isso, bastam 20 mil apoios. Quem tiver interesse em apoiar a causa pode acessar o link https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=89448&voto=favor

 

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