OPINIÃO

Está faltando macho no Brasil

​​Sentado à mesa do bar-lanchonete no principado de Nova Parnamirim, onde moro, percebo o homem sozinho na mesa ao lado resmungando qualquer coisa com a televisão ligada e com ele mesmo. Passam pela mesa dois adolescentes, um deles de brinco e o outro de cabelo azul. O homem – lá pelos 60 anos, jeito de tiozão do pavê inconveniente e tosco – comenta em voz alta, talvez para puxar assunto comigo: “Está faltando macho no Brasil!”.

Na hora pensei em perguntar se ele estava procurando um. Mas, o instinto de autopreservação e vontade de continuar em paz com meu espetinho de coração de galinha e Petra gelada, como quase sempre, falaram mais alto e baixei a cabeça fingindo usar o celular. Mas, imediatamente lembrei de duas histórias que vivi. Uma delas há quase um mês, em um restaurante na Cohabinal, em Parnamirim, quando encontrei um vago conhecido, amigo de amigos, que decidiu que deveria puxar papo comigo. Em certa medida ao se referir a um jornalista, o sujeito disse: “Mas, você sabe, ele não é macho assim tipo eu e você”. Também desta vez preferi desconversar e argumentei que precisava ir ao banheiro.

E no começo do ano caminhando no calçadão de Ponta Negra com uma pessoa querida, em dado momento ela encontra um ex-colega de UFRN e paramos para conversar. Sujeito tranquilo, bacana, começa a desabafar sobre a vida afetiva, quando em certo momento, dispara: “As mulheres hoje não deixam os homens serem machos de verdade”. Diante dos olhos arregalados ele dissertou sobre o assunto e até falou que existe um termo, digamos, técnico para esta posição: Masculinismo. Já havia ouvido falar, mas depois pesquisei com a devida calma. Trata-se de um movimento que data ainda dos anos 1960 mas que ganhou força de dez anos para cá, na qual militantes defendem a ideia de “defender direitos dos homens​”, que na ótica deles estão “sendo cada vez mais humilhados pelas mulheres”, leia-se pelo Feminismo. E que precisam resgatar justamente o “macho” que vem sendo inibido pelas mulheres. Misoginia, claro.

Claro que esta nostalgia do “macho” como homem/provedor/chefe da casa não é exclusiva nem destes anos atuais e nem do Brasil. Mas, também é certo que a ascensão de Bolsonaro ​​à Presidência da República deu combustível para essa postura em terras tupiniquins. Afinal de contas, Jair, com seu físico de atleta e que teve uma filha quando “deu uma fraquejada” é o clássico macho brasileiro em que tanta gente se espelha e se identifica, para muito além da política. O que explica parte de sua votação e parte do apoio que ainda tem entre os não fanáticos. É gente que fala “contra a corrupção” mas não se importa com mansões de 6 milhões de reais, com imóveis comprados com dinheiro vivo e esquema de rachadinhas. O que importa é que o presidente é “homem macho”, em vez de, por exemplo, Dilma Rousseff, mulher sem marido e “histérica e com arroubos nervosos”, segundo aquela capa da Veja. Também não é Lula, “que defende gays” e certamente é mal visto por colocar as mulheres em condição de igualdade (compare a relação dele com Marisa e agora com Janja com a do Messias com Michelle).

Daí termos agora espalhados por aí um contingente de homens nostálgicos do “macho” daquela época em que gays, feministas tinham pouco ou nenhum espaço. Época em que os pais apoiavam que os filhos se iniciassem sexualmente com as empregadas domésticas que geralmente eram “uma menina trazida do interior”, ou que grupos de homens assediavam abertamente garçonetes em bares e restaurantes. Um tempo onde os machos podiam fazer tudo, digamos.

Não tenho formação de psicólogo, mas parece bem claro que essa ideia toda é fruto de frustração, seja nos campos profissional, social, cultural ou sexual. Uma frustração que, devidamente empoderada, pode ser tornar agressiva e até perigosa. Vide o aumento nos casos de feminicídio e homofobia registrados no país.

Triste país onde um “macho” ressentido detém o cargo maior da nação e um grupo imenso de outros “machos” sente uma saudade indisfarçável de um tempo anacrônico. E parece também claro que essa postura (masculinismo) flerta abertamente com a misoginia. Ou seja, temos então homens machos que odeiam gays mas também odeiam a companhia de mulheres, tanto que o protótipo do “macho” costuma geralmente andar em bando com outros homens, digo, machos. Para voltar à afirmação do camarada lá no bar que deu título a este texto, registro que deve, sim, estar faltando macho para eles. Que procurem, achem e sejam felizes para sempre entre eles.

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