OPINIÃO

Entre a doce vingança do “Eu avisei” e a necessidade de dialogar

Claro que nós todos sabíamos que Bolsonaro era, além de machista, misógino, racista e homofóbico, também despreparado, emocionalmente instável e intelectualmente limitado. Que seu Governo seria entre chuvas e trovoadas, crises e bizarrices, emulando (piorado, claro) o pitoresco e não concluído Governo Collor, eleito em 1989, empossado em 1990 e ´impichado` em 1992.

Mas também não imaginávamos que o Governo do “mito” mostraria níveis estratosféricos de despreparo, intrigas internas precoces e crises tão rápidas, incluindo um ministro exonerado com 4 dias de Governo e trocas de acusações entre o mesmo ministro e um dos filhos do presidentes. Os ´Bolsofilhos`, aliás, mostram um grau de imaturidade política que surpreende até os maiores desafetos deles. Enfim, o Governo Bolsonaro é muito pior do que imaginávamos e com riscos reais de não chegar ao fim do ano (ainda mais com um vice-presidente – Mourão – falastrão e ambicioso).

Neste cenário, já surgiu, com menos de dois meses de gestão, a figura do “bolsominion arrependido”. Tanto no imaginário dos esquerdistas quando na prática, como se denota observando com atenção as redes sociais de Bolsonaro e, principalmente, dos filhos deste. Questionamentos e indignações que na campanha eram impensáveis agora pipocam diariamente nas redes deles, vindo de pessoas que trabalharam para o “mito”, que pediram votos, se empenharam, brigaram com amigos e familiares para tal.

E neste ponto pretendo me deter agora. Com tantos arrependidos (entre bolsominions juramentados e eleitores circunstanciais de Bolsonaro, figuras diferentes como expliuqie aqui em texto anterior) é uma tentação para quem é esquerdista/progressista, não se “vingar” dos eleitores do Bolso com o já famoso “Eu Avisei”, cuja hastag #EuAvisei volta e meia sobe nas tranding topics. Enfim, o desejo de “se vingar”, “esfregar na cara”, “botar pra fora” toda a mágoa guardada em uma campanha traumática e polarizada, é humanamente compreensível e perfeitamente perdoável. Como criticar quem agora esfrega as crises do BolsoGoverno na cara do tio chato e fascista que passou a campanha dizendo “Melhor Jair se acostumando?”. Como condenar quem agora ironiza a tia do Zap que mandava fake news sobre kits gays e mamadeiras de piroca?

Mas, se é humanamente compreensível essa postura da militância, politicamente, trata-se de um erro.

Afinal, e isso já foi escrito e analisado, os eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018 não são em sua totalidade radicais conservadores, homofóbicos, racistas, machistas. Assim como os eleitores que deram a vitória a Lula e Dilma duas vezes cada não eram necessariamente em sua maioria progressistas socialistas.

Milhões de pessoas votaram em Bolsonaro por circunstâncias atípicas e sazonais: AntiPetismo, efeito manada, efeito das fake news pelo Zap, ilusão com soluções para acabar com a violência, e muitos outras razões, o que não significa que votarão no “capitão” em qualquer outra eleição, sob circunstâncias diferentes.

Não cabe, portanto, tratar a todos os eleitores e eleitoras de Bolsonaro como “bolsominions fascistas que merecem nosso deprezo”, e, por isso mesmo, alvos de ironias, memes e do inevitável “Eu Avisei”.

É um contingente considerável de pessoas que se forem tratadas com educação e respeito e convidadas a reflexão sobre as contradições do voto dela e dos direitos que estão sendo retirados, podem mais à frente engrossar as fileiras pedindo a queda de Bolsonaro (aconteceu com Collor) e podem votar de maneira menos passional em 2020, nas eleições municipais que serão de extrema importância para 2022.

Portanto, não parece ser hora de uma “vendetta” contra os eleitores do “mito”. Mas, hora de separar o joio do do trigo. Dos bolsominions militantes com propensão para o fascismo, com estes sim, impossível manter diálogo, dos eleitores circunstanciais, que mudam de opinião e de voto de acordo com as idiossincrasias do momento.

Prova maior disso é, aqui em terras potiguares, o imenso número de pessoas que votou em Bolsonaro para presidente e na petista Fátima Bezerra para governadora. Milhares de pessoas que votaram em um não por ser fascista e em outra não por ser progressista, mas cravam o voto em ambos para ver se eles mudam “isso que está aí”.

É assim que a coisa funciona, que a política anda. Menos vingança e deboche então e mais tentativas de restaurar as pontes partidas na eleição passada. Afinal, vem muita coisa pela frente e em política, é melhor perder a piada do que o amigo. Ou o voto do amigo.

 

 

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