CULTURA

Espetáculo reforça urgência de resistir e reagir como mulheres para não morrer

A lendária rainha da Pérsia Sherazade narra os contos de As Mil e Uma Noites para se manter viva. Exercício semelhante levou a atriz paranaense Nena Inoue a encarar seu primeiro monólogo contando histórias de mulheres reais que resistiram e inspiraram o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Em “Para não morrer”, Nena incorpora uma espécie de entidade espiritual que permanece durante 60 minutos com a maior parte do corpo imóvel. Só a mão direita e a cabeça falam, resistem. A atriz faz a defesa do texto e a luz sobre o palco se encarrega de iluminar as histórias de mulheres conhecidas e anônimas, fortes e frágeis. Sobretudo, humanas.

O espetáculo faz parte da 1ª edição do Festival Internacional da Casa da Ribeira (FICA), estreou ontem em Natal e tem última apresentação nesta sexta-feira (9), a partir das 20h30, na Casa da Ribeira. A direção é de Babaya Morais e a dramaturgia de Francisco Mallman, inspirada no livro Mulheres, de Eduardo Galeano.

As mulheres retratadas na peça vêm de diferentes lugares e resistiram em momentos históricos distintos. Todas, no entanto, aparecem de forma horizontal, com a mesma estatura, uma estratégia para aproximar ainda mais as histórias do público. Rosa Luxemburgo, por exemplo, vira Rosa. E a vida segue, real e surpreendente, como a narrativa da Pacha Mama que sobe ao palco.

A agência Saiba Mais conversou com Nena Inoue antes da estreia, no Dia Internacional da Mulher. Segundo ela, a urgência que permeia Pra não morrer vem da necessidade de manter viva as histórias e a trajetória de resistência das mulheres retratadas no espetáculo.

– A Sherazade, que é uma heroína, conta uma história para se manter viva. E ela faz teatro com isso exatamente porque conta uma história para se manter viva, para que essas histórias não morram, para que essas mulheres não morram. O espetáculo é isso.

Embora as histórias sobre mulheres sejam o foco do espetáculo, Nena chama a atenção para a diversidade presente no público. Apresentado pela primeira vez em abril de 2017 em Curitiba, a capital mais branca do país, Pra não morrer se popularizou entre homens, mulheres e transgêneros.

– O público óbvio seriam mulheres de esquerda, mas pega homens, jovens, velhos, direita, esquerda, héteros, homossexuais, transgêneros… o espetáculo é popular, tem um alcance muito legal. Acho que a figura dessa entidade, essa Pacha Mama que eu incorporo e que narra as histórias, puxa para isso. Em São Paulo, o público era formado por mulheres, homossexuais, negras… e gosto quando isso acontece também porque essas pessoas estão representadas de alguma forma ali.

Nena é uma atriz militante e nos últimos 10 anos mergulhou no teatro político. Henfil já! e Murro em Ponta de Faca são dois exemplos de espetáculos que jogaram luz sobre os anos 1970 e rodaram o país com Nena no elenco. A militância da artista vai da teoria à prática. Em 2016, assim que Michel Temer assumiu a presidência da República após o impeachment da ex-presidenta eleita Dilma Rousseff, Nena Inoue estava entre os artistas que ocuparam a sede do IPHAN em Curitiba. O movimento cresceu a partir do Paraná e chegou a se estabelecer em todas as capitais do país, além de cidades-polo no interior. Sobre a experiência, Nena destaca o poder de mobilização e lamenta como tudo terminou, sem uma unidade e desdobramentos futuros.

– Temos uma capacidade incrível de construção e de destruição. Sou da militância, esse espetáculo é minha forma de militar. Acho que a ocupação dos Iphans provou que a gente consegue se mobilizar. Fizemos praticamente um festival por semana. Mas há dois anos nossa bola não está entrando, está tudo muito desarticulado. Desistimos um pouco dessa luta mais coletiva de trabalhar junto, coletivamente, como fizemos nas ocupações. Hoje a pressão é tão grande que a tampa está saindo. Estamos falando e não vamos parar. O Para não morrer é um pouco isso. Quero que essas mulheres de antes contaminem as mulheres de hoje e que as mulheres de hoje contaminem-se. Acho que temos um longo caminho.

Nena nunca imaginou que tipo de sociedade existiria hoje caso sua construção se desse a partir do olhar feminino, e não do masculino. Ela conta, porém, que Pra não morrer lhe deu ainda mais certeza sobre o papel de poder que a mulher exerce.

– Acho que as mulheres sempre estiveram no poder, que não é o político, o econômico, o das negociações, mas é o da casa, o do afeto, o de criar os filhos, a mulherada é que faz o trabalho de formação não reconhecido, a mulherada sempre esteve junto.

 

Programação do FICA

A 1ª edição do Festival Internacional da Casa da Ribeira (FICA) segue até domingo com espetáculos de companhias de Mossoró e Natal. Confira:

O Torto andar do Outro
Cia Pão Doce
10 de março (sábado)
20h

A Casatória C’A Defunta
Cia Pão Doce
11 de março (domingo)
17h

Meu Seridó 
Casa de Zoé
11 de março (domingo)
19h

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"