OPINIÃO

Esqueça 1964 e tanques na rua! Golpe hoje é sutil e institucional!

Muita gente querida teme um Golpe Militar no Brasil este ano ou no próximo. Compreensível. Bolsonaro insinua este golpe desde que assumiu, seja em insinuações ou através de grosserias. E não apenas ele, mas seus filhos e alguns militares mais aloprados.

Perdemos as contas de quantas vezes Bolsonaro não afirmou que “desse jeito não dá”, “eles vão ver”, “A Esquerda está exagerando” e repertório similar e vasto de ameaças. Semana passada em entrevista ao jornal O Globo o comandante da Força Aérea Brasileira, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior disse que “As Forças Armadas não aceitarão ataques levianos”, referindo-se à fala do senador Osmar Aziz sobre uma banda corrupta das FAs.

Há quase um mês, um dos ideólogos da extrema direita militar, o coronel reformado Gélio Augusto Barbosa Fregapani escreveu texto onde pergunta “Teremos uma guerra civil?”,  logo na abertura do artigo, intitulado Comentário Geopolítico, uma alucinação, mas que insuflou o bolsonarismo raiz, como dizem.

Não duvido que alguns (ou muitos?) militares sonham com uma nova Ditadura. Na verdade muita gente próxima a nós também deseja isso, e não duvido que parentes, supostos amigos e vizinhos me delatariam tranquilamente para um novo DOI-CODI e nem perderiam a missa ou culto enquanto eu estivesse no pau de arara. Enfim.

Mas dito tudo isso, vamos enfim ao ponto. Não haverá um Golpe Militar. Pelo menos não como vimos em 1964, no modelo antigo, clássico, digamos assim. Vimos nos documentários os tanques na rua, os quartéis alvoroçados, comunistas jogando livros fora com medo de serem flagrados com eles; prisões de “subversivos” e censura a canções populares.

Foi assim. Mas de 1964 para hoje, passaram-se 57 anos. O Brasil mudou. O Mundo mudou. E muito. Em alguns casos, para melhor. Hoje existe uma coisa chamada Internet, por exemplo. Durante a Guerra Fria, no Brasil sob Ditadura ter livros de Marx e Lenin era quase uma confissão de culpa. Hoje armazenamos centenas de livros em PDF, word etc e tal em pen drives, chips, e-mails ou “nas nuvens”. Antes um cabo e um sargento podiam entrar de rompante num clube e prender “subversivos”. Hoje nem milhares de Generais Helenos teriam condições de contar a comunicação pelo Zap, por exemplo.

Mas, alto lá, não estou bancando a Poliana tecnológica. Na verdade, o Golpe já está acontecendo, mas de outras formas.

O bolsonarismo ganhou durante anos algumas narrativas e se consolidou em parcela da sociedade, portanto, conseguiu se firmar dentro das instituições. Não se trata mais de guerrilheiros combatendo de fora para dentro um poder estabelecido. Mas, de uma ditadura implementada de dentro para fora. Mais sutil e visceral.

Como por exemplo nas polícias. As PMs de todo o Brasil de maneira geral aderiram de corpo e alma ao bolsonarismo. De certa maneira já iniciariam um golpe por conta própria contra uma parte da população por razões socioeconômicas (periféricos), raciais (pretos) e ideológicas (esquerdistas, “comunistas”). É bem claro que uma parte da população brasileira recebe tratamento diferenciado – e para pior – da polícia, na verdade, funcionários públicos pagos com o dinheiro de nossos impostos e que deveriam nos proteger.

Uma parte do Golpe também está presente no Judiciário, o mesmo que “comprou” acusação e julgamento contra Lula por parte do MP de Deltan Dalagnol (este um evangélico ferrenho também, falaremos disso depois) e Sérgio Moro, depois premiado com o Ministério da Justiça pelos bons serviços prestados. Ainda hoje parte do Judiciário mantém o ódio antiPT que colabora com as posturas autoritárias de Bolsonaro.

Temos ainda o segmento evangélico, este que incorporou desde cedo o antipetismo e associou uma criatura como Bolsonaro ao oposto do que eles consideram o “comunismo”: Cristão, pela família tradicional e conservador.  Para os evangélicos fanáticos e para os líderes picaretas naipe Malafaia, Valdomiro e RR Soares, um Golpe viria a calhar para que seus interesses (digo, sua ideologia cristã) possa se sobrepor – ainda que à força – sobre o ateísmo, gayzismo, abortismo, libertinagem que eles associam á Esquerda.

Ou seja, todo esse pessoal vem realizando o Golpe, mais Conservador e Liberal, digamos, do que Militar, desde 2018, ainda com Temer no poder. A partir de 2019, com um ogro na presidência, ficou mais fácil tanto se manifestar pelo Golpe em si (a turma do barulho) como operacionalizar as instituições de maneira discreta e eficiente. Demonstrativo disso é a prisão da mulher em Porto Alegre por bater panela quando Bolsonaro passou de moto. Ou a prisão arbitrária e tortura de Rodrigo Pilha. Partes do Golpe em andamento, claro. Mas, esqueça os tanques na rua e os milicos batendo em portas atrás de literatura subversiva. O Golpe é mais sutil. E o confronto contra este Golpe em curso também deve ser sutil, abranger a Internet e focar nas instituições.

 

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