OPINIÃO

Então é Natal!… O que você fez?

A frase mais que clichê da famigerada versão de Simone para “Happy Xmas”, de John Lennon e que dá título a este texto que se presume ser bem humorado, é super conhecida de boa parte das pessoas, principalmente quem tem intimidade com o mundo virtual.

Como a música guarda todos os clichês que encontramos na “festa cristã” citada na letra (embora mais pagã em seus costumes do que nunca mesmo para os cristãos) cabe a reflexão, já que “Então é Natal” para que pensemos justamente nos clichês e caldo cultural anacrônico que cerca o, digamos, período natalino.

No Brasil, cidade de Natal, capital potiguar, a “noiva do sol”, incluída, temos, desde os anos 40/50 e muito graças a TV e à publicidade uma cultura natalina “importada” com algodão simulando neve, o tradicional papai Noel e suas roupas pesadas de frio, árvore de natal, ceia típica e tudo o mais como nos filmes natalinos que passavam na Tela Quente e nas séries tipo A Feiticeira e Jeannie é um Gênio.

O curioso é que tradições passadas de geração para geração e sustentadas cirurgicamente pelo comércio e pela propaganda pouco ou nada são questionadas. Bastaria parar um pouco e refletir qual o sentido celebrarmos a neve em pleno verão de um país tropical com temperaturas em 25 de dezembro beirando os 40 graus.

(Abrindo um parêntese para lembrar que o homenageado da festa, Jesus Cristo, nasceu na quente Belém, em plena Palestina, lugar desértico e sem sinais de neve)

Da mesma forma que a árvore de natal tem um simbolismo 100% europeu/norte-americano. No inverno intenso, as famílias não tinham acesso às florestas, ao verde, e a árvore dentro da casa aquecida lembrava que a primavera chegaria. E aqui, qual o sentido de uma árvore, verdadeira ou, como é geralmente, fake quando do lado de fora, no calor de dezembro temos parques diversos, Parque das Dunas, em Natal, Ibirapuera, em São Paulo, Parque Lage e Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, todos lá cheios de árvores verdadeiras em pleno período natalino.

Há que se lembrar ainda que nas festas natalinas que vemos nos filmes todos estão bastante vestidos simplesmente porque faz frio e precisam se aquecer, tanto que quando europeus passam o natal em lugares tropicais como o Brasil são vistos curtindo a festa com shorts, camiseta e sandálias, claro, indumentária adequada a nosso clima.

Que tal a “ceia natalina”? Nas Oropa e nos Isteites com o supracitada frio, eles têm de comer as frutas secas da época, nozes, castanha, cristalizadas, e gordura, claro – peru, tender, carnes pesadas – para aquecer o corpo. Repetir esse ritual em um lugar com frutas tropicais diversas e com peixe e camarão acessíveis? Pois é. Não faz sentido.

Claro que cultura assimilada se torna parte da pessoa e não se “arranca” de si uma construção cultural de décadas. Mas, é possível refletir um pouco para não exagerar na dose e reproduzir cegamente modelos de comportamento que não se adequam mais ao clima, ao local e mesmos aos tempos. Tanto que a nova geração me parece menos focada nas velhas tradições natalinas.

Como canta Simone, então é Natal? O que você fez? E o que pode fazer para celebrar, para quem é cristão, um Natal mais perto do aniversariante, um refugiado judeu, do que das tradições européias estimuladas pela indústria de entretenimento norte-americana? Pois é, terminamos com um clichê, embora necessário. E agora citando a letra original de Lennon, “Happy Xmas e Hare rama”…

 

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