OPINIÃO

Essa magnética paixão rubro-negra

Lembro que quando eu era criança e passava as férias em Mossoró, capital do Oeste Potiguar, um vizinho do meu tio Sérgio Capistrano costumava a colocar uma placa na calçada com o resultado do jogo da rodada. Isso é, ele só colocava a placa quando o Flamengo perdia. Comentava-se à boca pequena que o tal sujeito, por um motivo desconhecido, nutria um ódio avassalador contra o Flamengo e que a meninada não podia nem passar pela caçada se estivesse trajando o manto sagrado, que corria o risco de levar uma paulada na cabeça.

O vizinho do meu tio Sérgio, lá na beira do rio Mossoró, não torcia por time nenhum. Não era vascaíno, botafoguense, tricolor. Como um amante rejeitado pelo objeto de sua paixão, sua loucura era divulgar aos quatro cantos a derrota do time que odiava e que era o mesmo time que arrebatava meu coração nos anos 80 do século passado.

De fato, não existe no Brasil um time que esteja tão ligado à ideia radical de paixão quanto o Flamengo. Diante do manto rubro negro, não se fica indiferente. Se ama ou se odeia.

Nas suas origens filológicas, paixão é uma palavra que carrega consigo o peso semântico do termo grego pathos, que compõe o radical de “patológico”. O pathos clássico denotava uma doença, uma afecção, um distúrbio que chacoalhava a alma e abalava toda racionalidade. Estar acometido pelo pathos era justamente entregar-se a um delírio frenético, uma obsessão, um amor selvagem ou um ódio atávico, que não cedia a nenhum equilíbrio possível, a nenhuma frieza viável.

O ódio ao Flamengo é uma expressão suprema do amor que as cores rubro-negras produzem no tecido psicossocial do país.

E deve ser realmente a cor, amigo velho… deve ser a cor… a poderosa combinação do negro da pele africana com o vermelho do urucum dos povos originais. Deve ser essa afecção cromática o motivo pelo qual o manto sagrado toca tão fundo a alma das pessoas, mesmo daquelas que vivem a milhares de quilômetros da Gávea e que nunca, nunquinha, pisaram nem perto do Maracanã.

Meu avô, Luís Augusto de Paiva, nascido em 1918, lá no pé da serra do Lima em Patu, Alto Oeste potiguar, segundo contava minha mãe, já acompanhava no rádio, ao pé do ouvido, os jogos do tricampeonato carioca de 1953, 54 e 55, vencido no ritmo da Charanga do Jaime, com Rubens, Dequinha e Pavão. Como meu avô, milhares de brasileiros espalhados por esse país imenso, compuseram a inexpugnável e irritante paixão que move uma nação dentro da nação. Uma paixão que cria um universo à parte, uma realidade paralela, uma projeção do desejo que se vincula com uma força avassaladora e sem nenhum rasgo de bom senso a uma flâmula de duas cores.

O que irrita na magnética (a entusiasmada torcida do Flamengo) é que ela cultiva, apesar de sua imensa conexão com os rincões do Brasil e com as periferias das grandes cidades brasileiras, o hábito insuportável de ser feliz.

Não importa se é o Flamengo de Obina, de Ronaldo Angelim, de Zico ou de Bruno Henrique, Gabigol e Arrascaeta. O amor não arrefece, a alegria não se esvai, a paixão não se apaga e todas as forças superlativas da fé e da crença no impossível se misturam em um balé subversivo, que transforma a dor de ser gente em um país de brutalidades, numa festa catártica onde o enorme, o amplo, o intenso, dão o tom dessa gente que ri quando deve chorar, e que não vive, apenas aguenta.

Talvez por isso a gente, que veste esse manto, seja realmente tão irritante quanto dizem muitos torcedores de outras cores Brasil a fora.

Num país que insiste em nos brutalizar, numa época em que se tritura a esperança como se fosse carne moída na feira, a energia de uma torcida que escolhe a alegria e transforma tudo em vitória, mesmo quando a opressão avassaladora dos fatos se impõe com o açoite do cotidiano, nunca despertará outra coisa que não seja paixão.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.