DEMOCRACIA

Entrega da comenda Emmanuel Bezerra vira ato em defesa da democracia

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A entrega da comenda Emmanuel Bezerra aos ativistas e entidades do Rio Grande do Norte que lutam em defesa da democracia e da juventude virou um ato pluripartidário em solidariedade às vítimas da ditadura militar e em defesa do Estado democrático de Direito. Ao todo, 14 pessoas e cinco entidades foram homenageados.

A entrega da comenda foi uma proposição da vereadora Divaneide Basílio (PT), mas a solenidade contou ainda com a presença de Fernando Lucena (PT), Maurício Gurgel (PSOL), Kleber Fernandes (PDT), Felipe Alves (MDB), Raniere Barbosa (Avante) e Robson Carvalho (PMB).

A governadora Fátima Bezerra recebeu a homenagem em nome de todos os vereadores da Casa.

Anfitriã do evento, Divaneide Basílio destacou que a entrega da Comenda foi um momento de reafirmar o compromisso de quem estava ali com a democracia, independente do partido, instituição ou ideologia política.

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“A comenda Emmanuel Bezerra é muito simbólica e importante para a democracia, para homenagear estudantes e lutadores da democracia e de toda luta pela juventude, pelos direitos estudantis e nesse momento em que o país vive tantos retrocessos é importante que a gente discuta diariamente a importância dos direitos da juventude, dos direitos estudantis e dos lutadores pela democracia. Portanto, na Câmara Municipal não poderíamos fazer diferente e sim reforçar essa comenda e a luta diária dessas pessoas que lutam pela democracia no nosso estado”, disse.

A governadora Fátima Bezerra (PT) foi escolhida como homenageada por todos os vereadores da Câmara Municipal (foto: Vlademir Alexandre)

A governadora Fátima Bezerra fez uma defesa firma da democracia e voltou a questionar a legitimidade do julgamento do ex-presidente Lula, preso desde abril de 2018, especialmente após as mensagens trocadas entre os procuradores da força-tarefa da Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro.

– Lula não está preso por ter cometido crime nenhum, mas po ter feito muito pelo povo brasileiro. Que a ele seja dado julgamento justo e isento. As mensagens reveladas pelo site The Intercept estão escancarando a farsa que é a prisão injusta do presidente Lula, que faz parte do cenário de outra infâmia que foi aquele impeachment fraudulento que arrancou do poder uma presidenta legitimamente pelo povo brasileiro”, destacou.

Fátima ressaltou o compromisso do governo do Rio Grande do Norte com a democracia:

 – A história tem que ser contada de forma verdadeira pra que a gente possa se fortalecer cada vez mais. Temos compromisso com nosso país e com nossa juventude. Com o Rio Grande do norte, com o nordeste. Foi por um mundo justo que Emanoel lutou”, lembrou.

O projeto “Na Trilha da Democracia”, idealizado pelo Adurn-Sindicato também recebeu a comenda. O presidente da entidade Wellington Duarte agradeceu a homenagem e defendeu a universidade pública, vítima de ataques pelo governo Bolsonaro:

– Estamos lutando pelo conhecimento, pela ciência, pela tecnologia e pela Educação contra um governo que é medieval, obscurantista, que quer levar o Brasil para as trevas. Por quê caçar a ciência e a tecnologia é levar esse país para onde ? A UFRN representava até 2017 13% do orçamento do governo do Estado do Rio Grande do Norte e nós que estamos com 400 mil desempregados no Estado precisamos defender as universidades. Mais do que defender a carreira dos professores, o Adurn-Sindicato está na defesa das universidade do país”, afirmou.

Outro depoimento emocionante foi o do servidor público Arthur Santa Cruz, irmão do estudante de Direito Fernando Santa Cruz, morto pela ditadura militar e que recentemente foi relembrado em tom de deboche pelo presidente da República Jair Bolsonaro.

– O que aquele presidente falou não doeu apenas na família Santa Cruz, mas nas famílias de todos os brasileiros que acreditam na democracia”, disse, antes de relembrar histórias do irmão assassinado aos 26 anos de idade.

Comenda Emmanuel Bezerra foi entregue a 14 pessoas e cinco entidades (foto: Vlademir Alexandre)

O presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) Pedro Gorki também recebeu a comenda e comparou os ideias de Emmanuel Bezerra com as lutas encampadas atualmente pela juventude brasileira:

“É uma honra ganhar uma comenda por nome de Emmanuel Bezerra, que foi estudante secundarista e também presidente da Casa do Estudante e foi assassinado na década de 70, porque defendia os mesmos temas que eu defendo hoje, educação, liberdade, democracia, construção de um país digno para todos os brasileiros. Ganhar essa comenda é reafirmar a nossa luta inquestionável pela democracia”, afirmou.

Quem era Emmanuel Bezerra dos Santos

Emmanuel era natural de São Bento do Norte. Quando veio para Natal em 1961, passou a estudar no colégio Atheneu e morou na Casa do Estudante. Com outros colegas, fundou na escola o jornal O Realista, que denunciava as injustiças e a miséria da época. Já durante a ditadura, fundou “O Jornal do Povo”, publicação libertária com distribuição em vários municípios do Estado.

A atividade política de Emmanuel se intensifica a partir da segunda metade dos anos 1960, quando passa a integrar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), sendo um dos principais articuladores e teóricos da Luta Interna na sigla. Ele só deixa o PCB em 1967 para incorporar-se no Partido Comunista Revolucionário (PCR).

Com a edição do temido Ato Institucional no. 5, em 1968, Emmanuel é preso pela primeira vez, em dezembro de 1968. Julgado e condenado por um tribunal militar, cumpriu a pena até outubro de 1969 em quartéis do Exército, Distrito Policial e finalmente na Base Naval de Natal.

Libertado, o estudante vai para a clandestinidade onde atuou politicamente (já como dirigente nacional do seu partido) nos Estados de Pernambuco e Alagoas. Nesse período, realizou viagens para o Chile e Argentina em missão do partido, buscando aglutinar exilados brasileiros à luta em desenvolvimento no país. Além de militante político, Emmanuel era uma pessoa voltada para a arte e cultura, tendo participado dos movimentos artísticos desenrolados na capital Natal.

Emmanuel seria preso novamente em 4 de setembro de 1973, às 8h30, no Largo da Moema, São Paulo, quando voltava de uma viagem no exterior.

Conduzido para o DOI-CODI do II Exército, foi torturado brutalmente até a morte, junto com o seu companheiro Manoel Lisboa de Moura, preso em 17 de agosto em Recife. A necrópsia foi realizada pelo legista Harry Shibata, que não detectou sinais de violência.

Em fotografia recuperada pelas entidades de direitos humanos, porém, fica evidenciada a violência sofrida por Emmanuel: seu olho esquerdo ficou visivelmente inchado, seus lábios também estavam intumescidos, a testa apresentava ferimentos, a base do seu nariz estava quebrada, o lábio inferior foi cortado e em volta do seu pescoço desenha-se um colar de morte, como se tivesse sido feito a fogo. Emannuel foi sepultado, ao lado de Manuel Lisboa, no cemitério de Campo Grande, como indigente.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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