OPINIÃO

Entendendo a derrota II: o antipetismo

Todos os analistas são unânimes em indicar o antipetismo como uma das motivações principais da vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições e, portanto, da derrota das esquerdas nesse pleito. O antipetismo, como sabemos, tem três motivações básicas: os descaminhos sofridos pelo Partido dos Trabalhadores quando de sua ascensão ao poder de Estado; as resistências e reações que suas políticas causaram em dados setores da sociedade; e a intensa propaganda negativa levada a efeito pelos meios de comunicação e os setores de direita e extrema-direita nas redes sociais. Foram praticamente 11 anos de um constante massacre midiático que terminou por obscurecer os muitos resultados positivos das gestões petistas à frente do governo federal e terminou por estigmatizar o partido, a ponto de praticamente responsabilizá-lo sozinho pelos vícios e crimes que sustentavam, há muito tempo, o sistema político-partidário e político-eleitoral no país.

É inegável que o PT, ao chegar ao poder, encontrou um esquema já antigo de conquista de maiorias no Congresso Nacional, de financiamento de campanhas eleitorais, de relacionamento com as empresas privadas, de funcionamento das empresas estatais, de ocupação dos cargos públicos de confiança, que muito pouco fez para modificar. Ao contrário, algumas de suas principais lideranças embarcaram na continuidade desses esquemas, que vinham das gestões do PSDB, até porque se tornaram necessárias essas práticas para configurar a maioria parlamentar que permitiu não só ao partido, visto inicialmente com reservas e desconfiança pelas elites empresariais e sociais, governar, mas também permitiu que aprovasse no Parlamento suas políticas sociais e econômicas que deram novo rumo à gestão no país e que melhoraram consideravelmente a vida dos mais pobres. Para atrair o PMDB para o governo, partido que desde o processo de redemocratização servia como força auxiliar do partido vitorioso nas eleições e como garantidor de estabilidade e governabilidade, foi preciso que o PT se atolasse nos esquemas que garantiam a atração de parlamentares para a chamada base aliada. O primeiro grande escândalo, que veio a tona em 2005, o chamado mensalão, punha a nu esse antigo e velho esquema de cooptação de parlamentares mediante o financiamento ilegal de campanhas eleitorais através de caixa dois, constituído com recursos desviados das estatais, com propina paga pelas empresas em troca de acesso a realização de obras públicas ou de acesso a licitações, notadamente as empreiteiras, através de empréstimos bancários pagos com caixa dois, etc.

É aí que entra o outro elemento fundamental para entendermos o antipetismo. Essas práticas ilegais, de corrupção, eram do conhecimento até do mundo mineral, para usar uma expressão cara ao jornalista Mino Carta, mas enquanto foram praticadas pelos partidos e forças políticas pelas quais as elites empresariais, os barões da mídia, os grupos dominantes no país tinham simpatia, elas eram ignoradas e jamais foram judicializadas ou criminalizadas. O episódio do mensalão foi a primeira tentativa de se retirar o PT do poder. À medida que os grupos dirigentes brasileiros perceberam que, ao contrário do que apostavam, a gestão petista não era um fracasso, à medida que aquele presidente que consideravam analfabeto, despreparado, bronco, fazia uma gestão surpreendentemente exitosa. As forças internacionais, notadamente aquelas ligadas aos interesses norte-americanos, viam com crescente preocupação a emergência do Brasil como uma liderança entre os países em desenvolvimento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler Celso Amorim redirecionaram completamente a política externa brasileira, enfatizando o multilateralismo, a luta pela paz, a aproximação com os países da África e da Ásia, o fortalecimento das instituições latino e ibero-americanas, o fortalecimento dos laços com os países sul-americanos, recusando a participação do país na ALCA e caminhando para a criação dos BRICS e suas instituições, o que levou a uma aproximação, preocupante do ponto de vista norte-americano, com a Rússia e a China. O Brasil passou a ter assento e peso nos grandes organismos internacionais e seu presidente passou a ser o “cara”, respeitado e ouvido em todo o mundo.

O mensalão foi a primeira tentativa de alijar o PT do poder, já que havia a aposta de que o desgaste trazido pela prisão e condenação de algumas de suas principais lideranças, levaria o partido a uma derrota nas eleições de 2006. Apesar da pesada artilharia da mídia e do Judiciário já começarem a atuar em prol da formação na sociedade brasileira de uma rejeição ao partido, a favorável conjuntura econômica internacional, a habilidade política demonstrada pelo presidente Lula, que contou com o apoio no Congresso de importantes lideranças como José Sarney e Renan Calheiros – que, por isso, tiveram suas vidas devassadas pela imprensa, quando já estavam na política brasileira havia décadas, fazendo o que sempre fizeram, mas não eram molestados enquanto apoiaram os governos com quem os grandes empresários de mídia simpatizavam -, o presidente Lula conseguiu a reeleição e realizou um segundo governo ainda melhor do que o primeiro. Hoje se sabe que foi a partir desse fracasso em apear o PT do poder através do mensalão, que se começou a forjar a Operação Lava Jato, nome muito significativo pois, ao invés de se destinar, como o nome parece indicar, a lavar a corrupção do país, ela se destina, desde o início, a varrer o PT do poder. Quando do mensalão havia se poupado propositadamente o presidente Lula, que gozava de enorme popularidade nesse momento e amplo apoio político-parlamentar. Esse erro não será cometido pela Lava Jato, ela desde o primeiro momento teve como objetivo criminalizar a principal liderança do PT, a principal liderança política da esquerda, não apenas a nível nacional, mas uma das mais importantes a nível internacional. A Lava Jato foi adredemente pensada para criminalizar e prender o presidente Lula, para retirá-lo, assim, do processo político, impedindo que o PT pudesse continuar ou retornar ao poder.

O consórcio que se estabeleceu entre setores do poder Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e da grande mídia se voltou para criminalizar o PT e suas principais lideranças. O projeto era muito claro: varrer a presença do partido da vida política brasileira. Mas essa operação só foi exitosa, pela crise econômica internacional, que se instaura a partir de 2008 e, principalmente, pela equivocada gestão da economia levada a efeito pela presidenta Dilma Rousseff, notadamente em seu segundo mandato, pela sua falta de habilidade na negociação política, o que acabou por fragilizar a sua base parlamentar de apoio. Mas, temos que levar em conta que a presidente Dilma teve que surfar uma onda conservadora que se espalhou pelo mundo, fruto da crise sistêmica do capitalismo, que gera enorme insegurança existencial, que agudizou os conflitos geopolíticos, incentivando a intervenção externa, notadamente norte-americana nos negócios internos de vários países. O episódio de espionagem da Petrobras, que com a descoberta do pré-sal passou a ser motivo de cobiça dos grandes conglomerados do petróleo, a espionagem da própria presidenta, mostra que os acontecimentos de 2013, um movimento de contestação ao aumento das passagens de ônibus urbanos, que de repente se transforma num grande movimento de contestação ao governo federal, ainda estão por ser melhor explicados. Eles não apenas explicitam descontentamentos das forças desalojadas do governo pelo PT, como de setores sociais que veem seus interesses atingidos pelas políticas levadas a efeito pelos governos petistas e não descartamos a interferência de forças internacionais descontentes com os rumos dados ao país.

Sabemos que o antipetismo tem como uma de suas componentes não os erros do PT, mas seus acertos, que desagradou forças poderosas no país, que conseguiram paulatinamente, com a ajuda cotidiana da imprensa, espalhar esse descontentamento para as camadas médias da população, para as próprias classes médias que emergiram graças as políticas de distribuição de renda promovidas pelo PT. Num processo de mobilidade social amplo e rápido, como o que foi promovido pelo PT, as tensões sociais crescem, aqueles que veem seus lugares tradicionais e de privilégio ameaçados, reagem, os desequilíbrios regionais afloram, a luta de classes atinge um momento de ebulição e confrontação. O próprio discurso do PT, enfatizando o caráter popular de seus governos, o próprio nome do partido, seus símbolos e cores que remetem para o campo da esquerda, fazem com que setores privilegiados da sociedade com ele não se identifiquem, não identificação que se torna hostilidade, raiva, ódio quando medidas tomadas pelo partido parecem beneficiar outros setores sociais que não eles mesmos. O crescimento da participação dos trabalhadores na renda do país, com o aumento acima da inflação do salário mínimo e da massa salarial, faz dos empresários inimigos desse governo e desse partido, mesmo tendo taxas de lucros em seus negócios como em pouco tempo se viu. O apoio a pequena produção, as políticas voltadas para a reforma agrária, para o reconhecimento das terras de indígenas e quilombolas, faz dos grandes proprietários de terra inimigos do governo, mesmo recebendo dele um crescente investimento através dos planos-safra. As políticas de afirmação para as populações afrodescendentes, a equiparação do trabalhador domésticos aos demais trabalhadores, a política de acesso as universidades para os mais pobres, a atração de médicos estrangeiros para suprir a falta de médicos no país, a eleição de uma ex-guerrilheira, mulher e que convoca uma Comissão da Verdade para investigar os crimes da ditadura civil-militar de 1964, foram ações mais do que concretas, ações simbólicas que mexeram com pontos nevrálgicos do imaginário e das estruturas de poder e prestígio em nível nacional, levando dadas corporações a se tornarem radicalmente antipetistas: as donas de casa de classe média, os filhos das camadas privilegiadas da população, os que se acham brancos, os homens machistas e misóginos indignados em ter que obedecer a uma mulher, os médicos, os militares e tantos outros grupos que se dispuseram subjetivamente para aceitar o antipetismo.

Mas o fenômeno mais interessante nessa eleição foi o antipetismo praticado por lideranças e pensadores que se dizem de esquerda. Para alguns analistas parecia razoável que o maior partido da esquerda, aquele que todas as pesquisas de popularidade diz ter a preferência de 30% do eleitorado, cuja principal liderança aparecia disparado a frente de todas as pesquisas, que possui uma real implantação na sociedade em todo país, que conta com o apoio de diversos movimentos sociais deveria abrir mão de ter candidato a presidência da República, para apoiar uma candidatura, como a de Ciro Gomes, sem qualquer base de sustentação na sociedade, uma candidatura saída da vontade pessoal de ser presidente da República, que para isso foi se alojar num partido de conveniência, depois de ter passado por vários outros, uma candidatura que nunca teve ou teria dimensão nacional e que não passa de 12% do eleitorado, somente porque as pesquisas, que visavam tentar impedir o registro do crescimento da candidatura de Fernando Haddad, dizia que ele ganharia de Bolsonaro no caso de um eventual segundo turno. Muitos defendiam a ideia de que o PT deveria abrir mão da cabeça da chapa para indicar um candidato a vice-presidente. Mas o que faz supor que essa chapa não sofreria os efeitos do antipetismo do mesmo jeito? Com um candidato sem implantação nacional como Ciro, colocar um petista como seu vice só iria fadá-lo, ainda mais, a uma derrota. O comportamento adotado por Ciro no segundo turno mostra todo o acerto de Lula em não ter apostado suas fichas num candidato personalista, que coloca seus interesses pessoais acima dos interesses nacionais. O que esses analistas queriam é que, já que a Lava Jato e a mídia não conseguiram destruir o PT, que ele cometesse araquiri político, que ele deixasse seu lugar de maior partido de esquerda do país voluntariamente desocupado, para que uma outra força política qualquer viesse tomar seu lugar. O PT passou a ser, curiosamente, responsabilizado, por essas pessoas, pelo antipetismo que o derrotou. O tempo todo, assim como fez a mídia conservadora, ficavam exigindo que o PT fizesse da campanha política não um gesto de afirmação, mas sim um gesto de genuflexão, de confissão de seus pecados. O PT, malhado durante anos a fio, ainda devia aproveitar o raro momento que tem acesso aos grandes meios de comunicação para se flagelar em público. Caindo na mesma estratégia discursiva das forças conservadoras, o PT, um partido composto por pessoas que cometeram delitos, mas por uma grande maioria que não os cometeu, foi tratado e pensado como um bloco monolítico, pecaminoso, a exigir o permanente pedido de perdão em público. O antipetismo não se deve aos erros do PT, se deve muito mais a seus acertos, isso é que é doloroso. Não é a corrupção que leva as associações médicas a se tornarem comitês eleitorais antipetistas, isso é só discurso de fachada, é a reação corporativa ao programa Mais Médicos, que agora é desmontado pelo presidente que elegeram, para o regozijo da classe, mesmo que a saúde da população esteja em jogo, mas quem se importa. Por que Fernando Haddad que não delinquiu havia de ficar a pedir perdão pelos erros de alguns militantes que se envolveram nos esquemas que sustentavam quase todos os partidos? Por que o PT, que é apenas o nono partido em número de pessoas condenadas por envolvimento em corrupção, tem que vestir a carapuça de partido mais corrupto, que a direita o quer impingir? Por que só o PT tem que pedir desculpas a nação, e os demais partidos atolados, em maior grau, na mesma lama não tem que fazê-lo?

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos