OPINIÃO

Especialistas em tapinhas nas costas

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais

Em seu livro “Recomendações a todos”, o escritor Alex Nascimento conta sobre o dia a dia de um hospício onde uma das enfermarias tem na entrada uma placa indicativa onde se lê: “Classe Média”. Ao visitar o local, o narrador da obra recebe a seguinte explicação do doutor que o ciceroneia: “as pessoas da dita enfermaria não eram pessoas de muita classe e, para não ofendê-las tanto, chamando-as de sem classe, a diretoria central foi complacente e batizou de ‘Classe Média’.”

Sobre os pacientes desta ala do hospício, o médico continua sua descrição: “Os doentes aqui da ‘Classe Média’ são extremamente simpáticos, mas nós detectamos, através de aplicações de raio laser, que esta simpatia tem um enorme componente de falsidade associada a uma irreversível perda de caráter e personalidade. Têm no trabalho a razão principal da vida, não pelo trabalho em si, mas no quanto aurificamente o trabalho lhes pode dar. São uma espécie idiota de colecionadores de dinheiro;… Adoram papo sobre repartições, empresas, loteamentos, correção monetária, liderança no trabalho e só abrem exceção se for pra falar de ‘quem está comendo quem’. São especialistas em tapinhas nas costas e têm pelos seus chefes uma subserviência canina.”

Poucos parágrafos são capazes de definir tão fidedignamente a tal classe média natalense quanto o reproduzido acima. Porque os nossos “classudos medianos” passam a vida se equilibrando numa corda bamba imaginária que levaria à ascensão social em caso de se chegar ao fim do trajeto ou produziria a queda, a ruína, a miséria se houvesse um passo em falso que fosse. O mesmo Alex Nascimento, na mesma obra supracitada, diz que “as pessoas de classe média não sabem se têm mais medo de ficar pobres ou vontade de ficar ricas”. Como uma autodefesa, um desenvolvido instinto de sobrevivência, o cidadão médio devota toda a sua admiração e dedicação àqueles que estão acima de si na pirâmide social: os homens e mulheres da elite local. É por eles que os olhos dos nossos medianos brilham, é pensando neles que se traçam metas, elaboram-se objetivos, perseguem-se ideais de sucesso. É projetando em si a imagem deles que textos indignados são redigidos em redes sociais, panelas são batidas, patos infláveis são arrematados.

Nitidamente, o sonho de princesa da nossa classe média é ganhar mais dinheiro, ter sobrando o que hoje lhes falta, usufruindo de todas as benesses que uma inédita folga pecuniária poderia lhes proporcionar. Para eles é com um misto de desalento e esforço motivacional que dão uma brechada no Instagram dos mais abastados, gente que anda em carros importados, embalando bolsas caras e que ostenta sobrenomes ilustres, tradicionais. Querem as viagens regulares à Europa ou a Miami (uma espécie de Meca contemporânea brasileira), os jantares frequentes nos points da cidade, os convites para festas exclusivas, os acessos irrestritos a camarotes mil, a pulseirinha VIP como parte indissociável da anatomia.

Alcançar o lindo sonho dourado de viver nesta utopia moderna justifica tudo. Pouco importa se a elite econômica potiguar, tão venerada e invejada, é composta por pessoas cujos talentos específicos se resumem, em geral e respectivamente, a uma única atividade (de enorme rentabilidade, é bem verdade). Trata-se de uma classe tão rica de dinheiro quanto pobre de conteúdo, de contas bancárias que parecem um poço sem fundo de tantos fundos a lhes abarrotar, mas rasa de conhecimento abrangente, analfabeta cultural que lhes pilha a sensatez e esvazia a essência. Os ricos conterrâneos alternam uma prodigiosa inteligência dirigida, voltada exclusivamente para os seus negócios, com uma notável ignorância periférica tão proeminente que lhes faz sentir-se desconfortáveis em ambientes diversos. O ar se mostra por demais rarefeito fora de suas bolhas, longe de suas zonas de conforto, distante dos monotemas cotidianos. Tudo é muito estranho quando o dinheiro não está no foco das atenções.

Entretanto, tais características inerentes à condição de abastado natalense se mostram insignificantes a tal ponto que a classe média já se põe a imitar a parte que lhe cabe: o culto à estupidez, uma vez que não podem copiar os hábitos por escassez de recursos. Tal síndrome de espelho produz o comportamento descrito no livro de Alex Nascimento.

Porque a vontade de ter dinheiro a qualquer custo, leva os da ‘média classe’ a se mostrarem “extremamente simpáticos, mas com um enorme componente de falsidade associada a uma irreversível perda de caráter e personalidade”. O desejo de acumular capital faz com que “tenham no trabalho a razão principal da vida, não pelo trabalho em si, mas no quanto aurificamente o trabalho lhes pode dar”. O sonho de riqueza conduz a conversações estéreis sobre “repartições, empresas, loteamentos, correção monetária, liderança no trabalho, e só abrem exceção se for pra falar de ‘quem está comendo quem’ (que eles chamam eufemisticamente de ‘chafurdos’)”. A dedicação os guia à condição de “especialistas em tapinhas nas costas que têm pelos seus chefes uma subserviência canina”. São capazes de defender aqueles que podem lhes dar uma migalha à guisa de oportunidade, fechando os olhos para eventuais falhas, desvios éticos, desonestidades e partindo pra cima, como bons cães de guarda a qualquer um que ouse criticar a mão que lhes alimenta.

A verdade é que podemos sintetizar tal comportamento com a frase “São uma espécie idiota de colecionadores de dinheiro.” Pena pra eles que, em tempos de crise, tenham tão pouco a colecionar.

 

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras