OPINIÃO

Entre malucos e cachaceiros

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Ah, as palavras…

Eu sempre fui apaixonada pelas palavras. Lembro perfeitamente o estranhamento que sentia quando, ainda não alfabetizada, folheava o livro escolar da minha irmã mais velha e, deslumbrada, queria possuir a chave que me abriria as portas para o mundo mágico que aquelas garatujas estavam a me esconder.

Mais tarde, durante minha formação profissional, fui aprendendo que as palavras não são nunca inocentes (para evitar a palavra “neutras”, cuja conotação me dá arrepios…). Elas nunca são vazias de significação, o que está para além da semântica das línguas. Eivadas de sentidos ideológicos, imaginários e identitários, as palavras revelam muito sobre uma cultura, uma sociedade, um grupo, uma pessoa.

A propósito disso, tod@s acompanhamos a polêmica da semana passada entre as declarações de Lula e de Bolsonaro. Primeiramente, em entrevista (quase) coletiva, o ex-presidente afirmou que o país está sendo governado por um “bando de malucos”. Ao que teria replicado o outro, numa espécie de auto-sabotagem (já que sua resposta fez pressupor que Lula está certo), que isso seria melhor que um “bando de cachaceiros”.

Fiquei pensando… Primeiramente, não gosto de argumentos que se baseiam na simples desqualificação do adversário (o que se chama em retórica de argumento “ad hominem”). É claro que muitas vezes, diante de um debate absurdo, o melhor seria silenciar ou mandar o outro se foder de uma vez. Mas se for para ir no cerne da argumentação, me ocorreu perguntar: por que esses senhores creem que “malucos” e “cachaceiros” são atributos pejorativos?

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Vou mais uma vez falar com o apoio de Michel Foucault, um filósofo que faz a minha cabeça e mobiliza minhas ações. Em livros como “História da Loucura” e “O nascimento da clínica”, o pensador francês discorre como a loucura, enquanto objeto também discursivo da modernidade, foi sendo produzida a partir de um conjunto de condições de possibilidade. O louco da carta do Tarô não é o mesmo do romance “Um estranho no Ninho” e dentre as condições que estão nessa descontinuidade se incluem, dentre outros elementos, o desenvolvimento das ciências “psi” e a necessidade, pelo Estado, de criar equipamentos para reclusão de figuras “indesejadas”: transtornados, homossexuais, vagabundos e párias em geral. Em outro de seus livros, “A ordem do discurso”, Foucault mostra como a dissociação entre loucura e razão se manifesta como procedimento de controle dos discursos e sujeitos. Assim, afirmar que alguém é louco (e suas variantes, como maluco, desequilibrado, histérico etc.) implica, em alguma medida, uma relação de embate e de poder. E seu uso pode ser, sem que se perceba, fruto de um embate historicamente assimétrico e opressor.

Eis então mais um round: o atual presidente cai também na cilada de desqualificar (aliás, é bem típico dele e de sua turma não argumentar com substância, mas sim cair na simples e grosseira ofensa) e se posiciona contrário aos “cachaceiros”. Que feio, não é, Jair? Afinal, para os paladinos da “moral e dos bons costumes”, ingerir bebidas alcóolicas não é um hábito bonito nem saudável, ainda que Jesus, segundo a Bíblia, tenha transformado água em vinho, ainda que exista uma tese científica de que o desenvolvimento da agricultura tenha tido como motivação principal a produção de bebidas advindas da fermentação (uva, cevada, mandioca etc.), ainda que em toda cultura e mito religioso haja um arquétipo do ser-ébrio, que em qualquer país é possível rir com uma piada de bêbado, que há uma grande economia e mercado implicados por seu uso, que não haja festividade e celebração nesse mundo sem sua ingestão.

Sim, as palavras nunca são inocentes. Que o digam “denegrir”, “judiar” ou “filho da puta”. Mas entre o desconhecimento do viés histórico e o moralismo hipócrita, meu coração continua vermelho.

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