OPINIÃO

Éramos felizes e não sabíamos

Recebi em grupos de zap uma postagem que mostrava foto de 15 anos atrás onde o então governador de São Paulo José Serra aplicava uma vacina no então presidente Lula, como apoio à campanha estadual e nacional de vacinação de adultos. Sim, Serra tucano do PSDB liberal e ligado ao Mercado Econômico, e Lula fundador do PT, progressista e com pauta pró-Estado forte. Adversários políticos. Que se enfrentaram nas urnas diretamente e indiretamente. Talvez até se detestassem e ainda não se gostem. Mas estavam lá sorridentes e unidos em uma campanha pela saúde pública.

Idos tempos. Recordo também, e isso foi muito noticiado, da visita de FHC a Lula no velório de Dona Marisa e na anterior ida de Lula abraçar FHC no velório de Dona Ruth. Também se enfrentaram nas urnas várias vezes. Tinham suas rusgas, farpas e invejas. Mas, como autoridades e cidadãos estavam lá para chorar a dor do outro, mesmo sendo adversário de décadas. É civilidade que chama.

Pois é, por falar nisso tudo durante vinte anos vivemos uma espécie de Fla x Flu político no embate presidencial, o PSDB x PT. Mais exatamente de 1994 a 2014. Começou com FHC e Lula e terminou com Aécio, este, a pá de cal na civilidade e naquele acordo tácito entre tucanos e petistas de não agredir abaixo da linha da cintura.

Aécio ao não reconhecer a vitória de Dilma e insinuar fraude nas urnas, em um rancor e vulgaridade bem pouco tucanos, abriu a caixa de Pandora do ódio político que desaguaria no impeachment de Dilma, em Michel Temer, na prisão de Lula e no caldo político e social que possibilitou a eleição de Bolsonaro.

A partir daí, a civilidade foi riscada do dicionário político brasileiro.

Para o bolsonarismo, como para a extrema-direita de maneira geral, não existem adversários. Existem inimigos que devem ser eliminados. Exterminados. Varridos. Como Hitler com os judeus, como a Revolução Islâmica com os “infiéis”, os diferentes não merecem qualquer contato, aproximação ou mesmo piedade.

O bolsonarismo vem agindo desta forma até como combustível da sua militância fanática-aloprada, cerca de 15% da população, a chamada “ala olavista” do Governo. Esse pessoal mantém acesa a chama do “combate ao comunismo” e vê nos adversários inimigos odiosos. Não obstante a já destruída liturgia do cargo e a tal aproximação com os poderes e o “Centrão” Bolsonaro e seu entorno (os filhos toscos e gente como Ernesto) age como se estive numa guerra (e eles até estão, na tal imaginária “guerra cultural”).

Tivemos uma das muitas demonstrações disso com a recusa de Bolsonaro de visitar a governadora Fátima Bezerra ou mesmo convidá-la para a agenda – como é de praxe no Brasil mesmo entre adversários – quando da visita dele ao Rio Grande do Norte, expediente incivilizado que o despresidente fez com quase todos os governadores.

É isso. Certamente demoraremos anos, décadas, para retomar a civilizada no já saudoso confronto entre tucanos x petistas, que acontecia de quatro em quatro anos, como uma Copa do Mundo, com farpas sutis, debates transmitidos pela tv com Educação e cordialidade e imagens como a de Lula e Serra aos risos. Um Brasil que não nos pertence mais, que parece desaparecer na fumaça do ódio e da intolerância. Éramos felizes e não sabíamos. Ou até sabíamos, mas, enfim, não conseguimos manter.

Vida que segue.

 

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