OPINIÃO

Eros e a prática educativa

Essa semana duas situações muito especiais me marcaram a vida e me levaram a um misto de alegria e entusiasmo com angústia e tristeza. Como sentimentos tão dispares podem ser despertados em relação a mesma situação? O paradoxo da vida!

A primeira foi a chegada de minha primeira dose da vacina contra o COVID19. Apesar de ser professora e constar nos grupos prioritários, me vacinei por idade, aos 55, tendo em vista que a prefeitura da minha cidade depois de passadas semanas de ter recebido o lote para os trabalhadores da educação, ainda não tem um calendário claro para o segmento. A alegria e o entusiasmo veio junto com o líquido que injetaram no meu braço. Postei em minhas redes a foto e uma enxurrada de estudantes e ex-estudantes dividiram comigo essa alegria.

Senti que há uma luzinha no final do túnel dá uma enorme esperança! Uma sensação de retorno ao presencial proximamente de encheu de calor. Já disse aqui o quanto tem me feito falta a sala de aula real, com gosto e cheiro, caras e corpos, burburinhos e silêncios!! No entanto, me ocorreu imediatamente a imagem dos rostos de nossos estudantes. Eles são jovens, e a fila está longa para a vacina chegar a eles. Me enchi de tristeza. Como poderemos voltar ao presencial se eles não forem vacinados? Detestaria saber que posso, mesmo vacinada, levar o vírus àqueles que são o meu par na dança educativa.

Além do descaso local com a categoria dos trabalhadores da educação, temos o descaso nacional com toda a população e a CPI instalada no senado tem mostrado que houve uma premeditação em expor dessa maneira a população. O obscurantismo negacionista que buscou a imunidade via contaminação e um sadismo econômico em eliminar aquilo que consideram o peso da economia: os velhos, os pobres, os homossexuais, as mulheres e no meio desses estão os professores. Assim não se dizimou 30.000 como queriam em discursos feitos, mas mais de 500.000 (haja visto as subnotificações), podendo chegar a 1 milhão ao final de 2021.

Provocou também um abismo educacional que deveremos levar anos para superar e, no caso das universidades, não só a queda na qualidade do ensino devido ao modelo remoto e a exaustão com tantas dores vividas, mas seu desfinanciamento o que leva, além do empobrecimento dos servidores devido ao congelamento dos salários, a impossibilidade de manter a política de permanência dos estudantes para continuidade de suas formações. Estuantes que tem sofrido bastante, não só com as condições de vida na pandemia, mas com a própria dificuldade de aprender nesse contexto tão inóspito! No qual as relações pessoais são dificultadas pela ausência da presencialidade, do corpo cheio de mente e da mente cheia de corpo, numa relação afetuosa de descobertas e conhecimento que é a natureza da aprendizagem. Só com a presencialidade de Eros na relação de aprendizagem é possível fazê-la efetiva e crítica! Sempre pensei isso com relação a minha docência!

A segunda situação me levou a refletir justamente sobre essa dimensão dos afetos, em especial o prazer, na prática pedagógica. Temática tão silenciada na academia, talvez por parecer que ao trazermos o prazer e a alegria para a construção do conhecimento acadêmico, possamos lhe retirar a seriedade e rigor. Pois foi no texto “Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade”, da autora estadunidense e freiriana, Bell Hooks, que me foi apresentado por duas mestrandas no meu recente estágio de pós-doutoramento, que vi essa minha intuição ser partilhada por ela.

Nesse texto ela, como eu, trata das questões da docência universitária que encontrou em seu caminho ao querer ser escritora. Eu sempre afirmei que meu caminho era o da militância académica, que era por ela que eu realizava, por meio de meu trabalho, meu maior prazer: apresentar caminhos para que outros possam ser o melhor de si ao mesmo tempo que se tornam profissionais íntegros e comprometido com a população de nosso país. Pois a Hooks me deu uma expressão melhor para falar disso: “pedagogia engajada”.

Expondo de cara a base do pensamento de Freire, engajado e amoroso pedagogicamente, a pedagogia engajada é essa forma de luta e produção do conhecimento que não permite que nenhuma parte de nós fique fora do processo. Que entremos inteiros com nossas histórias, afetos, contextos de pertencimento, gênero, etnia, vozes e prazeres.

Lembrei de nossas salas de aula e de nossos estudantes mais uma vez. De seus depoimentos de silenciamentos, preconceitos, desacredito, tudo porque internalizamos um modelo de academia eurocêntrico que exclui o corpo da intelectualidade e o prazer da racionalidade. E daí não pude deixar de me entristecer ou pensar em quanto a academia pode ser excludente e pouco científica ao negar quem somos e a riqueza da diversidade humana que nos forma enquanto povo, nação e inteligência!

Mas ainda bem que as mestrandas que frequentaram meu curso no meu estágio doutoral me apresentaram a Hooks. Que me fez sentir acompanhada nessa certeza de podemos sim estar apaixonados enquanto formamos outras pessoas e isso traz alegria e facilita em muito o processo de aprendizagem. Proporciona harmonia ao par dançante (docente e discentes), nos constituindo e sendo constituídos pela música formativa que nos conduz. Mas sei que esse tipo de docência sempre é meio suspeita. Por que a consideração dos afetos é sempre colocada em contraposição a objetividade necessária para a atividade de formação acadêmica e essa interpretação falsa vem da crença de que a educação é neutra. Como Paulo Freire nos advertiu muitas vezes, o ato educativo é sempre implicado com quem formamos, para que formamos e a serviço do que formamos. Me junto a Hooks ao afirmar que enquanto professores universitários precisamos resgatar “o lugar do Eros dentro de nós [em nossas salas de aula] e permitamos assim, que mente e corpo sintam e conheçam o desejo”.

 

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