CULTURA

Espetáculo “Meu Seridó” é selecionado para o Palco Giratório


O espetáculo “Meu Seridó”, da companhia potiguar Casa de Zoé, vai representar o Rio Grande do Norte no principal projeto de circulação do país na área de teatro: o Palco Giratório do Sesc. Serão 55 apresentações por 21 estados e 46 cidades diferentes brasileiras.

O grupo divulgou a seleção pelas redes sociais do grupo:

 – Só amor ao SESC pela curadoria ao nosso espetáculo e pela continuidade deste projeto tão importante para o Brasil. O Palco Giratório é um sonho para quem produz artes cênicas, e nos sentimos muito honrados pela oportunidade de levar a história deste pedaço de chão do Seridó para as cinco regiões do país.

Meu Seridó tem direção de César Ferrario e conta com a atriz Titina Medeiros no elenco. O texto é de Filipe Miguez (autor da novela Cheias de Charme). O figurino, a cenografia e a caracterização são assinados por João Marcelino e a iluminação é de Ronaldo Costa. 

A peça ainda conta com os talentos de Nara Kelly, Igor Fortunato, Caio Padilha – assinando também a trilha sonora – e Marcílio Amorim. A pesquisa sobre o Seridó ficou sob a responsabilidade da historiadora Leusa Araújo.

Em entrevista para a agência Saiba Mais em dezembro de 2017, Titina Medeiros, natural de Acari, falou sobre a relação dela com o espetáculo:

– O espetáculo não é sobre só o Seridó do afeto, mas o do machismo, o da desertificação, o do patriarcado. Por isso quando levei o Filipe Miguez (dramaturgo) para lá, não falamos nada, deixamos ele sentir, descobrir. Sou muito realizada com a dramaturgia do Filipe. É tanta coisa para falar que ficou algumas coisas de fora. É uma dramaturgia simples no verbo, mas complexa na construção porque é caleidoscópica… mas é uma dramaturgia popular como a gente queria. O Seridó é uma sociedade que se protege, mas tem todas as questões que o Brasil tem. O Seridó é o meu recorte do Brasil. É muito bom falar daquilo que é tão próprio seu, mas que no fundo você não está falando só de você. Saí com muito mais respeito às questões do Seridó.

Espetáculo

O sertão que vibra, pulsa e faz viver. O sertão das mulheres esquecidas e das mulheres que sonham. O não lugar, como escreveu Guimarães Rosa, o sertão que é seca e água, e é também o espaço da imensidão. Com fortes questões norteadoras, o espetáculo “Meu Seridó” traz a condição da mulher no sertão, a extinção do indígena em detrimento do boi e a desertificação, na luta diária pela sobrevivência como força bruta do ser.

Personagens como José de Azevedo Dantas, Pajé Cuó, o português Rodrigo de Medeiros, a Maria Paraibana e Josefa Menina são as personificações da história que transpassa o imaginário da região.
 
A força do texto está nos personagens, como a fala de Maria Paraibana que diz: “Tu vai crescer neste meio, no seio de nossa família. Neste arquipélago seco, cada sítio é uma ilha. Neste clima inóspito e esdrúxulo, teremos de nos bastar/Numa casa de taipa sem luxo, nem acesso ao copiar. Tu vai viver só restrita à sala das mulheres/E passar o dia e a vida tomada por mil afazeres/Rendas, bordados, costuras serão tua eterna lida”.
Para o diretor César Ferrario, a narrativa é constituída por uma linguagem de cunho popular para chegar em todas as pessoas e lugares, e tem uma estrutura que permite a montagem em ruas, fazendas, praças e diferentes paragens. “A nossa narrativa não tem um compromisso histórico. Ela tem seu início através de uma menção ao plano mítico do Seridó, onde o Sol e a Terra disputam o amor de Chuva, uma fábula muito coerente com as questões que atravessam toda a história de qualquer lugar sertanejo e seu imaginário. A partir disso, ela transita pela história do Seridó em seus espelhamentos terrenos, desde a chegada do homem andino até a vinda do vaqueiro e do português. O entrelaçamento dessas raças perpassa as história que vão sendo contadas ao longo do espetáculo”, conta César.
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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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