OPINIÃO

Entender a batalha para organizar a resistência

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Eu preferia não estar na minha pele esta noite. É preciso falar de resistência enquanto meu estômago anda embrulhado em uma mistura de sensações que vão da angústia ao medo. É que logo depois de abertas as urnas do primeiro turno, o medo passou a tomar forma nas redes e nas ruas, seja em um xingamento menor, uma ameaça virtual e até as vias de fato em estupros, linchamentos, espancamentos e assassinatos. Se tivermos que demarcar um instante para o início da ditadura neofacista, poderiamos definir o momento da morte de Moa do Katendê, na madrugada de 08 de outubro – mesmo dia em que Che Guevara foi capturado na Bolívia em 1967.

Mas se formos buscar as explicações para os resultados das urnas neste 28 de outubro, precisariamos falar de muitos temas e voltar ao tempo em, pelo menos 15 anos. Mas vamos observar a questão a partir da mídia e teremos que falar sobre o whatsapp e as ondas de desinformação, mas também precisamos falar do monopólio das comunicações no Brasil.

Coerente com sua campanha, o mito das redes sociais optou fazer o primeiro pronunciamento em uma live do Facebook – para revolta de William Bonner, que reclamava da opção do candidato, mas que não podia esconder o prazer com que narrava a derrota do Partido dos Trabalhadores (ele até veio trabalhar no domingo para isso). Além de valorizar seus 8,5 milhões de seguidores somente na rede social, Bolsonaro aproveitaria para atacar opositores e critiar a “grande imprensa”, que o teria perseguido ao longo da campanha, além de destacar as dificuldades da campanha com apenas oito segundos no horário eleitoral.

Logo em seguida, já com transmissão ao vivo pela televisão, o senador não-eleito Magno Malta comandou uma oração de mãos dadas a Bolsonaro, que reafirmou o discurso da internet, sem falar mal da “grande imprensa”, claro.

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Bolsonaro não pode mesmo reclamar da imprensa brasileira, afinal, um dos fatores que determinaram os resultados eleitorais deste ano – o antipetismo – foi meticulosamente reverberado pelas quatro principais redes de televisão desde o primeiro governo Lula, com as críticas ao programa Fome Zero, aos projetos de mudanças na Ancine e da criação do Conselho Federal de Jornalismo. Naqueles momentos, ainda haviam petistas que acreditavam que teriam as emissoras de televisão como aliadas pelo simples controle da verba publicitária.

Aí vieram as escandalosas manchetes sobre o Mensalão, em 2005, mostravam os detalhes do que seria, segundo a grande imprensa, “o maior escândalo de corrupção do país”, quando apresentadores liam dramaticamente que o PT teria praticamente inventado a corrupção em terras tupiniquins. Os ataques continuariam sem que o governo adotasse qualquer medida para a transformar o cenário midiático do país. Os governos petistas sequer aumentaram a concessão de licenças para emissoras comunitárias.

A reeleição de Lula e as eleições de Dilma foram verdadeiras batalhas contra o domínio das grandes redes de televisão. A cobertura estava longe de ser equilibrada e a todo momento se recuperavam os casos de corrupção e os associavam diretamente ao PT. As vitórias petistas em 2002, 2006, 2010 e 2014 já davam sinais de que o poderio das empresas de mídia não era mais absoluto e cada vez mais, as redes e mídias digitais ganhavam relevância.

Mesmo assim, o governo Dilma preferiu engavetar o projeto de lei que criaria um marco regulatório para o setor, talvez por medo de ser tachado de autoritário, por medo de não suportar uma crise midiática. E eis que as crises midiáticas tornaram-se uma constante. E não havia vozes marjoritárias para contrapor a verdade do Jornal Nacional e seus congêneres no controle remoto – que chegou até a ser apontado como a melhor forma de regulação para o setor.

Em 2013, não adiantava mudar de canal. As manifestações de rua contra o aumento dos transportes começaram a ser ocupadas pelo verde e amarelo da seleção e nenhum canal era capaz de explicar o fenômeno – era tanta coisa junta que nem cabia num cartaz. A estratégia era botar tudo na conta do PT. Nas redes, experiências como as da Mídia Ninja e até do MBL apontavam para a nova arena de disputa política. Mesmo assim, Dilma conseguiu a reeleição em 2014. Veio o Golpe e mais ódio destilado contra o PT.

Chegamos nas eleições de 2018 sob o signo do Whatsapp. Não só dele, mas de todas as redes sociais que mapeiam nossos hábitos, gostos e preferências políticas. Enquanto os partidos negociavam cada segundo na televisão, as equipes de Bolsonaro vasculhavam as toneladas de dados disponíveis na rede e garimpavam centenas de milhares de números de telefones para formar uma grande rede de distribuição de desinformação. Associe tudo isso a uma dose generosa de, digamos, flexibilidade ética e você tem a máquina perfeita para definir os rumos de uma eleição.

Não foi uma ideia original de Bolsonaro. Claro que não. A máquina já foi testada em outros processos eleitorais ao redor do mundo. A novidade é que, no Brasil, ao invés de disseminar informações falsas em redes públicas, como o Facebook, preferimos o whatsapp – que trazia uma série de vantagens no território brasileiro.

A primeira delas é a capilaridade. O aplicativo está instalado em mais de 140 mil aparelhos aqui no país. Tem muito mais penetração que as redes sociais como o Facebook e o Linkedin. É muito mais simples de usar, não tem dezenas de telas, funções e aplicações. São apenas conversas com pessoas conhecidas ou em grupos. Não tem algoritimo para limitar o alcance. Basta ter uma rede de contatos e uma mensagem cativante para que ela atinja um grande número de pessoas. É familiar, a mensagem, por mais que tenha circulado por muitas mãos, sempre chega por algum conhecido, alguém familiar, alguém em quem já confiamos.

Tem ainda um detalhe pouco discutido. A prática do Zero Rating – que é quando a operadora não cobra pelo uso da internet em determinados aplicativos – fez com que o whatsapp funcionasse mesmo depois que os créditos acabavam. E isso, nenhuma outra rede social poderia oferecer.

Agora, é hora de aprender a usar essas ferramentas para fazer oposição e resistência contra as atitudes facistas. Não precisamos usar fake news. Não precisamos roubar números de telefones, mas precisamos dominar essas ferramentas e encontrar as brechas que vão nos levar à linha de frente desse combate.

É hora também de encontrar alternativas. As redes privadas das grandes empresas não são a única arena de disputa. Talvez seja a hora também de reinventar nossas práticas digitais e buscar mecanismos mais democráticos e abertos, baseados na solidariedade e não no lucro. É lá onde vamos, de fato, nos organizar.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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